Preto, branco e bege

Os jovens 'beges' ou 'globais' são boa parte da geração Obama e podem decidir a eleição do democrata

Lúcia Guimarães *, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2008 | 22h10

Depois de tudo que aconteceu nestes oito anos, como é possível que os americanos ainda possam votar no continuísmo? Ouço esta pergunta periodicamente e os números apertados das pesquisas na semana que passou mostram quanto a dúvida é atual. A má notícia para o senador Barack Obama, às vésperas da convencão democrata, foi temperada com um presente bem embrulhado, ainda que involuntário, de seu rival. O branco aritmético do senador John McCain, que, consultado por um repórter, perdeu a conta do número de casas que possui ("minha equipe vai ter que responder") mostrou não só que o professor Bartolomeu do saudoso Ronald Golias poderia ter explorado seu futuro político na terceira idade. Levou também a discussão para o tema que pode salvar Barack Obama - a economia. Mesmo com 80 % dos americanos convencidos de que a economia vai mal, um veterano piloto dos bons tempos, o ex-secretário do Tesouro Robert Rubin, um dos conselheiros que acabam de reforçar o time Obama, admite em público que ele precisa articular melhor sua mensagem. O que intriga os estrangeiros, ao ver cenas como a do senador surfando com sua oratória elegante diante de 200 mil alemães, é o fosso que separa o mensageiro dos destinatários.Há quem diga que a resposta à pergunta que não quer calar está na questão que os americanos gostariam de varrer para debaixo do tapete - raça.Em meio a todas as explicações para a dificuldade de um político talentoso, telegênico e jovem disparar na frente de um senador que acha que o Paquistão tem fronteira com o Iraque e admite pouco entender de economia, há uma resistência a colocar o dedo na ferida. Nenhum comentarista quer botar a cara na CNN e dizer: John McCain está liderando entre homens brancos de meia-idade porque eles não querem votar num negro.O colunista político John Heilemann resolveu levantar o tapete num número recente da revista New York que dedicou vários artigos aos graus de negritude do candidato. Seu argumento razoável é de que a máquina de ataque republicana, sofisticada demais para escorregar na banana da propaganda racista, explora a condição de outsider de Barack Obama como um ladrão de identidade que não deixa pegadas. "Elitista", "distante" e "exótico" se tornam codinomes para "diferente de nós". Só o gênio do marketing político aliado ao sonambulismo do eleitorado pode produzir empatia das massas com um senador de 71 anos que vive das benesses de sua mulher de US$ 100 milhões, não se lembra se possui 7 ou 8 casas e muda de opinião sobre impostos, meio ambiente e energia como eu troco de marca de xampu.Assim como evitou a baixaria na campanha e, diante das novas pesquisas, assumiu um tom mais agressivo, Barack Obama teria o privilégio de ignorar o assunto tabu? Como ser o candidato da mudança, o antiestablishment, o unificador e chafurdar na campanha negativa e na ferida racial? Ele administrou o abacaxi incendiário Jeremiah Wright com um discurso primoroso e absoluta frieza na hora de detonar o pastor que era seu conselheiro desde a juventude. Mas, sem conquistar uma parcela maior do voto branco que a que detém atualmente, Obama não se muda para a Avenida Pensilvânia. Será que ele consegue manter distância do velho discurso racial, representado por caciques desmoralizados como Jesse Jackson e ao mesmo tempo colocar o assunto raça no palanque para dispersar a resistência da classe trabalhadora branca?Se o eleitorado "bege" não comparecer às urnas, ele terá poucas chances. O eleitorado bege, ou "Os Primeiros Globais", forma, segundo o veterano analista de pesquisas John Zogby, boa parte da geração Obama. No livro que acaba de lançar, The Way we Will Be, Zogby analisa as mudanças de humor de vários segmentos da população americana e digere os dados para seus inúmeros clientes corporativos e institucionais. Um capítulo inteiro é dedicado aos Primeiros Globais, os jovens de 18 a 29 anos e Zogby quer desfazer o que considera mitos sobre uma geração perdida. Ao contrário do que afirmam autores como a socióloga Juliet Schorr, horrorizada com uma juventude materialista e vítima de lavagem cerebral por marcas e produtos, Zogby identifica sinais cosmopolitas e enumera suas razões. A óbvia, a internet, pode ter formado um eleitor com educação superficial, mas muito mais ligado no resto do mundo. Um subproduto da internet, no país notório pela ignorância geográfica, é o enorme aumento de viagens ao exterior entre os Primeiros Globais. Zogby separou o grupos de jovens que foram ao exterior do grupo que não saiu do país e constatou entre os que viajaram índices de apoio mais alto a causas que têm colocado a América de George Bush na contramão do mundo ocidental, como o Tratado de Kyoto.Os Primeiros Globais têm muito mais probabilidade de, ao entrar no mercado de trabalho, ser chefiados por um negro, um hispânico ou asiático, o que os expõe a variedade cultural e aumenta a tolerância.Estes jovens, segundo Zogby, são liberais na definição semântica de liberalismo - desconfiam de ideologias de direita ou esquerda. E, uma surpresa, são capazes de navegar sobre a sutileza das questões complexas, numa rejeição ao maniqueísmo orquestrado pela direita conservadora. Mesmo os jovens que são contra o aborto manifestaram-se, em números consideráveis, a favor da manutenção do direito constitucional ao aborto. A geração que dança ao som de astros internacionais, como a colombiano-libanesa Shakira e descobre a Anistia Internacional pela MTV, merece mais crédito, argumenta John Zogby.São jovens que exibem confusão sobre os Estados Unidos porque o país deles é o planeta. E para os que lamentam com razão a destruição da privacidade, o voyeurismo e o exibicionismo pela Internet, John Zogby aconselha ver o copo meio cheio. Essa turma pode ser acessada com mais agilidade pela classe política. Os Primeiros Globais do analista Zogby conseguem se identificar com o birracial Obama porque aprovam o casamento inte-racial numa proporção quase três vezes mais alta do que a população de mais de 65 anos. Isto num país onde há 40 anos miscigenação dava cadeia. A dúvida é se os Primeiros Globais vão largar o computador para ir a uma jurássica cabine eleitoral no dia 4 de novembro. *lgsamambaias@gmail.com

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