Editora Fósforo
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Primeira autora confirmada da Flip 2022 fala sobre como a escravidão moldou a sociedade

Saidiya Hartman conta ao 'Estadão' a história dos revolucionários em 'Vidas Rebeldes, Belos Experimentos'

Caio Delcolli, Especial para o Estadão

23 de julho de 2022 | 16h00

Seja andando por vielas enquanto bebiam cerveja, dançando em um bar dentro de um porão ou indo para a cama com outras mulheres, as personagens de Vidas Rebeldes, Belos Experimentos, da norte-americana Saidiya Hartman, fizeram história entre o fim do século 19 e o início do 20 (mesmo sem entrar em livros escolares).

Esse laboratório social é tema do livro vencedor, na categoria de crítica, do National Book Critics Circle Award – e também será de conversas na Festa Literária de Paraty (Flip) deste ano. A escritora é a primeira confirmada para a 20ª. edição do evento, que acontece entre 23 e 27 de novembro. 

“Assim como nos Estados Unidos, a escravidão moldou a sociedade brasileira. Não podemos fingir que o fim do ser humano como propriedade é o fim da ordem que tornou a escravidão possível. Precisamos confrontar isso”, recomenda a autora.

Ao combinar pesquisa, imaginação e poesia, Vidas Rebeldes, Belos Experimentos faz uma crônica sobre jovens negras pioneiras nos modos alternativos de vida, em guetos da Filadélfia e de Nova York, fora dos moldes patriarcais. Na entrevista, Hartman, 60, fala sobre o legado de negras rebeldes e o ativismo de figuras públicas hoje, como Beyoncé, entre outros assuntos.

‘Vidas Rebeldes’ cobre o período de 1890 a 1935. O que faz essas décadas serem importantes para os afro-americanos?

Foi o tempo em que uma ou duas gerações já haviam nascido depois da abolição. Também foi a virada de século, com o nascimento do moderno, e o ponto mais violento a que o racismo chegou, um período que historiadores chamam de nadir. Foi quando emergiu a segregação com aparato legal, muitos deixaram as plantações do Sul e se mudaram para as cidades. Havia também a constituição da vida moderna, a ideia de que a 1ª. Guerra Mundial era o limiar do novo e os negros não estavam incluídos nisso.

 

Você tem um método de escrita único, a “fábula crítica”, que une a pesquisa histórica rigorosa à linguagem literária e à imaginação ficcional. Como você é recebida por outros acadêmicos, leitores e a crítica literária?

Desde o meu primeiro livro, eu quero que as pessoas sintam a força das vidas impactadas por esses acontecimentos. Elas eram de carne e osso e tinham desejos. São a História encarnada. O meu método tem sido desafiador para a prática tradicional da academia, mas, Vidas Rebeldes tem recebido vários prêmios acadêmicos. Há um reconhecimento da importância da figura dos negros, dos marginalizados e meios para animar a vida de quem não deixa um grande arquivo.

Você questiona os seus achados em arquivos. O que você aprendeu sobre eles para a pesquisa deste livro?

Os documentos que eu encontrei traduzem a vida negra como um problema social, e principalmente em legendas das fotografias. Duas me vêm à mente. Uma é a de duas garotas diante de um prédio e meninos russos e judeus em um canto. A legenda dizia “quarteirão negro”, mas por que, quando a favela era interracial? Porque isso era considerado um perigo. A outra fotografia traz uma legenda dizendo em tom ameaçador: “dois homens negros na porta olhando crianças italianas”. O meu trabalho crítico é tentar desfazer isso, pois tratam-se de documentos ricos que desafiam a nossa maneira de entender o passado. Sou uma escritora de não ficção criativa porque a realidade é mais estranha que a ficção.

 

Essas “modernistas sexuais” e “radicais” sofreram consequências?

Sim, elas eram frequentemente presas. Havia o conceito jurídico de “status offense” [ofensa de status, em livre tradução para português], em que um crime é determinado não com base no ato em si, mas por quem o pratica. Por exemplo, não era crime fazer sexo, mas assim seria caso você fosse menor de idade. Status offense poderia ser uma mulher adulta andando sozinha pelas ruas da cidade à noite. Negras foram submetidas à violência policial. Os homens chineses eram considerados ameaças sexuais e, as negras que aparentemente os namoravam, poderiam ser enviadas a um reformatório ou serem vistas como prostitutas porque atravessaram a barreira racial.

 

Há similaridades entre as mulheres negras sobre as quais você escreve e as de hoje?

As do meu livro foram modelos para as mulheres queer e insurgentes de hoje. Não viviam dentro do confinamento patriarcal. Elas escolheram ser mães porque quiseram. Hoje, por outro lado, a Suprema Corte voltou atrás com a Roe vs Wade [decisão que, nos anos 1970, tornou possível a interrupção de gravidez legal] e alguns estados têm banido o aborto. Essas jovens negras enfrentaram as normas legais do tempo delas, o que tem sido exigido de nós no século 21, tendo em vista os imensos retrocessos nos direitos ao aborto e à liberdade de reprodução.

 

Você descreve o mesmo sistema que Beyoncé confronta na nova música dela, ‘Break My Soul’ [quebrar minha alma]. Como você a avalia enquanto ícone, mesmo no contexto capitalista, para as jovens negras de hoje?

Eu escrevo sobre desconhecidos, e Beyoncé é um ícone global do pop, algo parte de uma cultura capitalista de commodities. Ela é uma artista muito talentosa e uma figura complexa, mas no meu panteão de feministas, não é uma figura central, embora a música seja poderosa. Existem vários feminismos. Um deles está contente com o capitalismo, e esse não é o meu. Existem outras feministas, como Angela Davis, que focam de verdade as estruturas que tornam a ordem vigente possível.

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