Jack Walls
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Primeiro livro gay do Brasil rompeu tabus e ganha uma nova edição

'Bom Crioulo', de Adolfo Caminha, teve de se curvar aos preconceitos da época para poder ousar em sua temática

José Castello*, Especial para o Estado*

15 de agosto de 2019 | 09h00

A ciência foi a grande dama do século 19. Objetiva, positivista, baseada no culto radical da razão, ela passou a esquadrinhar o mundo, a defini-lo, a subdividi-lo, a classificá-lo, em um intenso esforço para domar a realidade. Nas artes, a ciência tomou corpo no Naturalismo, o movimento artístico que radicaliza as premissas do realismo, colocando as leis naturais e o saber racional acima dos valores religiosos e morais. Foi ainda protegido sob o manto da ciência que o escritor carioca Adolfo Caminha (1867-1897) reuniu forças para escrever Bom Crioulo, relato de 1895, considerado o primeiro romance gay da literatura brasileira. Ele ganha uma nova edição da Todavia, com prefácio de James N. Green e posfácio de Regina Dalcastagnè.

O surgimento do ex-escravo e marinheiro Amaro, mais conhecido como o Bom Crioulo, o protagonista do romance, significou um grande avanço para a literatura brasileira. Não apenas por sua homossexualidade, mas também por ser ele negro e, ainda mais, um trabalhador braçal, sua figura trouxe à cena elementos até ali proibidos, ou mesmo banidos. O Bom Crioulo é um personagem pioneiro, e quanto mais o tempo passa, maior se torna. É em boa hora que, agora, o reencontramos.

Em um momento no qual gays, negros e pobres se encontram expostos a novas e violentas formas de preconceito, a leitura de Bom Crioulo ganha inesperada atualidade. O romance conta a história de sua paixão pelo grumete Aleixo, um belo adolescente branco e de olhos azuis, humilde filho de pescadores, que trabalha na mesma corveta em que ele serve. Mas não foi fácil para Caminha tratar desse amor ardente entre dois homens, ainda mais em um momento da história no qual os homossexuais eram encapsulados no rótulo de “pederastas” – que tinham como modelo os homens afeminados que circulavam, em calças justas e em busca de um amor rápido, pelo largo do Rossio, atual Praça Tiradentes. Também a ciência confina o amor gay na armadura teórica das aberrações e das perversões. Para narrar este amor proibido, um temeroso Caminha negociou com seu século, disfarçando-se sob os preceitos e preconceitos de sua época. Vestiu a máscara da ciência positiva, com seus dogmas rígidos e seu amor pelas classificações; e só assim conseguiu escrever.

Escritor jovem – morreu, de tuberculose, apenas um ano depois de publicar seu livro, aos 29 anos –, ao mesmo tempo em que traz à cena dois personagens rebeldes e dissonantes, os envolve com os princípios da “ciência natural” de seu tempo, para só assim ter a ousadia de apresentá-los – personagens, agora, domesticados e rotulados – a seu surpreso leitor. Não importa saber se Caminha compartilhava ou não desses rótulos e preceitos; o fato é que deles fez seu escudo ou, provavelmente, não teria escrito o livro que escreveu.

Refém dos discursos médicos e legais de seu tempo, Caminha deles não se desvia. Ao contrário, ele os adota, tentando assim mascarar, ou abrandar os aspectos radicais da história que está a narrar. Em um paradoxo, assinala James N. Green, e apesar de adotar os clichês e as simplificações científicas de seu tempo, Caminha “reconheceu uma gama maior de comportamentos sexuais que muitos homens eram capazes de viver e de gozar”. Também Regina Dalcastagnè, em seu posfácio, reconhece que o escritor, para enfrentar os tabus da época, precisou trabalhar com um olhar ambíguo e “oficial”. Caminha fez, assim, um jogo duplo: ao mesmo em que se submete ao discurso dominante e amordaça a realidade, ele a devassa e a expõe.

Ao descrever Amaro – que seus colegas marinheiros, por sua força e simpatia, chamavam de Bom Crioulo –, Caminha anuncia que ele é “rude como um selvagem”. Do mesmo modo, os oficiais do navio, para explicar o espanto que o marinheiro lhes causava, o atribuem, agora presos à ideia da raça, a “cousas do caráter africano”. Quando descreve a paixão que o une ao grumete, Caminha a trata como um “desejo fisiológico de posse mútua”, reduzindo assim o sentimento amoroso a um mero processo físico e químico. Mas não esconde seu espanto: “Como é que se compreendia o amor, o desejo de posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?”

Ao descrever o momento em que os dois amantes, pela primeira vez, se deitam juntos, o mesmo narrador apressa-se em ressalvar: “E consumou-se o delito contra a natureza.” A ideia do delito – de uma infração às leis, de uma transgressão da moral – sintetiza, com força, o modo com as relações homossexuais eram encaradas naquele momento. As relações sexuais, se pensava, seguiam o instinto natural e a prática homossexual, ao contrário, pervertia e adoecia a natureza. Inevitável se perguntar: ainda hoje, não é assim, um crime contra a natureza, que muitos homens a veem?

Ao cair em si e descobrir sua homossexualidade, Bom Crioulo leva Caminha a escrever: “Nunca se apercebera de semelhante anomalia”. Também a ideia da anomalia envolve a relação entre os dois. Para seus encontros amorosos com o adolescente, Amaro aluga um quartinho no centro do Rio. Ali convence um tímido Aleixo a tirar a roupa na penumbra, só para que possa admirá-lo. Nesse momento, Caminha faz alusões aos efebos da Grécia Antiga e também a Sodoma, mas nem com essas referências cultas ele abranda a linguagem “técnica” com que envolve o amor entre os dois homens.

O casal se separa quando Amaro é transferido para um couraçado. Logo surgem a suspeita e o ciúme, que se materializam na inesperada, mas fogosa, paixão do grumete pela proprietária da casa, a portuguesa D. Carolina – também atribuída à “animalidade humana”. Mais uma vez, o amor é reduzido a um evento fisiológico. E os amantes – hétero ou homo – passam a ser vistos como animais amarrados ao instinto. O trágico desfecho confirma o caráter selvagem com que o sexo – sobretudo, o homossexual – é tratado. Nem por isso Caminha deixou de escrever um romance corajoso, que ousou pisar onde ninguém antes pisou. 

*JOSÉ CASTELLO É JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PELA UFRJ E ESCRITOR. AUTOR DE 'RIBAMAR' (BERTRAND BRASIL)

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