Siphiwe Sibeko/Reuters
Siphiwe Sibeko/Reuters

Primeiro negro a ganhar o Nobel de Literatura, Wole Soyinka lança romance após quase 50 anos

Romance trata de uma corporação que vende partes de corpos humanos e um falso profeta que usa elementos de diferentes religiões para atender seus propósitos

Ruth Maclean, The New York Times

08 de outubro de 2021 | 10h00

ABEOCUTÁ, Nigéria - Wole Soyinka, o ativista incendiário, está sempre criando problemas para Wole Soyinka, o escritor.

Como no dia em que invadiu uma estação de rádio para impedir que ela transmitisse o que ele disse serem resultados falsos da eleição, e foi preso por isso. Ou quando ele se esgueirou para Biafra no auge de sua guerra pela independência da Nigéria e passou dois anos na solitária após pedir o fim dos combates.

Quando o primeiro ganhador negro do Prêmio Nobel de literatura - e o primeiro africano - sente que coisas como liberdade e democracia estão ameaçadas na amada nação cuja história está interligada com a sua, ele não consegue se segurar. Precisa se envolver.

“É o meu jeito,”, Soyinka, 87, disse durante uma entrevista em Abeocutá, sua cidade natal no sul da Nigéria

Ele chama esta casa de tijolos, rodeada pela floresta e pelo canto dos pássaros, de seu santuário. Sua voz, de uma cadência profunda e distinta, evoca as peças hipnóticas pelas quais é mais conhecido, ora solene, ora animada. Sua camisa, desabotoada quase até a cintura, combina com sua reputação de rebelde, aquele que rasgou seu green card depois que Donald Trump se tornou presidente, aquele que chama o presidente de seu próprio país de "o Rip Van Winkle da história da Nigéria" e o de Uganda de  “um geriátrico sem vergonha”.

Ele tira sarro de si mesmo por esse jeito, essa necessidade de falar o que pensa.

“Infelizmente, alguns de nós não são muito sábios. Sabemos o que temos que fazer, quando devemos nos aposentar, nos esconder em algum lugar, viver uma vida tranquila”, disse ele, sorrindo, enquanto nos sentávamos em poltronas de vime em uma galeria elevada e aberta. “Mas não seguimos nossos próprios conselhos, certo? É um mistério para mim.”

No ano passado, achando que precisava de uma mudança de um longo feitiço “confinado e preso à sua mesa,” ele quase dirigiu sua peça de 1975 Death and the King’s Horseman, em Lagos, percebendo após algumas leituras que não queria mais fazer isso.

Dirigida então por sua amiga, a diretora nigeriana de cinema e teatro Bolanle Austen-Peters, a peça, que traz a história de um cavaleiro do rei que deve morrer quando seu mestre morrer, parecia um presente em meio à escassez de teatro e apresentações durante a pandemia. Décadas depois de escrever a peça, o público de Lagos, na noite de maio em que assisti, aplaudiu e chorou por causa de uma obra em consonância com a voz de Soyinka, ao mesmo tempo severa e delicada. Ele “cria o drama da existência”, escreveu o comitê do Nobel em 1986.

Às vezes, o temperamento incendiário atrapalha a escrita. Para seu editor de longa data, Erroll McDonald, no entanto, eles coexistem. "Eles se alimentam um ao outro”, disse ele. “É impossível pensar em um sem o outro.” E Soyinka, o ativista, parece continuar fornecendo material para Soyinka, o escritor.

E isso também acontece em seu último trabalho, Chronicles From the Land of the Happiest People on Earth, seu primeiro romance em quase 50 anos, que a Pantheon vai publicar nos Estados Unidos na terça-feira. Suas reviravoltas na trama, o elenco animado de personagens e seus temas sinistros - uma corporação que vende partes de corpos humanos, um falso profeta que usa elementos de diferentes religiões para atender seus propósitos - podem parecer improváveis, mas não para alguém em um relacionamento íntimo com a Nigéria.

Íntimo e tumultuado

Por diversas vezes, Soyinka teve que fugir da Nigéria e se exilar, colocou sua vida em risco porque falou contra os políticos do momento. (Uma vez, voltou para a Nigéria esgueirando-se pela vizinha Benin.)

Em 1994, perseguido pelo ditador militar Sani Abacha, fugiu de Abeocutá agarrado à traseira de uma motocicleta por 10 horas. Ele fez um juramento naquela noite, enquanto ia para o exílio por trilhas de terra pela floresta, sua cabeleira - tão icônica que deu até nome a uma banda - enchendo-se de insetos.

Soyinka se lembrou do juramento mais tarde em suas memórias de 2006, “You Must Set Forth at Dawn”: “Se eu morrer fora de minhas próprias fronteiras, enterre-me em qualquer terra estranha onde eu tenha expirado - se Sani Abacha ainda dominar a nação na hora em que eu morrer!"

Foi uma decisão esmagadora. Escondida em seu pedaço de floresta em Abeocutá, a cidade remendada entre altos afloramentos de granito de onde ele acabara de fugir, havia uma pequena área de cactos. Soyinka volta a isso repetidamente em sua escrita. É onde ele quer ser enterrado.

“Eu levava a Nigéria comigo durante esse período,” ele disse. Mas no exílio, não sabia se algum dia poderia voltar, vivo ou morto.

Em sua ausência, foi acusado de traição. Mas quando estava se preparando para o longo período no exílio, Abacha morreu. Soyinka voltou do exílio no Ocidente, entorpecido.

De algum modo, Soyinka parece mais preocupado com o futuro da Nigéria hoje do que na época de Abacha. Para ele, a natureza da ameaça mudou.

“Algo aconteceu com a qualidade da sensibilidade neste país”, ele disse. “Eu ainda não pensei a fundo sobre isso. Mas algo aconteceu neste país. Algo degringolou.”

Austen-Peters, a diretora teatral, também pensa assim. “O problema é endêmico, está lá, e está ficando cada vez maior e maior”, ela disse. “E não temos mais instituições. Todas as instituições que cuidavam da Nigéria desmoronaram.”

De fato, a nação mais populosa de África, um país de incrível diversidade em tantos aspectos - língua, religião, etnia, paisagem - tem sido, ao longo da última década, mais ou menos, devastado por uma crise atrás da outra. Boko Haram e as suas poderosas ramificações, a província do Estado islâmico da África Ocidental, têm assolado o nordeste, matando dezenas de milhares de civis. Os sequestros em massa se tornaram comuns no noroeste. Os confrontos entre pastores cujo gado destrói fazendas e fazendeiros que expandem seus campos para corredores tradicionais de pastoreio se tornaram uma questão política preocupante. As forças de segurança atacam civis, incluindo tantos jovens que no ano passado, não muito tempo depois dos protestos do Black Lives Matter acontecerem em toda a América, eles se uniram em um movimento conhecido como EndSARS. (SARS refere-se ao Esquadrão Anti-Roubo Especial da Nigéria, a unidade policial que os manifestantes acusaram de abusos.)

Em You Must Set Forth at Dawn, ele cita um provérbio iorubá, a etnia a qual pertence, dizendo que quando alguém se torna um ancião, deixa de entrar nas batalhas.”

“Alguma esperança!” ele escreve. “Quando essa sabedoria foi dita pela primeira vez, não haviam pensado em uma certa entidade chamada Nigéria.”

O prestígio do Nobel amplifica sua voz nessas batalhas e ele se sente na responsabilidade de usá-la. Ele às vezes lamenta o anonimato que foi obliterado quando recebeu o prêmio e às vezes sonha em recuperar esse anonimato. Mas nem sempre com muito sucesso.

“Eu sei, eu sei, eu sei. Já anunciei várias vezes que estou me retirando da vida pública. E eu quis dizer isso! Por cerca de 24 horas”, disse Soyinka. “Eu nunca vou dizer isso de novo. Eu vou apenas fugir em silêncio - e ninguém vai me ver novamente. Me aguarde.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times.

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