William Julian-Damazy
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Principal conto de Guy de Maupassant, 'O Horlá' ganha nova edição

História narra eventos sobrenaturais desencadeados por uma entidade invisível

José Castello*, Colaboração para o Estado

10 Junho 2017 | 16h00

Observado em muitos de seus aspectos, o mundo de hoje nos parece cada vez mais incompreensível. Cada vez mais estranho. A literatura vem em nosso socorro. O mais famoso relato do francês Guy de Maupassant, O Horlá, que teve sua versão final publicada em Paris no ano de 1887 e agora nos chega, em tradução de Sérgio Flaksman para a Grua Livros, ajuda a pensar a embaraçosa presença do Estranho em nossas vidas. A presença inevitável do incompreensível. 

Tentando uma aproximação do Estranho, abro o Houaiss, que traz como sinônimos o “extraordinário”, o “excêntrico”, o “estrangeiro”. De fato, a ideia do Estranho aponta para algo que está fora do lugar – o próprio nome Horlá, escolhido por Maupassant para seu personagem, é a conjunção em francês das palavras “hors” (“fora”) e “lá” (que pode ser traduzido, sugere Flaksman, por “aqui”). Não devemos, porém, permanecer no campo do fantástico e do surreal, para onde a palavra, por hábito, nos empurra. 

Mais do que isso, o Estranho, como nos ensinou Freud em um artigo publicado em 1919, não pode ser associado apenas ao assustador e ao “não conhecido”, mas também ao que está escondido e é sonegado aos outros. Associa-se, assim, a uma trapaça e a uma armadilha. Ardil armado por aquilo que existe sim, existe sem qualquer dúvida; mas que se move no escuro, fora de nossa vista, e portanto, permanece oculto. A atmosfera de aparente paranoia que, para muitos sintetiza o mundo contemporâneo, não passa de um sintoma (uma explicação “psicológica”) para algo que existe de fato, mas que não pode ser identificado. Existe sentimento mais atual do que o da presença de um perseguidor que se esquiva e se disfarça?

A nova edição brasileira reúne três versões da mesma história. Abre com a versão definitiva, de 1887, mas nos traz também a primeira versão, Carta de um Louco, publicada por Maupassant em 1885 na revista Blas, seguida da segunda versão, já batizada como O Horlá, de 1886. A reunião das três versões tem, não apenas, importância para os estudiosos da literatura; ela apresenta ao leitor comum o modo como outros textos (“estranhos”) se escondem no interior de qualquer ficção.

“Parece que o ar, o próprio ar que não vemos, está repleto de forças incompreensíveis”, diz o narrador da versão definitiva, escrita em forma de diário íntimo. Nossos sentidos são frágeis. Nossa percepção do mundo está, em consequência, limitada por essas fragilidades. O que conhecemos é sempre parcial: uma parte se furta e se esquiva, o que não significa dizer que ela deixe de atuar e de influenciar nossas vidas. O diário relata como um homem, aos poucos, só a partir de pequenos sinais quase desprezíveis, começa a se dar conta de que convive com um ser estranho. 

Durante a noite, uma garrafa de água colocada à sua cabeceira se esvazia sozinha. O vaso de leite se evapora misteriosamente também. Copos se quebram dentro dos armários da sala. O talo de uma rosa, bem à sua frente, se dobra, como que empurrado por uma mão invisível. Atônito, o personagem de Maupassant se agarra, primeiro, à ação do sobrenatural. Mas ele logo conclui que não há mistério algum – não há paranoia, como hoje tendem a argumentar os comentaristas do presente. “Não entendo, porque a causa me escapa”, mas, mesmo desconhecida, ela existe, não deixa de agir e de produzir consequências.

Aos poucos, o narrador de Maupassant descarta a hipótese mais fácil da loucura. O Estranho é, também, o Invisível que, embora não se deixe ver, continua a agir e, portanto, existe sim. Recorda, então, do que lhe disse um monge a quem visitou no monte Saint-Michel: “E alguém chega a perceber a centésima milésima parte de tudo o que existe?” O religioso lembrou, então, o exemplo do vento, que tomba edifícios, arranca árvores, destrói falésias e atira grandes navios contra os recifes. “O senhor já o viu, ou consegue vê-lo? Ainda assim ele existe”. O Estranho que o Horlá encarna não é o inexistente que nos assombra, mas o desconhecido que delimita a dimensão de nossa ignorância. Não é uma questão de nele “acreditar” – ele não precisa de nossas convicções para existir. As convicções, elas também, apenas o encobrem. O Horlá criado por Maupassant teria chegado à Normandia, onde a história se ambienta, a bordo de um veleiro brasileiro que subia o rio Sena. O narrador avistou o barco dos jardins de sua propriedade, nas cercanias de Rouen. 

Não se trata de um louco. Ao contrário, é a negação do Estranho e de sua presença esquiva que o perturba. Na versão de 1886, escrita na forma de um relato médico, depois de relatar o caso de seu paciente, o doutor Marrande, ilustre alienista, conclui: “Não sei se este homem está louco, ou se nós dois enlouquecemos... ou se... se nosso sucessor de fato chegou.” A presença do Horlá vem romper a cegueira humana. Vem desmascará-la. 

Aqui se afirma a atualidade do relato de Maupassant. O Estranho não é aquilo que brilha e nos assusta nos noticiários da TV, ou que incendeia nossas parcas certezas. A leitura de O Horlá nos ensina que ele se esconde nas pequenas coisas, parece improvável e até desprezível, mas é justamente assim, camuflado e esquivo, que age sobre nós.

*José Castello é jornalista, mestre em Comunicação pela UFRJ e escritor. Autor de 'Ribamar' (Bertrand Brasil) e 'A Literatura na Poltrona' (Record), entre outros

O Horlá

Autor: Guy de Maupassant

Tradução: Sergio Flaksman

Editora: Grua

88 páginas

R$ 21,90

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