Marcelo Barabani/Estadão
Marcelo Barabani/Estadão

Privatização dos Correios pode ser pior para mercado editorial que taxação de livros

Modalidade do registro módico faz entrega 50% mais barata em todo o País; Frente Parlamentar Mista em Defesa do Livro, da Leitura e da Escrita prepara nota de repúdio

Amanda Calazans, Especial para o Estadão

08 de julho de 2021 | 20h17

Em meio ao cancelamento de eventos literários e fechamento de comércio impostos pela pandemia, concorrência com gigantes do marketplace e ameaça de tributação do livro, o mercado editorial tem contado com o apoio da venda online, que representou quase 40% do faturamento do setor em 2020 de acordo com a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro. Agora, editores e livreiros devem lidar com o risco de aumento do valor do frete com a privatização dos Correios, a ser votada na Câmara nos próximos dias.

A Frente Parlamentar Mista em Defesa do Livro, da Leitura e da Escrita, criada em 2019 com 220 assinaturas entre senadores e deputados de diferentes partidos, prepara uma nota de repúdio sobre a questão e deve se reunir com representantes do mercado editorial na próxima semana. “Em termos de manutenção de livrarias e editoras independentes, a privatização dos Correios pode ser ainda mais cruel que a taxação dos livros”, avalia a presidente do grupo, deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS).

A modalidade de registro módico dos Correios, hoje, dá cerca de 50% de desconto no envio de livros e materiais didáticos ao cobrar por peso em vez de distância. Com a privatização, o subsídio deve acabar, o que pode encarecer o frete e atrasar entregas para o consumidor. De acordo com a presidente, isso significaria a inviabilização de diversas pequenas empresas.

Bibliodiversidade

Por isso a CEO da editora Figura de Linguagem, Fernanda Bastos, procurou a deputada para manifestar sua preocupação. A casa independente, negra e localizada em Porto Alegre tem livros menos distribuídos. Com o encarecimento do frete, ela poderia não conseguir mais vender para o Acre nem para São Paulo, por exemplo. “É mais um empecilho que o governo acaba por criar para quem quer tentar levar mais longe a bibliodiversidade do País.”

Da mesma forma, a editora Jandaíra viu que as grandes livrarias não se interessavam pelas obras feministas e antirracistas que lançava, então criou sua própria loja virtual. “Se alguém quiser comprar e estiver em qualquer lugar do Brasil, a gente consegue mandar”, disse a diretora editorial, Lizandra Magon, sobre a ideia de investir no e-commerce. Hoje, o site é um dos cinco maiores pontos de venda da Jandaíra, que busca que seus livros ultrapassem o eixo Rio-São Paulo.

Gigantes

“Essa capilaridade [dos Correios] é muito difícil de outro player privado conseguir”, avalia Lizandra. Segundo ela, com volume, empresas grandes podem conseguir que transportadoras façam preços melhores, o que não é possível no caso das livrarias e editoras menores.

“A venda de livros hoje é ameaçada por todos os lados”, opina Monica Carvalho, proprietária da Livraria da Tarde, que faz 75% das entregas do site pelos Correios. Ela ainda destaca o problema da concorrência com as grandes magazines. Além disso, a Amazon é apontada como um dos compradores interessados nos Correios, mas a empresa não quis comentar. 

Fernanda, da Figura de Linguagem, acredita que, embora a privatização possa ser mais perversa contra os pequenos negócios, uma reação contrária à medida pode não ter o mesmo engajamento social que teve a campanha contra a taxação dos livros em 12%, prevista na reforma tributária que o Governo Federal pretende fazer.

Com o crescimento das vendas online na pandemia, o presidente do Sindicato Nacional de Editores dos Livros, Marcos da Veiga Pereira, avalia que há várias empresas investindo em logística. “Eu espero que a competição faça com que os preços se acomodem”, disse.

 

Privatizar os Correios sem considerar determinados tipos de envios nem manter uma valorização para produtos como livros, avalia Lizandra, é fazer uma escolha do Brasil que se deseja em termos culturais e intelectuais. “É você decidir por um País que não dá a menor importância para a cultura, que não quer diminuir o gap educacional que existe hoje.”

 

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