MATTHIEU RICARD
MATTHIEU RICARD

Pro dia nascer feliz

Geneticista que virou monge, Matthieu Ricard junta ciência com espiritualidade para defender que o altruísmo genuíno existe - e faz bem

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2015 | 16h00

Há que se ter uma paciência de Buda, pensei eu, para tentar convencer as pessoas de que o altruísmo existe. Nem diante de um compêndio de 700 páginas, que compila mais de mil pesquisas científicas e rastreia um bocado de histórias de bem-querer. Nem diante de fotos de animais fazendo malabarismo para ajudar outro de espécie diferente. Nem diante de um homem aparentemente despojado de si e cunhado como o mais feliz do mundo. Nem assim a plateia parece 100% confiante na hipótese de um ser fazer algo por outro sem esperar algo em troca. Paira no ar um “Come on, Matthieu!”. “Ces’t impossible, Matthieu!”. Ou, em bom ceticismo local: “Duvideodó, Matthieu”.


Matthieu Ricard continua sorrindo. Acomoda na cadeira seus ligeiramente roliços 69 anos, ajeita o manto laranja/carmim e fornece mais um dado de pesquisa. Este trata de crianças com 18 meses de vida: “Uma experiência mostrou que, quando o cientista deixa cair um prendedor ao pendurar uma roupa e mostra dificuldade para pegá-lo, as crianças se deslocam rapidamente para pegar o objeto e lhe entregar”. No entanto, continua ele, se as crianças percebem que o cientista joga deliberadamente o objeto no chão, elas não se movem.

Outro exemplo, agora na faixa adulta: estudo feito com um grande número de doadores de sangue revelou que menos de 2% deles esperavam contrapartida por sua doação, enquanto pesquisa realizada na Inglaterra revelou que o fato de pagá-los reduziria seu número. “A existência de uma remuneração destituía a qualidade do ato altruísta”, diz Matthieu, emendando que talvez estivesse ali o motivo pela quantidade de bolsas de sangue doadas na Inglaterra ser nitidamente superior à dos EUA, onde as doações são pagas.

E por aí segue o mantra científico do monge budista, enumerando resultados que buscam desmontar a tese do egoísmo universal. “Durante os últimos trinta anos a visão deformada da natureza humana tem sindo desbancada por um número crescente de pesquisadores; a natureza não é apenas ‘unhas e dentes’, como afirmava o poeta Alfred Tennyson.” Bancada de laboratório é um território que ele conhece desde os tempos em que fazia doutorado em biologia molecular no Instituto Pasteur, na França, sob a orientação de François Jaboc, Nobel de Medicina. Era 1967, ano em que Matthieu também visitou a Índia. Queria se aproximar de grandes mestres do budismo tibetano, entre eles Kangyur Rinpoche, que viria a se tornar seu guia espiritual em Darjeeling, na Índia.

Cinco anos depois, foi-se o microscópio. E começou a trajetória espiritual pelo Butão, Índia, Tibete e Nepal. Recebia uma carta por mês (hoje mal dá conta dos e-mails), não lia jornal nem ouvia rádio (hoje procura o noticiário internacional), vivia em retiro contemplativo (depois desta visita de três dias ao Brasil, desembarcou na Argentina e então engata Londres, Paris e Nova York). Na época, quando raramente se abria para o mundo, era para se dedicar aos monastérios Ogyen Kunzang Choling, em Darjeeling, e Shechen, no Nepal, nos quais se empenhava em preservar a herança cultural e espiritual do Tibete. Também tirava fotos da natureza. Mas essa é uma janela que vai se escancarar mais pra frente.

Por ora, acumulava milhas de meditação e era (ainda é) escalado como tradutor do francês para o Dalai-lama. Em 1997, Matthieu se traduziu em sucesso de público quando aceitou a proposta de uma editora para gravar o diálogo dele com o próprio pai, o premiado filósofo francês Jean-François Revel, em Hatiban, no Nepal. Dessa conversa no cume de uma montanha em Katmandu nasceu O Monge e o Filósofo, convertido em 21 línguas, em que os dois debatem, por exemplo, por que o budismo atrai tanta curiosidade no Ocidente.

“Meu pai era agnóstico, defensor extremo da independência intelectual”, diz Matthieu, nove anos depois da morte de Jean-François - que outro François, o Mitterrand, tentou em vão cooptar para seu governo. Matthieu vira o computador para me mostrar uma imagem da mãe, a artista plástica Yahne Le Toumelin, sob uma touquinha de inverno vermelha. “Ela tem 82 anos, está conversando com os pássaros nesta foto.” Para o filho, a mãe, exemplo de compaixão, o teria introduzido no terreno do altruísmo.

Tira do manto um lenço e assoa vigorosamente o nariz. Não parece homem de lamúria. A rinite está atacada. Recolhe o lenço de volta ao peito e vira pra si o laptop. A senhora Toumelin dá vez a montanhas, festivais de dança, peregrinos no horizonte, cavalos galopando sob um céu tormentoso, crianças sorrindo, tudo para cima. Matthieu vai clicando nas imagens e explicando sua trajetória em outro terreno: o de autor de oito livros de fotografia. “Comecei com 12 anos, quando ganhei uma Foca Sport.” Focava reflexos nos vidros, sombras na água... “Diziam que aquilo não era fotografia, queriam só retratos.”

Aos 16, conheceu um fotógrafo da natureza que lhe ensinou a explorar melhor os recursos da câmera. Aos 18 encontrou Henri Cartier-Bresson na casa dos pais. “Ele mal prestou atenção nas minhas fotos, fiquei chateado”, diz, simulando o muxoxo do fundador da Magnum. Anos depois, a vida monástica, regada a US$ 50 por mês, não comportava mais que o corpo de uma Nikon manual, duas lentes e 25 filmes por ano. “Era outra coisa, cada foto era muito pensada, eu buscava a melhor luz, o melhor ângulo.” Fez retratos dos seus mestres e de tudo que girava em torno deles. Passada uma década, o diretor da galeria Aperture, em Nova York, gostou do portfólio e propôs um livro. Daí vieram outros, um deles colecionando diferentes momentos do mesmo cenário: aquele que ele vislumbrava da janela de seu quarto, de 3 m por 2,8 m, no Nepal. “Era Himalaia de manhã, à tarde, à noite”, diz, lembrando um Cézanne diante do Monte de Sainte-Victoire. 

O reencontro com Cartier-Bresson em Paris foi mais promissor que o primeiro. Pelo menos dessa vez o papa do fotojornalismo olhou demoradamente seu trabalho. Mas pouco disse na ocasião. Já na Índia, Matthieu receberia um fax em que Bresson afirmava ter se lembrado dos registros dele enquanto caminhava por um parque. “A vida espiritual e a máquina fotográfica de Matthieu são uma coisa só, e dali brotam estas imagens fugitivas e eternas”, escreveu. “That was nice!”, ri, de contentamento, Matthieu.

É esse astral que lhe deu o rótulo de homem mais feliz do mundo? Não. Foi coisa do jornal The Independent a partir de uma pesquisa feita na Universidade de Winconsin com monges e leigos, mulheres e homens, orientais e ocidentais, cujo filtro de seleção era ostentar no currículo de 10 mil a 60 mil horas de meditação. Não qualquer meditação, mas aquela baseada na compaixão e no amor altruísta. Matthieu foi cobaia de destaque. Seu cérebro registrou uma atividade intensa nas áreas relacionadas a emoções positivas. Um homem neurocientificamente satisfeito com a vida.

No domingo passado, aos 40 do primeiro tempo de sua palestra na Associação Palas-Athena, em São Paulo, Matthieu propôs um exercício de meditação à plateia. Afinal, insiste ele, para a meditação e o altruísmo, é tudo questão de treino e perseverança. Devíamos fechar os olhos, centrar a mente em alguém que amamos e espalhar esse sentimento pelo cérebro e pelo mundo, entrando em ressonância com a humanidade. Mesmo no domingo, o trânsito para chegar ao endereço da Palas Athena tinha sido febril. Minha mente só conseguia alinhavar semáforos e tapumes de obras. Estava em desassossego. Nenhum neurônio decantou.

Na entrevista exclusiva, quis saber de Matthieu como estava o Nepal depois do grande cismo e de suas réplicas, que deixaram 8.600 mortos e mais de 14 mil feridos. Teme-se que a ajuda humanitária se esvaneça com o tempo ou que outra intempérie pelo mundo roube o altruísmo ali empregado. “Saí de lá três dias antes do terremoto, mas estou acompanhando os trabalhos da Karuna-Shechen no apoio às vítimas.” A Karuna é uma organização pilotada por ele e para a qual reverte o valor dos direitos autorais dos seus livros e das vendas das suas fotos. 

Ainda influenciada pelo fracasso medidativo, eu matutava como um cidadão pode conciliar a neurótica vida metropolitana com a complacência e o altruísmo desinteressado. Daí a pergunta se Matthieu moraria numa cidade grande. “Nunca”, afirmou, assoando a rinite, “nunca moraria numa cidade, tivesse ela o tamanho que tivesse.” Lembrou uma moça que o acompanhou em Nova York numa de suas visitas. Ela disse que chorava de emoção diante dos arranha-céus da Big Apple. “Eu disse que choraria também, mas pelo motivo contrário”, ri.

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