Procura-se Nafissatou Diallo

O caso Strauss-Khan virou uma novela, mas sua testemunha chave, origem de toda a celeuma, desapareceu como se nunca tivesse existido

Marion Van Renterghem, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h07

Um negro enorme, com um capuz cobrindo a cabeça sai apressado do pequeno prédio de tijolos situado bem em frente ao 1040 da Av. Gerard, no coração do Bronx, em Nova York. "Nafissatou? Ah é, a moça que teve problemas... Ela não mora mais aqui desde aquele caso", resmunga. Na esquina, no salão de beleza, ninguém jamais ouviu falar dela. Nem na lojinha afro-americana que vende refeições prontas para levar, situada a algumas quadras da casa dela, na esquina da Av. Sheridan e Rua 150, onde Nafissatou era caixa à noite, quando voltava do Sofitel. O restaurante mudou recentemente de dono. A mulher atrás do fogão nem sequer levanta o olhar. "Não conheço." "Não queremos problemas", corta logo o balconista, "só a vi na televisão."

Nafissatou Diallo largou tudo: a Guiné onde nasceu, o Bronx onde morava, o centro de Manhattan onde trabalhava, o Harlem onde procurava seus passatempos. Desapareceu como se não tivesse existido.

Essa mulher "muito pouco sedutora", como ressaltaram os advogados de Dominique Strauss-Kahn, vivia aqui com a filha de 16 anos, no 1040 de Av. Gerard. De manhãzinha, ela pegava o metrô, descia na estação Rockefeller Center e caminhava até a Rua 44. Ali começava seu segundo mundo.

No reino sofisticado do Sofitel, o hotel francês onde trabalhava havia três anos, esquecia até do nome. A guineense Nafissatou tornava-se Ophelia, invisível personagem shakespeariano no país dos wasps, preocupada com sua rotina. Até aquele sábado em que ela apresentou queixa contra o cliente da suíte 2.806, diretor em exercício do Fundo Monetário Internacional (FMI). Naquele 14 de maio de 2011, a acusação de estupro de uma camareira, uma imigrante da etnia africana peule em Manhattan, pulverizou uma das personalidades mais poderosas do planeta, virou a política francesa de cabeça para baixo e mudou para sempre a vida de Nafissatou Diallo.

Hoje, as pessoas se esqueceram dela. O extravagante caso Dominique Strauss-Khan virou uma novela interminável, mas sua testemunha chave, que está na origem de toda a celeuma, não interessa mais a ninguém. A misteriosa desconhecida mal deixou entrever seu rosto e ouvir sua voz. O mundo inteiro vasculhou então a estranha doçura vazia do seu olhar, as pequenas cicatrizes de acne, seus gestos um pouco teatrais, a reprodução desordenada que ela fazia de sua suposta agressão. Depois, mais nada. Nafissatou Diallo se recolheu a sua sombra e seus segredos.

O que aconteceu com a mulher que fez os tabloides nova-iorquinos esbanjarem superlativos obscenos? Já antes do caso ela não permitia que as pessoas a conhecessem. Os que cruzaram seu caminho tinham dificuldade para descrever essa mulher silenciosa, trabalhadora, "funcionária modelo", segundo o Sofitel. "Ela participava pouco da comunidade", conta a caixa do restaurante Punjab Palace, refúgio dos guineenses em Manhattan, na Rua 30, na Broadway. "Nunca a vi participar de qualquer manifestação de guineenses, nem assistir a um evento esportivo e cultural", acrescentou Souleymane Diallo (nenhum parentesco), presidente do Pottal Fii Bhantal Fouta Djallon, uma das organizações de guineenses de Nova York.

As respostas foram as mesmas no 3400 da 3ª Avenida, prédio que abriga o Centro Islâmico Fouta, principal QG dos guineenses de Nova York. Em baixo, um minúsculo restaurante e um bazar; no primeiro andar, a mesquita. Nafissatou frequentava esse lugar. "Ela não vem mais", observou, sem outro comentário, o imã Abdurahman Bah. No mesmo edifício há uma espécie de escritório onde imigrantes da Guiné procuram apoio. Mas Nafissatou, de 33 anos, não está mais lá.

Os que não dizem que a perderam de vista preferem afirmar secamente que não a conhecem. A camareira que atraiu uma multidão de jornalistas e desocupados curiosos tornou-se um estorvo. Diante da mesquita do Boulevard Frederick Douglass, marfinenses, senegaleses ou guineenses, como os homens de etnia peule ou malinké que conversam na calçada, são os mais cruéis ao julgar Nafissatou, sem conhecê-la. Se foi estuprada, como ela afirma, ou consentiu, como deixa a entender a defesa de Strauss-Khan, para eles, estará perdida para sempre. Souleymane Diallo diz que "nossos valores culturais não permitem aceitar uma mulher estuprada, mas graças a nossas explicações, a comunidade começa agora a dar apoio a Nafissatou".

Ela não vive mais sob proteção policial e seu novo paradeiro é mantido em segredo. Deixou o Bronx e mora com a filha em outro bairro de Nova York, em quase clandestinidade. Não trabalha mais, mas continua recebendo salário do Sofitel. Seu advogado, Kenneth Thompson, e os poucos membros de sua família que imigraram para os EUA - a irmã, o cunhado e o irmão, são praticamente os únicos a manter contato com ela. Souleymane Diallo conversa às vezes por telefone. "No começo, ela não dizia duas palavras seguidas, só chorava", conta. "Agora está melhor, mas não fala muito." Nafissatou terá de ser operada do ombro, por causa da perseguição de Strauss-Kahn no quarto. "Para reconfortá-la, digo que ela já ganhou, que todas as vítimas lhe agradecem, que Strauss-Khan está sendo mantido sob vigilância. Mas ela tem medo de tudo. Entre o dinheiro que poderá ganhar e sua existência anterior, acho que ela prefere a vida que levava."

No embate judicial com Strauss-Kahn, Nafissatou perdeu na primeira fase. O processo penal, que se resolveu no dia 23 de agosto de 2011 com o abandono das ações penais contra o ex-diretor do FMI, a pedido do procurador de Nova York, Cyrus Vance, afetou sua imagem. As acusações feitas no relatório do procurador são devastadoras para a jovem. Mentiras, falsas declarações, versões contraditórias: elementos que "depõem gravemente contra a sua confiabilidade como testemunha no caso", indica o relatório. Quanto ao local onde ela foi buscar refúgio logo depois do encontro com o acusado, Nafissatou deu três versões diferentes. Ela mentiu "com total convicção", sobre o estupro do qual teria sido vítima na Guiné, como fora aconselhada a fazer quando apresentou seu pedido de asilo nos EUA. Reconheceu ter prestado declarações falsas sob juramento no depoimento perante o grande júri.

Ela também não andava nas melhores companhias. Sua conta bancária recebeu depósitos provenientes de diferentes pessoas, num total de cerca de US$ 60 mil. Seu noivo estava preso no Arizona por tráfico de drogas. No dia seguinte à suposta agressão contra Nafissatou, os policiais do Arizona que vigiavam o noivo gravaram uma de suas conversas telefônicas. Para sua grande surpresa, descobriram que o presumido traficante falava com uma certa Nafissatou e mencionava o caso DSK. Uma frase tirada dessa conversação foi reproduzida no New York Times de 1º de julho: "Não se preocupe, esse cara tem muito dinheiro, eu sei o que estou fazendo". A frase, que provocou grande estardalhaço, se presta a controvérsias. Kenneth Thompson e Douglas Wigdor, os defensores de Nafissatou, a contestam: a conversação no dialeto peul falado na Guiné teria sido, segundo eles, traduzida de maneira incorreta por um peul do Senegal. Então a gravação foi entregue a outro tradutor, um peul guineense.

Segundo eles, o resultado é totalmente diferente. Nafissatou só teria mencionado a fortuna de Strauss-Khan para explicar que estava assustada. Foi o noivo que mencionou a possibilidade de tirarem proveito da situação, e ela não teria concordado. E foi referindo-se à própria segurança que ela teria dito "eu sei o que estou fazendo". Os defensores e os representantes de Strauss-Khan , que insinuam a existência de um complô montado contra seu cliente, deduziram disso que Nafissatou teria preparado deliberadamente uma armadilha para DSK. "Argumento absurdo e escandaloso", retorquiu Wigdor. "Se o fato de ter um noivo suspeito de tráfico de drogas influencia a Justiça num caso de estupro, devemos nos preocupar bastante." O relatório do procurador lembra que o histórico da camareira não continha "nenhuma menção de incidentes e não indicava nenhum problema disciplinar". "Se Nafissatou fosse prostituta", indica por sua vez Souleymane Diallo, "isso teria constituído um escândalo na comunidade. Há cerca de 5 mil peules em Nova York e logo ficamos sabendo quais são os que causam problemas".

O relatório do promotor não "livra" Strauss-Kahn, ao contrário do que ele quis fazer crer na TV TF1 no dia 18 de setembro. Não estabelece sua inocência: ele constata que a confiabilidade de Nafissatou como testemunha "é extremamente contestável" e não convence os 12 jurados por unanimidade e "além de toda dúvida razoável", como exige o procedimento penal americano, da culpabilidade do acusado.

Nafissatou nunca modificou seu relato da suposta agressão sexual. Suas mentiras dizem respeito ao que antecedeu e se seguiu ao encontro na suíte 2.806. Seu testemunho foi corroborado pelo laudo médico do hospital Saint Luke Roosevelt, do Harlem, para onde foi levada depois do incidente: especialistas concluíram que a agressão descrita por Nafissatou era compatível com as marcas constatadas em seu corpo. "Ela chegou em estado de choque (...) Não duvidei de seu testemunho", disse ao Le Monde Susan Xenarios, diretora do Centro de Tratamento de Vítimas de Crimes do hospital.

As "mentiras" de Nafissatou não afetam a convicção de Susan Xenarios: a lembrança dos detalhes é frequentemente oculta pelo trauma, ressalta a especialista médica. Elas não provam que a agressão não ocorreu, segundo Lisa Friel, na época procuradora assistente e chefe da Unidade de Crimes Sexuais. Lisa pediu demissão depois de criticar a rapidez com que seu superior hierárquico, Cyrus Vance, conduziu o inquérito.

A batalha a respeito da personalidade de Nafissatou está no centro da segunda fase do processo, que ocorre neste momento: a jovem entrou com uma ação civil no dia 8 de agosto de 2011 contra Strauss-Kahn, no tribunal do Bronx. O caso promete ser longo, entremeado de interrupções e reviravoltas. Tudo pode se concluir com uma negociação cujas cláusulas não serão jamais conhecidas ou com uma decisão do juiz. Os advogados de Strauss-Kahn tentam fazer valer sua imunidade diplomática e procuram parar a ação. Os de Nafissatou afirmam estar seguros e "decididos a ir até o fim". A jovem aguentará até o processo? Preferirá negociar?

Desde o início, Nafissatou foi apresentada como símbolo. Seu advogado, Kenneth Thompson, fez dela a voz de todas as vítimas de estupro. "Minha cliente luta por sua dignidade e por todas as mulheres e crianças que sofreram abusos sexuais e têm medo de abrir a boca", declarou no dia 6 de junho de 2011, no tribunal de Manhattan. "Eu devo ser forte por minha filha e por todas as mulheres do mundo", acrescentou Nafissatou no dia 28 de julho no Christian Cultural Center. O senador democrata Bill Perkins, eleito para o Estado de Nova York pelo Harlem, organizou reuniões "para apoiar Nafissatou Diallo, as mulheres e os negros". O senador nunca a conheceu. Nafissatou Diallo, a camareira mais famosa do mundo, que vive reclusa em sua vida apagada, foi ultrapassada pela própria história. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA  

MARION VAN RENTERGHEM É REPÓRTER SÊNIOR DO JORNAL LE MONDE

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