Procurados para sempre

Memórias de um menino que temia os cartazes do regime que até censurava os beijos

Eugênio Bucci*

01 de maio de 2010 | 07h40

Foi há muito tempo, numa manhã de sol chapado. Eu devia ter uns 9 anos de idade, talvez oito, e caminhava, ao lado do meu pai, pela calçada da Avenida 2, em Orlândia, SP. O casario que passava à nossa direita, com paredes em tons amenos, janelas para a rua, era bruscamente interrompido a uns 20 metros do encontro da Avenida 2 com a Rua 4. Em concreto armado e amplas paredes de vidro, ficava ali a agência do Banco Itaú. Meu pai tinha que pagar alguma conta ou falar com o gerente do Itaú, o seu Carlos, e resolveu me levar junto. Era pertinho de casa, menos de um quarteirão.

 

Logo que chegamos ao balcão dos caixas, eu vi o cartaz. Não me lembro exatamente dos dizeres - "Procurados", "Terroristas Procurados", algo assim - mas retive na memória a mancha das fotos em preto e branco, em colunas verticais. Elas me deram a notícia de que não vivíamos em segurança. Foi um choque. Para descrever o que se deu comigo numa única palavra, eu diria: terror. Ao avisar que havia homicidas soltos pelas ruas, talvez até mesmo pelas ruas de Orlândia, ao lado da minha casa, aquele pôster me aterrorizou. Lançava contra mim um ultimato: "Ou você se converte em delator ou estará na mira desses sujeitos aqui, ó, os procurados, esses sujeitos com cara de gente sem coração".

 

Pedi explicações ao meu pai, que abreviou o assunto me levando pra longe. Desconversando, achava que me faria esquecer. Mas esquecer como?

 

Os estrategistas da comunicação da ditadura desprezavam o olhar infantil. Em nome da proteção à infância, eles censuravam cenas de beijos nas telenovelas, mas não viam mal algum em expor crianças ao aviso seco de que havia assassinos impiedosos à solta. O terrorismo propagandístico que eles difundiam era liberado para menores. Na embriaguez de sua sensação de onipotência, deviam pensar que todo cidadão, como as crianças, era um crédulo indefeso, pronto a tomar por verdade pétrea os slogans que faziam reverberar por meio de suas máquinas publicitárias. Eles ensinavam que ser adulto era concordar com as autoridades. Ser adulto era perder a inocência - e renunciar à liberdade.

 

Por isso, a intuição de meu pai ao tentar me afastar daquela selvageria tinha uma justificativa. Ele tentava me resguardar. É possível que não tenha levado em conta que, mesmo sem entender dos negócios que os adultos conduzem, as crianças pressentem o que não encaixa bem. Elas registram o sentido involuntário, o contraditório.

 

Eu registrava. O silêncio do meu pai, eu o registrei. Ele sabia que algo não ia bem com as mensagens oficiais, mas não dizia. Talvez nem para si mesmo. Naqueles anos, 1968, 1969, os professores, o padre, o delegado, o capitão do Exército, os rotarianos, todos repetiam que as coisas estavam em ordem. A insistência de que tudo estava sob controle era tão histriônica, tão raivosa, que acabava deixando escapar um clima de insegurança, de instabilidade, que precisava ser aplacado por meio do "pulso firme". Em tudo havia um sinal de descontrole iminente.

 

Quando veio o Cruzeiro Novo, em 1967, para valer mil vezes mais que o velho Cruzeiro, que estava na praça desde 1942, a percepção de que as coisas estavam se dissolvendo no ar entrava nos lares por baixo do vão da porta da sala. A "boa notícia" da moeda nova, tão incensada, não conseguia esconder uma notícia péssima, terrível, mesmo para as crianças: o valor das mercadorias se esboroava. Eu olhava as novas moedas que os parentes me mostravam e um incômodo me assaltava. Se o dinheiro, que servia de medida para todos os preços, como a bala Chita na matinê de domingo, já não servia de padrão, o que mais poderia servir? Algo de essencial estava derretendo no mundo fixo e imutável em que eu crescia, mas não dava para saber o que era.

 

Salto para o ano de 1971. Um dia, meu pai chegou para almoçar especialmente preocupado. Tomou seu lugar na cabeceira da mesa. Trazia o semblante amarrado. Minha mãe puxou assunto e ele, contrariando a postura de discrição disciplinada, balançou a cabeça baixa sobre o prato de comida:

- Esses filhos do Ivo...

- O que é que tem?

- Ele foi visitar os filhos na cadeia e eles disseram que fariam tudo de novo, tudo outra vez, que não se arrependem de nada.

 

Eu tinha ouvido na rua, não fazia muito tempo, que os filhos do professor Ivo Vannuchi, de São Joaquim da Barra, 17 quilômetros ao norte de Orlândia, eram aquela coisa lá, terroristas, como os que apareciam no cartaz. Mas meu pai, contrariado e triste, não se estendeu em explicações.

 

O professor Ivo era um homem respeitado. Um exemplo de cultura e de conduta. Seus filhos eram terroristas. Pior: eram fanáticos - tinham sido presos e mesmo assim não se arrependiam de nada. "Os comunistas fazem lavagem cerebral nos inocentes úteis", analisava o tio Cyro, que morava em frente à nossa casa. Eu e meus irmãos entendíamos que lavagem cerebral era como servir a alguém uma poção enfeitiçada. A lavagem cerebral levara os filhos do professor Ivo Vannuchi para o terrorismo e, depois, para a cadeia. Inutilmente. Eles não mudavam de ideia de jeito nenhum.

 

A cadeia era um universo exótico para mim e meus irmãos. Dela, tínhamos poucas notícias, quase sempre trazidas por meu pai, que era advogado. Ele ganhava presentes dos presos. Eram trabalhos artesanais, como as canetas esferográficas encapadas por linhas coloridas entrelaçadas. Numa delas, estava "bordado" o nome do pai: dr. Bruno. Pelo que ele contava, os presos eram gente geralmente boa, com a diferença de que tinham cometido uma falta grave. A cadeia era um lugar que servia para emendar o pessoal que tinha andado fora da linha. Crescemos acreditando que tudo o que os presos queriam era sair da cela, ganhar de volta a liberdade, arranjar um emprego e reconstruir a vida. Por isso, tinham em alta conta os advogados. Os presos se arrependiam. Os presos eram gentis. Todos eram assim, menos os filhos do professor Ivo, que não queriam a liberdade como recompensa pelo arrependimento.

 

Na década de 70, fazia sucesso a série americana Os Invasores. Aterrorizante, ela também. Alienígenas que já estavam entre nós queriam destruir a humanidade e se apossar do planeta, mas era muito difícil prendê-los, porque eles pareciam gente comum. A não ser por pequenos sinais, quase imperceptíveis, era impossível reconhecê-los. O mais terrível era que os mocinhos, para ter a prova cabal de que um invasor era de fato um invasor, tinham que matá-lo. Quando morto, o invasor se desmaterializava, num efeito especial bastante rudimentar, que a gente levava a sério. Matar era uma etapa da investigação. Só matando para ter certeza.

 

Os Invasores, evidentemente, eram uma fábula da Guerra Fria, em que o tal "mundo democrático" se sentia exposto às invasões de comunistas disfarçados de gente comum. No Brasil, esse imaginário se traduziu em parte com a Doutrina de Segurança Nacional, que transformou a política em guerra interna. Para vivermos em paz, tínhamos que dizimar os inimigos disfarçados de nós mesmos.

 

Em 1980, aos 21 anos, integrei a diretoria do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP. Uma das providências da nossa gestão foi dar personalidade jurídica ao DCE, que registramos em cartório com o nome de DCE Livre Alexandre Vannuchi Leme. Sim, o mesmo sobrenome. Alexandre Vannuchi Leme era primo em primeiro grau dos filhos do professor Vannuchi. Natural de Sorocaba, engajou-se no combate à ditadura. Em 1973, com 22 anos, estudante de Geologia da USP, morreu sob tortura. Os primos de Alexandre, José Ivo e Paulo, sobreviveram à prisão. O primeiro seria prefeito de São Joaquim, pelo Partido dos Trabalhadores. O outro virou assessor sindical em São Paulo e, no final do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, foi nomeado ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos.

 

Escrevo este artigo movido pelo respeito que guardo por aqueles dois jovens e pelos adultos em que eles se transformaram. Naquele almoço de 1971, quando meu pai, inconformado, falou que os filhos do professor Ivo não se arrependiam de nada, eles ficaram para mim como um símbolo de caráter. Tenho certeza de que o dr. Bruno, hoje aposentado, em Orlândia, concordará se eu disser que os meninos de São Joaquim não traíram, mas honraram a educação que receberam em casa.

 

Em 2009, entrou no ar a campanha Memórias Reveladas, coordenada pelo Arquivo Nacional da Casa Civil da Presidência da República. Quando vi, em uma página dupla de uma revista semanal, um anúncio com a palavra "Desaparecidos", tomei um susto que parecia regurgitado daquele outro que experimentei ainda criança, na agência do Banco Itaú. Lá estavam as mesmas fotos em preto e branco, as mesmas fotos das mesmas pessoas. Um pequeno texto, ao pé das fotografias, explicava o objetivo da nova campanha: "Ainda existem mais de 140 famílias de desaparecidos políticos que, mesmo depois de o Brasil conquistar a democracia plena, ainda não conseguiram enterrar seus mortos. Encontrar esses corpos não é só respeitar o direito sagrado de seus familiares, é também uma forma de o Brasil impedir que erros do passado se repitam no futuro."

 

O Estado brasileiro segue procurando os mesmos rostos. Não que os agentes policiais não os tenham encontrado há 40 anos. O que se passou é algo inconcebível. Eles foram achados, mas não oficialmente. Foram aprisionados, mas ilegalmente. Caíram na malha paraestatal, por assim dizer. Padeceram numa espécie de "Caixa 2" de vidas humanas, da qual não restaram registros formais. Seus corpos sumiram. Antes, os policiais os caçavam vivos para exterminá-los; agora o Estado vai buscá-los mortos, pelos vazios da História. Até hoje, procurados.

 

* Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP e colunista do Estado. Este texto inédito fará parte do livro Direitos Humanos: Percepções da opinião pública - Análises de uma pesquisa (ORG. de Gustavo Venturi), que a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência lançará em junho

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