The New YorkTimes
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Professor defende que Homo erectus criou a linguagem

Um estudo de Daniel L. Everett, da Universidade de Bentley (EUA), contesta que foi o Homo sapiens o inventor dessa ferramenta de comunicação

Sérgio Medeiros, Especial para O Estado

14 de setembro de 2019 | 16h00

Lançado recentemente no Brasil, o livro Linguagem: a História da Maior Invenção da Humanidade, de Daniel L. Everett, diretor de Artes e Ciências da Universidade de Bentley (EUA), é um estudo ambicioso, pois visa a apresentar, em quase 400 páginas, a teoria de que a linguagem começou com os Homo erectus, mais de um milhão de anos atrás, e não com o Homo sapiens, como defendem outros pesquisadores.

Os sapiens seriam apenas uma versão melhorada dos erectus. “Os erectus foram realmente maravilhosos”, derrete-se o pesquisador, que emprega muitas vezes um linguajar que não se esperaria encontrar jamais num texto acadêmico ou científico, e ainda acrescenta: “Homens com postura ereta, as criaturas mais inteligentes que já existiram até o momento”.

O livro do linguista norte-americano talvez se destine apenas ao público leigo, que poderá tirar algum proveito da erudição do autor e de suas ideias nada convencionais sobre a invenção e a evolução das línguas humanas.

Everett é conhecido dos pesquisadores brasileiros, já que fez pesquisa de campo sobre línguas indígenas, como ele mesmo conta no livro, por quatro décadas, na América Central, do Sul e do Norte, estando, portanto, familiarizado com a floresta brasileira e seus povos, que não falam apenas português.

É especialista, por exemplo, na cultura e na língua dos pirarrãs da Amazônia, que ele descreve como uma tribo isolada na qual há diferenças muito claras entre a fala dos homens e a fala das mulheres. Apesar disso, os pirarrãs não possuiriam uma gramática hierárquica, o que permite ao autor afirmar, contra Noam Chomsky e outros especialistas desse calibre, que a gramática não é o componente mais importante da linguagem nem precisa ser complexa. 

A escrita de Everett é contundente – e por isso pode surpreender o leitor. Assim, nas páginas iniciais do seu estudo, declara sem meias palavras: “Eu nego neste livro que a linguagem seja um instinto de qualquer tipo, assim como nego que ela seja inata ou congênita”. A partir dessa postura algo beligerante, o leitor já começa a suspeitar que o autor combaterá duramente, nas páginas seguintes, os renomados estudiosos que pensam de maneira diferente ou que não defendem a tese de que a linguagem humana teria sido criada pelos Homo erectus. Mas, já perto do fim, Everett revela outra faceta de sua personalidade, e o leitor então verifica que ele pode ser até mesmo bastante delicado e sentimental: os erectus “foram os primeiros a dizer ‘é lá’ ou ‘estou com fome’. Talvez os primeiros a dizerem ‘eu te amo’”.

Se o livro Linguagem realmente oferece, como afirma seu autor sem nenhum pudor, uma história “única” da evolução da linguagem, isso se deve, o meu ver, tanto à tese principal quanto ao modo prolixo e repetitivo de expô-la. As línguas surgiram gradualmente e não resultaram, conforme reza a explicação mais influente sobre sua origem, de uma única mutação genética, cerca de 50-65 mil anos atrás. Segundo os pesquisadores que se valem de explicações com base no “catastrofismo”, entre eles Chomsky e Claude Lévi-Strauss (que Everett não cita), a essência gramatical da linguagem teria surgido “de repente”. Porém, se a linguagem foi inventada de maneira progressiva pelos Homo erectus, restaria saber, entre muitas outras coisas, como teria sido, em seus estágios iniciais, a sua gramática. Era simples? Era complexa?

Para responder a essa questão, não basta ao autor, que nasceu na Califórnia, citar evidências arqueológicas ou teorias biológicas: ele também recorre ao cinema de Hollywood, numa das passagens mais reveladoras (e hilárias) do livro. Diz Everett: “Há alguns exemplos cinematográficos famosos, que são remanências de possíveis línguas primitivas”, e em seguida oferece este exemplo mundialmente célebre: “Você Jane. Eu Tarzan.” Parece uma simples tirada engraçada e inconsequente, mas é uma afirmação séria, já que Everett conclui: “A língua dos Homo erectus pode não ter sido muito mais complexa do que esses exemplos, embora muito possivelmente ela tenha sido mais elaborada.”

Além de Tarzan e Jane, também os personagens do filme O Mágico de Oz são convocados pelo autor de Linguagem. Ao considerar o desejo do Espantalho de ter um cérebro, Everett talvez se exceda no uso da fala coloquial neste comentário em que pondera sobre os benefícios de se viver sem esse órgão: “Isso porque, ao passo que os cérebros são, de fato, a fonte do amor, do compartilhamento, da música, da beleza, da ciência e da arte, eles também são a origem do terrorismo, da intolerância, da guerra e do machismo”. Será que esse discurso convenceria mesmo o Espantalho a viver sem cérebro para sempre?

 Sérgio Medeiros é poeta e artista plástico. Ensina literatura na Universidade Federal de Santa Catarina. Publicou, entre outros livro0s, 'Caligrafias Ameríndias' (Editora Medusa, 2019) e 'os Caminhos do Rio' (Iluminuras, 2019) 

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