Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Professora de literatura russa reúne artigos publicados sobre o tema

Aurora Bernardini escreve sobre Dostoievski, Tolstoi, Chekhov, Gorki, Turgueniev e outros autores da Rússia

Sérgio Medeiros*, Especial para o Estado

10 Novembro 2018 | 16h00

Selecionados por dois de seus discípulos, como esclarece no prefácio Arlete Cavaliere, os textos sobre literatura russa de Aurora Bernardini, escritora, tradutora e professora da USP, agora publicados sob o título Aulas de Literatura Russa: de Puchkin a Gorenstein, não provêm diretamente de cursos que ministrou ao longo de sua carreira acadêmica, embora retomem certamente temas que apresentou em sala de aula, para alunos da graduação e da pós-graduação, a partir dos anos 1960. Nesse aspecto, é um livro muito distinto do clássico de Vladimir Nabokov, Lições de Literatura Russa, já traduzido para o português e que contém apenas anotações de aulas ministradas pelo escritor em diversas universidades americanas. Os textos de Bernardini, sempre claros e informativos, extrapolam geralmente o discurso acadêmico e se espraiam pela resenha, pela entrevista e pelo depoimento. Vários deles foram escritos para jornais e muitos saíram no Estado, no qual a professora vem colaborando há anos. 

Alguns dos principais autores russos, sobretudo os do século 19, são discutidos por Nabokov e Bernardini: Gogol, Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi, Chekhov e Gorki. Porém, no caso da estudiosa brasileira (nascida na Itália), a perspectiva é mais ampla e inclui também autores modernistas e contemporâneos. Leitora de um poeta extremamente inovador como Velimir Khlebnikov, de quem verteu para o português o poema em prosa Ka, ou de uma poeta “sempre inspirada” e “quase sempre possessa” como Marina Tsvetaieva, cujos versos reuniu num alentado volume, era de se esperar que Bernardini fosse muito além do recorte de Nabokov, a quem ela cita e comenta, destacando sua polêmica opinião sobre Dostoievski (“não é um grande escritor, ao contrário, é bastante medíocre”), mas só o faz depois de haver oferecido, em páginas anteriores, sua própria avaliação dos méritos desse gigante da literatura mundial. Percebe-se que Dostoievski é um dos autores favoritos de Bernardini, não apenas pelo espaço generoso que a discussão de sua vida e de sua obra ocupam no livro, como também por haver entrevistado Joseph Frank, o maior biógrafo do autor de Crime e Castigo, cuja fala, reproduzida na íntegra no livro, traz à baila uma questão ainda hoje considerada crucial para a crítica literária: a atuação de personagens que podem insurgir-se contra o autor, em obras polifônicas que exploram a multiplicidade de consciências.

A polifonia de Dostoievski, estudada por Mikhail Bakhtin, um crítico traduzido, aliás, por Bernardini, pressupõe também uma multiplicação de estilos, não existindo um centro moral e estilístico unificador definido de antemão. No entanto, Joseph Frank acredita que, na medida em que parece implicar a ausência de um autor controlador, a polifonia é um conceito paradoxal. O tipo de leitura que Bakhtin faz de Dostoievski “exageraria” sua originalidade formal na história do romance. Como se percebe, as visões contrastantes e até mesmo opostas sobre o legado do mestre russo mostram o quanto a sua obra é complexa e o quanto continua atual, estimulando leituras e debates instigantes como Bernardini propõe no seu livro. Mas a vida do escritor também é tratada com minúcia e conhecimento de causa, o que só enriquece a abordagem de sua arte, pois traz à tona uma questão muito oportuna nos dias atuais, a da censura, que influenciou a feitura e a divulgação de suas obras-primas.

Na história da literatura russa, são muitos os autores (todos admiráveis) censurados pelo governo, e por conta disso, ao longo dos últimos séculos, grandes nomes foram presos ou emigraram para outros países, como se pode constatar no livro de Bernardini, que é muito informativo a esse respeito. Curiosamente, embora tenha sido condenado à morte pelo czar (o tiro fatal não foi dado, embora o escritor já estivesse amarrado a um poste), Dostoievski, que viveu depois no exílio durante dez anos, terminou submisso a esse mesmo czar, como comenta a autora, que afirma: “Em seguida, contrariamente a Puchkin, que abominava a censura (tanto a de Alexandre I como a de Nicolau I), Dostoievski, cabe mencionar, mantinha amizade estreita justamente com Pobedonostsev, a expressão máxima da censura na época de Alexandre III”. Essa contradição enriquece a biografia do escritor e abre caminho para se verificar, ao longo dos estudos sobre autores clássicos e modernos, reunidos neste livro saboroso, como cada um deles reagiu aos implacáveis censores russos de sua época. 

Como sabemos, dois discípulos de Bernardini, Daniela Mountian e Valteir Vaz, selecionaram os artigos da autora. Minha sugestão é que, quando da próxima edição do livro, solicitem a ela um ensaio (do qual senti falta) sobre o grande romancista russo Mikhail Bulgakov, autor de O Mestre e Margarida, onde se revela, entre outras coisas, o papel do diabo na política, outro tema, a meu ver, muito oportuno.

*Sério Medeiros é poeta, ensaísta e professor de literatura na UFSC. Publicou, entre outros livros, 'A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens' e 'Trio Pagão', ambos pela editora Iluminuras 

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