Profetas do imprevisível

Difícil não dar palpite, mas a única lição que podemos tirar do histórico das Copas do Mundo é que não há lições a tirar: as grandes competições esportivas mundiais são celebrações da aleatoriedade

Hans Ulrich Gumbrecht, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 01h36

Nenhum evento atlético - e talvez nenhum acontecimento pacífico de qualquer espécie - atrai mais atenção do que a Copa do Mundo de futebol. Conforme todos se sentem contagiados pela sua energia, torna-se mais difícil resistir ao desejo de se arriscar em previsões e comentários, feitos mesmo por aqueles que não entendem quase nada do assunto. Até o sistema econômico se tornou parte da tendência, embora o volume financeiro real dos esportes enquanto indústria seja bastante limitado. Enquanto o Goldman Sachs faz uma correlação nebulosa entre o status do Brasil de potência econômica "incipiente" e o que anunciou ser o provável sucesso da seleção brasileira, o banco ABN Amro prevê que a conquista da Alemanha produziria um impacto especialmente benéfico sobre a economia porque seu poder econômico supera o de qualquer outro país considerado candidato ao título.

Descobri um imenso prazer irônico em ver que as opiniões banais dos analistas financeiros se baseiam em pressupostos que induzem a erros igualmente banais. Mesmo considerando verdadeira a suposição de que as pessoas gastam mais quando estão de bom humor, não é óbvio que a simples conquista do campeonato detonará uma maré de comportamento favorável por parte dos consumidores. A destemida seleção alemã de 2006 levou o país a um frenesi narcisista, apesar de a equipe ter acabado em terceiro lugar, enquanto as seleções campeãs de 1990 e de 1974 deixaram o país num clima de constrangimento. Igualmente, não há comparação entre a satisfação dos brasileiros com a razoável conquista de 1994 e o entusiasmo sem precedentes que se seguiu às vitórias na Suécia em 1958 e no México em 1970. Se um dia a Copa tiver impacto sério nas economias nacionais e no sistema econômico mundial, isso decorrerá do futebol esteticamente agradável apresentado por um número de seleções nacionais, e não pelo triunfo monótono de um país que por acaso se vê dotado de uma economia de grandes proporções.

Muitos dos verdadeiros fãs do futebol manifestam o desejo de que uma seleção africana obtenha em julho o melhor resultado já conquistado por um país do continente - quem sabe até sagrando-se campeã. Com base no clima mundial de euforia e na simpatia pelo concorrente azarão, aposto que o impacto econômico mundial de um resultado como esse seria imenso - apesar de todas as economias africanas em questão serem de proporções relativamente pequenas. Mas por que até hoje nenhuma equipe africana conseguiu avançar tanto numa competição internacional de futebol quanto, por exemplo, a Coreia do Sul em 2002? Descartemos a explicação mais frequente, segundo a qual a fragilidade das economias locais significa que nenhum dos principais atletas africanos joga "em casa". Entre Argentina e Brasil, ao menos cinco títulos mundiais (1970, 1978, 1986, 1994 e 2002) foram conquistados sob condições análogas. O fracasso africano também não pode ser atribuído ao fato de suas federações sempre terem confiado em técnicos estrangeiros, pois a Coreia do Sul chegou às semifinais com um técnico holandês.

Talvez isso tenha sido influenciado pela tendência entre essas equipes de confiar mais na estratégia e na disciplina do que na sua verdadeira força: a beleza surpreendente. Já a desproporção entre qualidade estética e sucesso competitivo é tão gritante na tradição alemã que posso enxergar com bons olhos o fato de Michael Ballack, considerado o melhor jogador alemão da atualidade, não poder jogar na África por causa de séria lesão. As seleções alemãs tendem a melhorar nos campeonatos, mesmo sem aparição de astros da bola. Foi assim em 1954 e em 1990. O mesmo pode ser dito das seleções italianas, mas o sucesso contra todas as adversidades é o único ponto em comum entre os dois países. O Brasil, em comparação, torna-se favorito sempre que um jogador começa a exceder as já elevadas expectativas: Didi em 1958, Garrincha em 1962, Pelé em 1970, Romário em 1994, Ronaldo em 2002.

Há em tudo isso alguma lição a ser aprendida? Felizmente, não. É como o fenômeno de os melhores times de rúgbi serem todos do Hemisfério Sul - da Nova Zelândia, Austrália e África do Sul -, dado que não costuma ser mencionado porque nem mesmo o maior dos especialistas sabe o que concluir a partir dele. A única lição que podemos "aprender" é a de que as grandes competições esportivas são celebrações da aleatoriedade.

HANS ULRICH GUMBRECHT É PROFESSOR DE LITERATURA NA UNIVERSIDADE STANFORD E AUTOR DE ELOGIO DA BELEZA ATLÉTICA (CIA. DAS LETRAS)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.