Programas ao gosto do freguês

Candidatos tratam o TSE como mero cartório onde se registram plataformas eleitorais que não serão cumpridas

Francisco de Oliveira

10 de julho de 2010 | 11h52

Noticiou-se na última semana que o Partido dos Trabalhadores e sua candidata, Dilma Rousseff, recolheram o programa enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que continha ecos do Big Bang de quando o referido partido representava a transformação da política no Brasil, trocando-o por uma versão mais "moderada" que não assustasse possíveis eleitores e principalmente o grande capital. O PSDB e seu candidato, José Serra, não fez por menos: enviou ao mesmo tribunal dois discursos, já proferidos, que são o seu programa. Não se falou do programa do Partido Verde e sua candidata, a senadora Marina Silva, mas provavelmente ele contém medidas para salvar ou implantar o capitalismo verde. Quanto aos demais candidatos, apelidados de "nanicos", a imprensa em geral nem sequer os registra.

 

Os ecos do Big Bang que originou o PT provavelmente foram "lapsos", e Freud entendia disso. Representam um ato involuntário, arrancado das entranhas do inconsciente, mas logo reprimido pelo "bom pensamento". Continha, segundo se noticiou, imposto sobre as grandes fortunas, descriminalização do aborto, "controle social sobre a mídia", um termo vago em que cabe qualquer coisa. O PT logo se corrigiu, eliminando do novo programa enviado ao tribunal os ecos de seu Big Bang. Como na astrofísica, ficaram restos que uma persistente escuta não consegue nem captar. Quanto ao PSDB e seu candidato, seria preciso muita memória para lembrar desses dois famosos discursos, que resumem o programa: provavelmente neles o candidato deve ter dito que é católico, que o aborto pode se transformar em carnificina, que os pedágios transformaram as estradas de São Paulo nas melhores do País - já eram antes de qualquer pedágio - e que irá reforçar o Bolsa-Família.

 

Há muitos aspectos a comentar nessa comédia de erros; vamos, por isso, limitar-nos a alguns, para não cansar os eleitores, que de canseira os programas eleitorais se encarregarão. O primeiro e mais óbvio é o flagrante desrespeito às leis republicanas e democráticas que se mostra em tratar o TSE como um mero cartório: carimbou o programa, e pronto. Agora, já não é mais aquele e se envia ao TSE um novo programa para receber um novo carimbo. Tudo burocrático, como ensina a boa ciência do mestre Weber.

 

Sob o primeiro aspecto grosseiro, esconde-se o que de fato importaria: o eleitor-cidadão, que não merece nenhum respeito, e que ontem leu sobre a descriminalização do aborto e hoje pode se encontrar com um blá-blá-blá que esconde a falta exatamente de programa. Melhor fazer como Plínio de Arruda Sampaio, o candidato do PSOL, que, católico, declarou que embora sua consciência religiosa não aprove o ato extremo, como representante do povo, se eleito, respeitaria a vontade dos cidadãos. Como para ele, e outros muitos, a questão do aborto é uma espécie de "cláusula pétrea", ela requer uma consulta ao povo, na forma de um plebiscito, para que se saiba qual é realmente a vontade popular.

 

Os atos falhos na verdade revelam o que já está exposto: não há programa nenhum por parte de nenhum dos partidos cotados para as posições principais, e nenhum desses candidatos "majoritários" quer se expor a votos que possam lhes ser desfavoráveis se suas verdadeiras posições forem reveladas. Mais grave: eles realmente não têm posições. Os programas são irrelevantes, e na era do puro marketing, o que vale é o que vai ganhar: já ouvi essa posição de muita gente durante essa longa e pobre Copa do Mundo. Por quem você está torcendo? Por quem vai ganhar.

 

A ausência de programa revela que, de fato, há poucas diferenças entre os candidatos principais. Um jeito diferente no cabelo de Dilma, uma foto maquiada de Serra para esconder suas olheiras, é tudo que se obtém dos espertalhões do marketing. A primeira declarou-se a continuidade do Lula, enquanto o segundo declarou-se igualmente o continuador do Lula. Marina Silva escondeu-se atrás de uma hábil manipulação: ela não será a continuadora, mas a sucessora do Lula. Essa convergência para o centro, que na verdade já pende ligeiramente para a direita, é o resultado de um longo processo, que neste artigo não podemos reconstituir. É o resultado do capitalismo periférico, que opera na junção entre os muito pobres e os muitos ricos. Você sabia que ao lado de ostentarmos um dos piores indicadores da desigualdade econômica e social, somos também, orgulhosamente, a pátria do oitavo homem mais rico do planeta? Sim, fomos talvez precocemente desclassificados da Copa do Mundo. Mas, por favor, o inimigo do povo não é Dunga.

 

FRANCISCO DE OLIVEIRA É PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP E AUTOR DE CRÍTICA À RAZÃO DUALISTA / O ORNITORRINCO (BOITEMPO)

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