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Proibido na China, 'Death Fugue', de Sheng Keyi é uma pungente sátira política

Romance ficcionaliza massacre da Praça da Paz Celestial usando um humor escatológico

Ron Charles*, The Washington Post

20 de agosto de 2021 | 10h00

Mais de três décadas depois de soldados chineses matarem centenas - talvez milhares - de manifestantes chineses, o Partido Comunista ainda procura rastrear referências, por mais vagas que seja, ao massacre da Praça da Paz Celestial.

Mas Sheng Keyi facilitou para os censores do governo o trabalho de descobri-la. Seu romance Death Fugue começa na cidade de Beiping, no exato dia em que uma torre de nove andares de excremento aparece na Praça Redonda.

A história que se segue é uma espécie de refração no estilo chauceriano do violento ataque militar que chocou o mundo em 1989. Alertadas para o surgimento de uma pilha de excremento, milhares de pessoas afluem à praça. Alguns perguntam “que tipo de esfíncter seria capaz de uma tal obra de arte?”. Outros procuram explorar o entusiasmo para pressionar por uma reforma política. Agências de mídia estatais pedem calma, “fomentando a teoria de que a torre foi feita com excrementos de gorila”, mas teorias concorrentes se espalham rápido, atraindo um número cada vez maior de manifestantes portando cartazes como “Viver na Verdade” e “Testes de DNA de amostras de fezes”. Finalmente, numa violenta reação, o governo esvazia completamente a praça, deixando-a tão perfeitamente restaurada que nenhum sinal de resistência permanece.

Desse humor escatológico surge uma pungente sátira política que, previsivelmente foi proibida na China, mesmo com a obra de Sheng continuando a gerar suspiros e elogios. Agora, quase dez depois de escrita, Death Fugue é publicado por uma pequena editora americana numa tradução para o inglês de Shelly Bryant. Infelizmente, diante do comportamento tirânico persistente de Pequim, esse romance não perde nada da sua relevância original.

O herói do romance é Yuan Mengliu, poeta que trabalha no departamento de literatura da National Youth Administration for Elite Wisdom (algo como Administração Nacional de Jovens para a Sabedoria das Elites, em tradução livre). Comicamente uma pessoa sedenta por sexo, Mengliu se junta a dois outros poetas, formando um trio conhecido como Os Três Mosqueteiros. Ele não está particularmente interessado na misteriosa montanha de fezes na Praça, mas como seus camaradas poetas estão, ele se vê em meio às manifestações. Durante uma batida policial ele é detido, junto com uma bela mulher chamada Qizi, uma das líderes das manifestações.

E, numa retrospectiva, tomamos conhecimento daqueles dias agitados, à medida que Sheng apresenta momentos de romance e violência numa escalada de exuberância juvenil. Mas num momento presente igualmente instável, Qizi desaparece e Mengliu abandonou a poesia para se tornar um cirurgião. Embora esteja constantemente em busca de novas conquistas sexuais, ele continua obcecado por Qizi. “O amor que queima no fundo do seu coração flui continuamente”, diz o narrador, “como uma fonte subterrânea”.

Por mais bizarra que seja a sátira de Sheng dos incidentes da Praça da Paz Celestial, este não é o elemento mais estranho desta história. De fato, essa torre de fezes é uma piada de estudante comparado com o que ela desenvolve no livro. No início do romance, quando Mengliu está envolvido na sua busca anual por Qizi, ele se depara com uma “terra fértil com uma paisagem belíssima”. O narrador observa que “havia algo diferente com esse lago e a montanha”. Na verdade, há algo muito diferente naquele lugar: Mengliu entrou na cidade-Estado ideal chamada Vale do Cisne.

Nesse lugar paradisíaco de uma beleza impecável e uma paz imperturbável, homens e mulheres são pessoas de excelência e seus filhos são profundamente maduros. “Não existe desejo, nem cobiça, não há egoísmo ou desvios, somente boas ações”. Mengliu fica entusiasmado com  aquela terra e a atmosfera. “Mesmo a brisa parecia trazer consigo um poder revitalizador. Sua pele parecia mais hidratada e suave, seu estado de espírito era como uma nuvem sem forma vagando, livre da carga do passado”, escreve Sheng. “Um nobre temperamento lentamente tomou conta do seu ser. A perspectiva de levar uma vida abnegada e magnânima, longe do que é mundano, permeava a atmosfera”.

“Quem se objetaria a uma vida confortável e agradável”, indaga o líder do Vale do Cisne.

Naturalmente, um século de assassinatos em massa patrocinados pelo Estado em busca da sociedade ideal tornou os leitores dos dias atuais descrentes de tais lugares. E fica claro no início que Sheng trabalha seguindo uma tradição que inclui George Orwell, Aldous Huxley, Philip K. Dick, Margaret Atwood e outros críticos perspicazes da loucura humana. Mas se Death Fugue se inclina a esses predecessores, a história é alimentada inteiramente com o próprio elixir de gênio e raiva de Sheng. O resultado é uma desconstrução implacável da insistência do Partido Comunista de que a sociedade pode ser aperfeiçoada por meio do sábio controle centralizado.

Mas significativamente, Sheng não se concentra na administração econômica ou política do Vale do Cisne. Pelo contrário, ela concentra sua sátira acerca da regulamentação da privacidade por parte do governo. À medida que Mengliu conhece mais esse “mundo idealizado”, ele descobre que casamentos, relações sexuais e gravidez, tudo isso é cuidadosamente arquitetado “de acordo com princípios científicos” de modo a garantir a melhor progenitura possível. Os cidadãos são incentivados por slogans aprazíveis como “Deixe seu melhor esperma combinar com o melhor óvulo”. O horror desse programa só fica aparente quando Mengliu percebe que não pode deixar o Vale do Cisne.

Em parte, porque ele não lembra como chegou a essa “pervertida ilusão de paz”, como afirma. Algo no ambiente do Vale do Cisne está corrompendo sua mente. “Ele tentava com força relembrar a cena”, escreve Sheng, “mas seu esforço era como respirar na frente de um espelho, seu passado cada vez mais embaçado”. Essa confusão mental está eficazmente refletida na estrutura de Death Fugue, que muda de tempo e lugar erráticamente. O tom também é curiosamente caótico, deslizando da conversa filosófica para momentos de um absurdo grotesco. Para ser franco, não é um livro fácil de ler, mas num mundo repleto de ficção distópica, é uma obra desestabilizadora e finalmente esclarecedora de numa maneira totalmente sem igual.

Talvez seja isso que significa escrever sob a vigilância de um regime despótico que constantemente monitora a Internet para averiguar ideias proibidas. “Às vezes a arte é o único meio pelo qual podemos encontrar a verdade”, escreve Sheng, “e o único instrumento flexível o bastante para sua comunicação”. Este romance infinitamente sinuoso não conseguiu driblar os censores chineses, mas conseguiu se infiltrar no mundo e clamar sua crítica ardente da humilhação permanente do espírito humano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Ron Charles escreve sobre livros para o The Washington Post e hospeda oTotallyHipVideoBookReview.com

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