National Gallery
National Gallery

Projeto ajuda mulheres artistas que não assinam obras para ser levadas a sério

Mente por trás do subsídio que ajudou 220 artistas em 22 anos decide sair do anonimato

Robin Pogrebin, The New York Times

28 Julho 2018 | 16h00

A artista Carrie Mae Weems se lembra de estar sentada em sua mesa em Syracuse em 2014 “sentindo-se anônima e incompreendida e tentando descobrir como fazer um novo trabalho” quando recebeu um telefonema. “Um presente extraordinário”, disse ela. “Era importante, porque eu precisava do dinheiro, mas, mais do que qualquer outra coisa, precisava do incentivo e do apoio para continuar fazendo, continuar pressionando – para continuar trabalhando apesar de todas as pressões.”

+Retrospectiva explora obra do fotógrafo Stephen Shore no MoMA

+A guerra civil no Sudão do Sul pela lente de uma fotógrafa

O presente é parte de um programa de subsídios que pagou um total de US$ 5,5 milhões nos últimos 22 anos para dar apoio a mulheres artistas menos reconhecidas com mais de 40 anos. É chamado “Anonymous Was a Woman” (Anônimo era uma mulher), em referência a uma frase em Um Quarto Só Para Si, de Virginia Woolf, para homenagear as artistas que não assinaram suas pinturas para que seu trabalho fosse levado a sério.

+A influência de Vilém Flusser para a fotografia e as artes visuais

A doadora por trás do prêmio queria permanecer desconhecida. Mas agora ela está saindo de trás da cortina: Susan Unterberg, ela própria uma artista antes desconhecida, com mais de 40 anos. Em uma recente entrevista em sua casa no Upper East Side, ela disse que decidiu se manifestar para poder discutir mais abertamente a favor das mulheres que são artistas, demonstrar a importância de as mulheres apoiarem outras mulheres e tentarem inspirar outros filantropos. “É um ótimo momento para as mulheres falarem”, disse Unterberg. “Eu sinto que posso ser uma defensora melhor tendo minha própria voz.”

+'Para Entender uma Fotografia' traz ensaios do crítico John Berger

Unterberg, 77, mora em Nova York, tem seu trabalho fotográfico em algumas grandes coleções de museus – incluindo o Metropolitan, o MoMA e o Museu Judaico – e fez uma retrospectiva de carreira no Centro de Artes Contemporâneas em Cincinnati, em 2004. Mas ela passou pelos obstáculos enfrentados por mulheres artistas em todo o mundo. “Elas não recebem exposições em museus com tanta frequência quanto os homens, elas não têm os mesmos preços no mundo da arte, e isso não parece estar mudando.”

Estatísticas citadas pelo Museu Nacional de Mulheres nas Artes mostram que as artistas ganham 81 centavos por cada dólar ganho por homens; o trabalho de artistas mulheres representa apenas de 3% a 5% das principais coleções permanentes de museus nos Estados Unidos e na Europa; e das cerca de 590 grandes exposições de quase 70 instituições nos Estados Unidos, de 2007 a 2013, apenas 27% foram dedicadas a mulheres. “As mulheres continuam a ser seriamente subestimadas e subvalorizadas”, disse Weems. “Homens no poder apoiam os homens no poder e querem ver os homens no poder”.

Recentemente, a National Gallery, de Londres, adquiriu uma obra de arte de uma mulher pela primeira vez em 27 anos (um autorretrato da pintora do barroco italiano Artemisia Gentileschi). E a Fundação Ford foi uma das várias organizações que recentemente receberam uma carta da curadora Helen Molesworth sobre a possibilidade de iniciar um “Time’s Up” para os museus, tomando emprestada a meta do esforço de igualdade de um grupo de Hollywood – 50/50 até 2020. “Será que agora não é a hora de se fazer uma ampla defesa de paridade de gênero em todos os aspectos da profissão?”, escreve Molesworth. “Como podemos trazer a pressão do momento atual para nossa programação, nossa apresentação de coleções permanentes, a forma como buscamos aquisições?”

Unterberg disse que escolheu manter sua identidade em segredo para que sua arte fosse avaliada em seus próprios termos – até mesmo seus netos crescidos não sabiam que ela estava por trás das subvenções. “Eu estava trabalhando muito duro para me tornar conhecida como uma artista contemporânea”, disse Unterberg. “E isso, eu senti, teria influenciado a maneira como as pessoas olhavam para o meu trabalho ou me enxergavam. Sou uma pessoa reservada”, ela acrescentou, “e não me importava em ser desconhecida”.

Como fundadora e única patrocinadora do programa, Unterberg apoiou 220 artistas com fundos que ela e sua irmã, Jill Roberts, herdaram depois que seu pai, Nathan Appleman, um homem do petróleo e filantropo, morreu em 1992. Ela foi incentivada a iniciar o programa em 1996, quando o National Endowment for the Arts acabou com subsídios individuais, como forma de dar mulheres artistas o tipo de apoio que ela sabia que elas precisavam, especialmente no estágio intermediário de suas carreiras. Ela teve a ideia durante um brainstorming com Marcia Tucker, a vigorosa curadora e fundadora do New Museum. “Como eu era uma artista de meia-idade e sempre quis apoiar as mulheres, esse parecia ser o veículo perfeito.”

As vencedoras anteriores – muitas das quais passaram a apresentar exposições individuais em instituições como o Museu Whitney de Arte Americana, o Museu Solomon R. Guggenheim e a Bienal de Veneza – incluíram Louise Lawler, Tania Bruguera, Carolee Schneemann e Mickalene Thomas.

As artistas que receberam o subsídio de US$ 25 mil há muito se indagavam a respeito da pessoa – ou pessoas – por trás disso. “É uma forma muito especial de generosidade fazer isso anonimamente”, disse Nicole Eisenman, que recebeu uma doação em 2014. “A falta de ego e o puro altruísmo nessa concessão é uma coisa linda.”

As mulheres são indicadas e avaliadas por outras mulheres no campo – curadoras, escritoras de arte e vencedoras anteriores, que não são identificados. As cinco integrantes do comitê de seleção – que mudaram ao longo dos anos – participam das deliberações por um dia inteiro e ganham US$ 1.000 por seu tempo. O prêmio não é baseado em necessidade; as mulheres simplesmente têm que ter mais de 40 anos (costumava ser mais de 30 anos, mas isso mudou logo no início) e estarem em uma encruzilhada em sua prática, o que elas explicam ao apresentar suas propostas. “Chegou na hora certa”, disse Amy Sherald, que recebeu o prêmio em 2017 antes de ser eleita para pintar Michelle Obama para a National Portrait Gallery.

“Na época em que recebi o cheque, na verdade eu estava em um ponto em que não conseguia nem pagar meu aluguel”, disse ela em entrevista por telefone. “Eu tinha apenas US$ 1.500 e era esse exatamente o valor do meu aluguel. O anúncio do retrato tinha acabado de sair e eu estava sentada, quebrada. Isso salvou minha vida no que se refere a garantir meu estúdio para fazer aquele retrato”.

Depois de analisar os depoimentos de cerca de 70 beneficiárias em 2004, a curadora Laura Hoptman disse que o benefício psicológico mostrou ser tão decisivo quanto o financeiro, mencionando “uma validação de sua posição” na comunidade de arte, um reconhecimento de suas realizações passadas, bem como um forte voto de confiança em sua capacidade de continuar a produzir um trabalho significativo.” O que é óbvio pelos testemunhos, acrescentou Hoptman, “é a qualidade de mudança de vida vinda um subsídio substancial e merecido que vem do nada.” Os termos usados com mais frequência nesta amostragem, disse ela, foram “salva-vidas” e “milagre”.

De fato, ir a público acaba resultando em algumas mensagens de gratidão, mas Unterberg disse que nunca concedeu as bolsas em nome de reconhecimento. “É um agradecimento suficiente saber que ajudei a vida das pessoas quando elas precisaram”, disse ela, acrescentando: “Vou sentir o prazer secreto de ver as pessoas se beneficiarem de longe sem que meu nome seja incluído”.

Unterberg – que também está encerrando um mandato de cinco anos como presidente do conselho do Yaddo, o retiro dos artistas – disse que continuará a subscrever o prêmio, embora não mais como membro votante do painel de seleção.

A necessidade desse tipo de apoio, disse Unterberg, permanece tão marcante quanto ela começou. “Ainda é um momento político, duas décadas mais tarde”, disse ela, acrescentando que o National Endowment for the Arts “ainda está sob ameaça e as mulheres ainda enfrentam desafios no meio da carreira”. Ela arrematou: “Estou ansiosa para que a subvenção se torne mais conhecida. As mulheres têm sido anônimas por tempo demais.” / Tradução de Claudia Bozzo

Mais conteúdo sobre:
artes plásticas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.