Academia Brasileira de Letras
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Projeto promove foto colorizada de Machado de Assis negro

Iniciativa visa conscientizar leitores a respeito da cor do autor, erroneamente retratado como branco

Shannon Sims, The New York Times

21 de junho de 2019 | 03h00

Ricardo Pavan Martins se lembra de ter lido Machado de Assis pela primeira vez quando ainda cursava o ensino fundamental. Agora, com 29 anos e morando em Bauru, no interior de São Paulo, Martins ficou chocado ao ver a nova imagem de Machado que viralizou no Brasil. 

O escritor aparece com uma pele consideravelmente mais escura do que a da tradicional fotografia em preto e branco que ilustra praticamente todos os seus livros e também está pendurada com destaque na Academia Brasileira de Letras, fundada por ele. 

“Sempre o imaginei branco, porque esse é o padrão da imagem da maioria dos escritores”, disse Martins. “Tenho certeza de que se a cor da pele de um autor tão importante tivesse sido no mínimo discutida em meus anos escolares, meus colegas negros se sentiriam muito mais representados.”

Joaquim Maria Machado de Assis, que viveu de 1839 a 1908, ocupa uma posição única entre os escritores brasileiros. Dom Casmurro, de 1899, sua obra-prima sobre traição e ciúme, é leitura obrigatória em várias escolas e vestibulares do País. Seu nome designa ruas e estações de metrô em diversas cidades. Susan Sontag considerou-o “o maior escritor já surgido na América Latina”. Outros o compararam a Gustave Flaubert, Franz Kafka, Henry James e Alice Munro.

A foto histórica tradicional de Machado mostra um homem cuja pele é quase tão branca quanto a camisa que usa. Mas um novo projeto, desenvolvido pelo escritório da agência de propaganda Grey, em São Paulo, e pela Universidade Zumbi dos Palmares, predominantemente negra, recriou a foto de um modo que, segundo os líderes do projeto, reflete mais fielmente a verdadeira aparência do escritor. 

Machado é tido como descendente de escravos libertados, mas a nova versão da foto, que o mostra como negro, abalou os brasileiros. Alguns foram levados a repensar os critérios com que haviam lido suas obras; outros, para os quais o legado do escritor foi “embranquecido”, se enfureceram. 

“Machado de Assis virou um cara loiro de olhos azuis”, disse José Vicente, fundador e diretor da Universidade Zumbi dos Palmares. A instituição criou o projeto como parte de um esforço para “restaurar a imagem dos negros da história do Brasil que através do tempo foram embranquecidos ou tiveram sua obra esquecida”, disse José Vicente. 

“Acho que esse projeto mostra quão poderoso e profundo pode ser o racismo, mas também mostra a importância e a necessidade de a cultura negra ser reconhecida não apenas pela comunidade negra, mas por toda a humanidade. O Brasil precisa conhecer a si mesmo.”

A universidade trabalhou com a Grey, que contratou historiadores para garantir a precisão da imagem e administra o marketing e a implementação do projeto. 

Chamado de “Machado de Assis Real”, o projeto encoraja leitores a baixar da internet e imprimir a nova imagem, postando ainda no Instagram de clipes de estudantes sobrepondo-a às existentes em seus livros, com a hashtag #machadodeassisreal. 

Ariano Matos, diretor-geral de criação da Grey, disse que o próximo passo seria substituir o retrato de Machado da Academia Brasileira de Letras. O atual presidente da ABL reuniu-se em maio com líderes do projeto para receber o novo retrato que deve ser exposto.

Matos espera que as editoras brasileiras comecem a usar a nova imagem na capa dos livros. “Nossa meta é que um dia se possa ir ao Google e encontrar apenas imagens de Machado de Assis como negro”, disse ele. 

Pelo menos uma pequena editora, a Malê, já se comprometeu a publicar a obra de Machado com o novo retrato. Editoras dos Estados Unidos como a Liverlight, que publica obras do autor traduzidas, disseram não ter ouvido falar no projeto, mas estão abertas a considerar o novo retrato. 

O primeiro livro a ser publicado no País já com a imagem atualizada do escritor é justamente um romance histórico narrado da perspectiva de um rival amoroso. O Homem que Odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior, publicado pela Faro Editorial.

Não está claro como e por que a imagem de Machado foi embranquecida. G. Reginald Daniel, professor de sociologia da Universidade da Califórnia em Santa Barbara e estudioso da vida do autor, disse que no Brasil do século 19 as editoras “o queriam branco para vender mais. Ver esse grande escritor como descendente de africanos perturbaria muita gente”. 

“Ele se consagrou num período em que para ser reconhecido e valorizado pela sociedade brasileira era preciso ser branco”, disse Matos. “Nunca teria sido levado a sério, nem ter sucesso comercial, se as pessoas conhecessem sua verdadeira identidade racial. Se soubessem que era negro, ele teria sido um fracasso.”

Mas outros conhecedores de Machado são ambivalentes sobre o movimento para identificá-lo como negro. Daniel, que escreveu um livro falando da identidade racial do escritor, disse que, embora aplauda os esforços pela “rerracialização”, o Machado de Assis verdadeiro “não era negro, mas mestiço. Retratá-lo de outro modo seria ignorar sua dualidade e a experiência que teve como homem birracial”. 

Pode haver também um aspecto geracional a ser considerado na mudança de imagem de Machado promovida pelo projeto. Para estudantes negros envolvidos, como Mayra Salles, trata-se de um esforço para mudar o modo como futuras gerações de brasileiros negros vão se enxergar. 

“Minha esperança é que pessoas como eu não tenham que esconder ou negar a cor de sua pele”, disse Salles, de 26 anos, estudante na Zumbi e estagiária na agência Grey. “Esse projeto é um alerta ao mundo: estamos aqui e não vamos recuar. Não toleraremos mais a violência e a discriminação vindas do racismo.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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