Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Prolífico, escritor Nelson de Oliveira se tornou um agitador cultural

Ficcionista trabalha com vários heterônimos e tem 47 títulos publicados, além de prêmios APCA e Casa de Las Américas

André Cáceres, Especial para o Estadão

31 de março de 2022 | 10h00

“Se a vida real fosse uma jujuba azul e a ficção fosse uma jujuba vermelha, eu escolheria a vermelha”, diz um dos capangas do chefe do tráfico da favela sob a redoma de uma metrópole de proporções globais no conto A Última Árvore, de Luiz Bras. Para além da referência óbvia às pílulas coloridas de Matrix, as jujubas soam como a atitude do autor diante da literatura. Em 1999, Moacyr Scliar escreveu que “o grotesco do cotidiano serve como âncora” para seus contos. Pois Bras  levou sua investigação do insólito a um outro patamar com o lançamento das coletâneas de contos Symetrias Dyssonantes (Líquido Editorial) e Curto-circuito Camicase (Caos & Letras).

Luiz Bras é o heterônimo com o qual o escritor Nelson de Oliveira assina obras de ficção futurista. Com suas diferentes personas, o autor é hoje um dos mais prolíficos nomes da cena literária brasileira. Somente em 2021, além dos livros de contos, ele publicou a seleta de poemas A Wop Bop a Loo Bop a Wop Bam Boom (Patuá) como Valério Oliveira e as novelas Filhos do Lixão (Líquido Editorial) como Sofia Soft e Vidas Andarilhas (Caos & Letras) também como Luiz Bras.

“No início eu habitava apenas o insólito continente da ficção fantástica, também chamada de realismo mágico. Mas depois eu migrei para o maravilhoso continente vizinho, da ficção futurista”, afirma o escritor em entrevista ao Estadão. “O maior mérito de uma obra literária é ser, acima de tudo, uma festa para a inteligência. É isso o que a ficção fantástica e a ficção futurista representam pra mim: uma festa para a inteligência.”

Os contos de Oliveira/Bras se equilibram entre uma linguagem esteticamente poderosa e enredos cuja fagulha seja uma ideia original. “Eu costumo brincar mais com a oposição linguagem-enredo, do que com a oposição forma-conteúdo. Explico: forma e conteúdo são dimensões inseparáveis e simultâneas das obras de arte e das obras literárias”, afirma o autor, citando o filósofo Luigi Pareyson, para quem, “na obra de arte, ser e dizer, corpo e espírito são a mesma coisa”.

Entre as premissas narrativas mais instigantes, estão contos como Pupilas Douradas (surge um vírus de computador criado por algoritmos capaz de infectar seres humanos), Buscador (uma nova ferramenta do Google, capaz de informar coisas sobre o futuro) e Fim do Lockdown, P*! (após a quarentena imposta pela pandemia de covid-19, descobre-se que as aglomerações não são mais possíveis, pois cada pessoa acabou presa em uma realidade diferente e particular).

Já entre os contos de linguagem mais transgressora, há desde formas mais poéticas, como Curto-circuito Camicase, que começa com “O amanhoje surge no horizontem” e evolui num crescendo lírico, até a brincadeira linguística com o portunhol e os personagens que têm consciência de fazerem parte de uma peça literária em [EPYLOGO]La Profana Santidade.

Para Nelson, a premissa dos personagens autoconscientes “virou uma obsessão tragicômica”, diz ele. “Eu mesmo sempre acreditei que o livre-arbítrio não passa de uma ilusão sacana. Concordo com Espinosa: ‘Os homens se enganam quando se pensam livres e esta opinião consiste apenas em serem conscientes de suas ações e ignorantes das causas que as determinam’”.

Seja em contos, romances ou poemas, e independentemente do heterônimo em ação, uma característica marcante da escrita de Nelson de Oliveira é a maneira como a adjetivação cumpre a função de alternar campos semânticos radicalmente diferentes, modulando as expectativas do leitor. Um bom exemplo se vê no conto em verso A Wop Bop a Loo Bop a Wop Bam Boom, presente em Curto-circuito Camicase: “Urrando sob a pele do algoritmo/amazônico/sussurrando através da chuva/supersônica/diz a onça-pintada /para o astronauta :/Os limites da minha/linguagem-viagem/são os limites do teu/mundo-vertigem”. “Amazônico” contradiz o campo semântico sugerido por “algoritmo” e “supersônica” amplia o horizonte semântico de “chuva”, sempre embaralhando as noções de um futuro hipertecnológico e de um passado tradicional místico que se consomem mutuamente. Esse tipo de jogo de significados ocorre a todo momento em seus textos, desde obras mais antigas em sua carreira, como Distrito Federal (2014).

“Aprecio muito o que André Breton e sua gangue surrealista chamavam de ‘imagem poética’, ou seja, a aproximação inesperada de realidades vocabulares mais ou menos distantes. Esses curtos-circuitos me fascinam, na prosa e na poesia. São faíscas excêntricas, camicases, que geram o ‘estranhamento’ (ostranenie) dos formalistas russos”, explica o autor.

Outra característica interessante dos contos, poemas e novelas que Nelson publicou este ano é a repetição de frases que vão formando padrões em constante mutação, como na estrutura do contraponto musical, com vozes se alternando em sujeito e contrassujeito como nas fugas de Bach. Por vezes, o autor investe na aliteração, por vezes na repetição sistemática. No conto Curto-circuito Camicase, que se passa em uma biblioteca insólita, a bibliotecária repete uma reprimenda à exaustão para a protagonista, até que a própria fonte usada no livro vai diminuindo, como num fade-out musical.

Nelson lembra uma ideia do escritor e quadrinista Alan Moore, de que artistas e escritores são magos, que a arte é magia em seu sentido mais primordial, uma vez que pode “de transformar, de maneira viciosa ou virtuosa, a mente das pessoas e os alicerces da realidade”. “A estrutura do contraponto musical, que você percebeu em algumas de minhas ficções, reforça essa ideia de mantra, de feitiço, de encantamento… Costumo dizer que a magia de algumas páginas tanto do Curto-circuito Camicase quanto das Symetrias Dyssonantes funciona melhor quando essas páginas são lidas em voz alta. A ideia é sugerir aos leitores, por meio das anáforas, aliterações e assonâncias, uma ruptura quântica no tecido do espaço-tempo, uma brecha mínima capaz de abrir novos portais mentais.”

Além de sua ficção, que já soma 47 livros ao todo e pela qual arrebatou duas vezes os prêmios Casa de las Américas (1995 e 2011) e APCA (2001 e 2003), e o Prêmio Clarice Lispector da Biblioteca Nacional, Nelson tem se mostrado um importante agitador cultural, coordenando coletâneas de novos autores por meio do coletivo KriptoKaipora, editorando antologias relevantes (Geração 90, Geração Zero Zero e Fractais Tropicais) e ministrando ateliês de escrita criativa. “Não são atividades paralelas, mas espirais vibrantes em constante convergência, que me afetam o tempo todo. O proveito é enorme. Tanto as oficinas quanto as antologias me mantêm em contato com a literatura que está sendo produzida pelos escritores vivos, meus companheiros de jornada.”

Mesmo tendo tido um 2021 bastante produtivo e admitindo que “o mercado editorial antipatiza com os autores que publicam muito” e que é de bom tom lançar um livro a cada três anos, Nelson já trabalha em seu próximo projeto.

Com os títulos provisórios de PanDemonyum ou Bycho de Nove Kabeças, a obra será sobre “os conflitos sangrentos, as ações perversas e persistentes que torturam as sociedades humanas desde sua origem”, classificada por ele como uma novela-móbile de 81 capítulos que poderão ser lidos em qualquer sequência, como em O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar.

“Nesse mundo-vertigem, às vezes eu me considero mais filósofo do que poeta ou ficcionista. Hoje eu percebo claramente que tudo o que escrevi, tudo o que estou escrevendo, é filosofia em forma de conto, romance ou poema.” E é filosofando que Nelson e sua trupe de heterônimos segue sempre optando pela jujuba vermelha da ficção.

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