Mack Avenue Records
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Promessa do jazz, Cécile McLorin publica novo disco, 'The Window'

Cantora vem sendo comparada a nomes como Norma Winstone e Billie Holiday

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

12 Janeiro 2019 | 16h00

Em 29 de agosto de 2019 ela completará 30 anos. E já pode ser apontada como a cantora mais diferenciada de sua geração. Um admirador berrou enquanto aplaudia uma de suas performances: “Você é uma cantora de cabaré pós-moderna”. Nascida em Miami, de mãe francesa e pai haitiano, Cécile McLorin é mesmo o pós-moderno encarnado. Olha para a história da música – da música não, de todas as músicas – e pinça o que mais lhe agrada para compor shows e gravações que mais se parecem com as playlists que hoje constituem o modo preferencial de consumo musical. 

Playlists, sim, mas jamais desconjuntadas como soam as colchas de retalhos habituais nos streamings. Playlist não é mais do mesmo, deve juntar músicas que conversam entre si. Com Cécile, tudo faz sentido, nada é gratuito. Em The Window, seu quinto CD – aleluia, ainda é possível construir CDs conceituais –, ela tece um mosaico aparentemente díspar. Você olha a lista das 17 canções e se surpreende. Somewhere, de West Side Story, de Leonard Bernstein, está lado a lado com J’ai L’Cafard (Louis Desplax/Jean Eblinger), clássico do cabaré parisiense dos anos 1930 de Damia, a cantora-atriz francesa apelidada de “la tragédienne de la chanson”. E Obsession, composição de Dori Caymmi e Gilson Peranzzetta de 1988, com letra em inglês de Tracy Mann, divide espaço com One Step Ahead, clássico do início da carreira gloriosa de Aretha Franklin, e Visions, de Stevie Wonder, de 1973.

Bem, ecletismo nem sempre quer dizer oportunismo. E aqui o amor e a paixão dominam Window, gravado meio a meio entre um show no venerando Village Vanguard e o estúdio Sear Sound em Nova York. Cécile estudou piano clássico no Conservatório Darius Milhaud, venceu o Concurso Thelonious Monk de 2010 e gravou seu primeiro disco, WomanChild, em 2013. Pois não é que sua voz, de mil e uma cores, às vezes soa mesmo infantil, e outras muito próxima do volume e timbre inconfundível de sua musa particular, Sarah Vaughan?

Cécile se aproxima de cada canção sempre com a intenção de reinventá-la. Mesmo que ela leve o título de Somewhere e já tenha sido gravada mil e uma vezes. Pois ela transforma a canção do musical de Bernstein num autêntico “lied” [canção culta, que nasceu na virada dos séculos 18/19 nos países de língua alemã, teve como compositor máximo Franz Schubert, com 600 canções, e também Schumann, Brahms e Richard Strauss; declinou no final do século 19]. E isso também graças ao excepcional pianista Sullivan Fortner, 32 anos, que tocou no grupo do trompetista Roy Hargrove, morto precocemente em novembro passado. Fortner parece entender o espírito de Cécile. Se brinca parafraseando America no início de Somewhere, na sequência imprime um pianismo digno dos acompanhamentos mais sofisticados de Schubert. 

Querem um exemplo? Dou dois. Em Ever Since The One I Love’s Been Gone, de Buddy Johnson (1915-1977), pianista de blues e líder de uma big band que brilhou nos anos 1940 no Savoy Ballroom de Nova York, o piano de Fortner constrói arabescos que quase beiram a Liberace (raros momentos), mas felizmente com bem maior frequência consegue capturar a quintessência do formato voz-piano do “lied”. Fortner, aliás, aproxima-se bastante do modo como Schubert tratava o piano em seus lieder, dando-lhe espaço para lindos e surpreendentemente longos postlúdios instrumentais. É o que Fortner faz em The Sweetest Sounds, uma das raras canções de Richard Rodgers em que ele também escreveu os versos, em 1962, para o musical No Strings. Cécile quase murmura os versos iniciais, algo como “Os sons mais doces que jamais ouvi ainda estão dentro da minha cabeça (...) tudo isso me espera em algum lugar”. São apenas nove versos. A partir do início do segundo minuto e até o final, aos 4’55, Fortner tece uma longa pensata musical sobre os versos iniciais finamente entoados por Cécile. Caminha por trechos suingados que relembram o notável piano stride de James P. Johnson, nos “crazy” anos 20 em Manhattan, quando ele acompanhava Bessie Smith; mas também suspende o pulso e tece até contrapontos a duas vozes que por curtíssimos momentos soam puro Bach. Memorável.

Não há espaço para falar de cada uma das 17 performances. Todas justificam sua inclusão em Window. Mesmo a mais extensa e mais camerística reinvenção de um clássico, The Peacocks, composição instrumental do pianista Jimmy Rowles, célebre por ter acompanhado cantoras como Sarah Vaughan, Peggy Lee, Ella Fitzgerald e Billie Holiday. Em quase dez minutos, Cécile e Fortner evocam sem jamais clonar a atmosfera única do registro de The Peacocks, com Norma Winstone e o próprio Rowles, em outubro de 1993. Aliás, a performance parece um tributo cifrado a Norma, Rowles e às extraordinárias cantoras citadas. O piano contido evoca as cores sutis da paleta debussysta... até a entrada do sax-tenor de Melissa Aldana, com quem a voz de Cécile compõe uma espécie de manifesto musical afirmativo em uníssono. Logo logo, porém, o piano impressionista de Fortner as leva de volta ao clima diáfano, com direito a lindos e delicadíssimo arabescos do saxofone de Aldana. Uma performance para não se cansar jamais de ouvir. Dá vontade de revisitar imediatamente em seguida uma das antológicas gravações de Norma, ao lado do clarinetista e saxofonista Klaus Gesing e do pianista Glauco Venier. Qualquer uma delas: Distances (2008), Stories Yet to Tell (2010), Dance Without Answer (2014) e Descansado (2018), todos da ECM. Quanto a Cécile McLorin Salvant, corra para degustar seus quatro CDs anteriores. O melhor, entretanto, é mesmo Window (Mack Avenue, 2018).

*João Marcos Coelho é crítico musical e autor do livro 'Pensando as Músicas no Século XXI' (Editora Perspectiva)

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