Propaganda vestida de arte

Filme pró-Pinochet tenta lavar imagem do ditador sob o pretexto da liberdade de expressão

ANTONIO SKÁRMETA, ESCRITOR CHILENO, , É AUTOR DE O CARTEIRO, O POETA (RECORD). , O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h09

ANTONIO SKÁRMETA

Uma homenagem ao ditador Augusto Pinochet realizada domingo no Teatro Caupolicán, em Santiago, Chile, e os incidentes que a envolveram merecem ser vistos em sua devida dimensão. Depois de vários anos de governos de centro-esquerda, temos hoje no Chile a presidência de centro-direita de Sebastián Piñera - cujo índice de aprovação nas pesquisas não passa dos 30%. Piñera é apoiado basicamente por dois partidos: União Democrática Independente (UDI), mais conservador, e Renovação Nacional (RN), mais liberal. Desde a derrota de Pinochet no plebiscito de 1988 - tema do filme No, de Pablo Larraín, premiado recentemente em Cannes - ambos se ordenaram no jogo democrático e têm poderosa representação no Senado e na Câmara. Embora tenham tido relativo êxito em impedir reformas de aprofundamento da democracia pela centro-esquerda, ambas as organizações romperam com o pinochetismo.

Os nostálgicos partidários de Pinochet hoje são anciãos e anciãs, acompanhados por alguns jovens de aspecto ou conduta neofascista. E embora dois ou três parlamentares de linha dura ainda proclamem seu amor ao ditador, não é essa a política oficial nem a prática dos partidos de direita.

A coligação que elegeu Piñera tampouco promoveu, como esses remanescentes da ditadura esperavam, medidas para anistiar militares e civis condenados nos tribunais por violações dos direitos humanos e mantidos prisioneiros numa instalação de alta segurança chamada Punta Peuco. A Justiça seguiu seu rumo e os pinochetistas se sentiram abandonados à própria sorte. Reuniram-se na Corporação 11 de Setembro - data em que ocorreu o golpe de 1973 - e a partir dela coordenam ações de desagravo a Pinochet - considerado por eles um herói cuja imagem teria sido distorcida pela "imprensa mundial comunista", que englobaria do New York Times ao Le Figaro.

As iniciativas de limpeza da imagem do general de óculos escuros foram variadas. Desde tentativas de substituir nos livros didáticos a expressão "ditadura" por "regime militar" até lançamentos de livros de criminosos. Desta vez, no Caupolicán, o pretexto foi a estreia do documentário Pinochet, de Ignacio Zegers, cineasta pouco conhecido no meio, que declara ter feito o filme sob encomenda. A obra apresenta um enfático elogio ao general e uma inflamada defesa de todos os seus atos. Com habilidade, os dirigentes pinochetistas dissimularam a homenagem - um ato que fere profundamente os sentimentos da maioria dos chilenos e, em especial, os parentes de torturados, exilados e desaparecidos - sob o disfarce da estreia de um filme. Com isso, criaram um problema para as autoridades, pois proibir o ato seria um escandaloso atentado à liberdade de expressão! Não há no Chile uma lei que proíba a banalização e o elogio do fascismo semelhante à lei de desnazificação alemã.

Assim sendo, apesar das previsíveis manifestações contrárias, o ato foi realizado e teve como oradores os netos de Pinochet, representantes de exilados cubanos em Miami e herdeiros de Francisco Franco, entre outros. Uma verdadeira festa de família da extrema direita beligerante que reuniu a "impressionante" multidão de 1.200 pessoas num teatro com capacidade para 5 mil.

No Chile, o pinochetismo é hoje uma militância patética e obcecada na qual podemos ainda assim reconhecer o mérito da lealdade ao seu herói. Como corolário do ato de domingo e como lápide à homenagem, muito mais significativa foi a inesperada declaração daquele que foi, no passado, um dos mais proeminentes partidários e funcionários de Pinochet. Trata-se de Andrés Chadwick, que hoje é ministro do governo de Piñera: "Com a perspectiva do tempo, da maturidade política que é aprendida e dos conhecimentos que são adquiridos, há uma situação da qual de fato me arrependo: a brutal violação dos direitos humanos efetuada no governo militar, coisa que me traz o profundo arrependimento por ter sido partidário de um governo no qual esses atos eram cometidos". Palavras talvez tardias, mas que colocam o pinochetismo em seu devido lugar. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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