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Psicanalista Maria Cristina Kupfer lança romance sobre autismo no século 19

Em formato de diário, obra trata de uma criança que não fala e parece não se comunicar com ninguém

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2020 | 16h00

A narradora de Arthur - um Autista no Século XIX escreve ao romper da aurora. Inspira-se nos monges do século XIV, para os quais a melhor maneira de escrever seria acompanhando o nascer do dia. A primeira nota de sua pena é: “Hoje alcei voo com o sol”.

Seu nome é Marguerite, a data deste primeiro registro é 3 de outubro de 1891, e quem escreve é uma mulher francesa, rica e solteira. Mas não é ela a personagem principal do livro e sim Arthur, o filho de uma empregada da casa.

Arthur - um Autista no Século XIX, assinado pela psicanalista Maria Cristina Kupfer, é um livro de ficção, escrito em andamento do “novecento”, como destaca o jornalista Roberto Pompeu de Toledo na quarta capa. Um estilo escorreito e sereno, cuidado e de emoção contida (porém presente), que traz um tema do passado para a atualidade.

O livro tem formato de diário e começa por nos apresentar a um garotinho que não fala e parece não se comunicar com ninguém. Marguerite (mais tarde conheceremos seu sobrenome), aristocrata de bom coração e boa cabeça, decide adotar a criança e trazê-la para o “nosso mundo”. O volume compõe-se de quatro partes.

Na primeira, a mais longa, lemos o diário de Marguerite, relato do seu relacionamento, cheio de altos e baixos, com Arthur. A segunda, já em outro momento, traz um diário do próprio Arthur. Na parte seguinte, entra a voz de outra personagem importante na vida do garoto, Charlotte. A parte IV - intitulada O Mágico Mostra seus Truques - seria uma exposição da própria autora acerca dos esteios teóricos que servem de base à sua ficção. Por seu caráter tanto conceitual como íntimo, não seria abuso dizer que se trata de um diário a mais - desta vez o da própria autora em sua trajetória profissional. Maria Cristina Kupfer é psicanalista, professora titular sênior da USP e diretora do Lugar de Vida - Centro de Educação Terapêutica, dedicado à compreensão e tratamento de crianças autistas. Arthur é seu primeiro romance.

Nele, há essa série de diários que se cruzam e se comentam entre si falando de um processo terapêutico que não se vê como tal e nem poderia fazê-lo. Seria uma psicanálise avant la lettre, já que contemporânea dos anos do processo formativo da invenção de Freud.

Portanto, Marguerite não pode ser senão uma pessoa perspicaz e interessada num ser humano diferente de si, estranho, quase um freak aos olhos da época. O que a move é uma aposta na subjetividade do menino que não fala e não se expressa - a não ser por crises de choro e gritos. Aos poucos, ela vai descobrindo que pequenos gestos do garoto podem “significar” alguma outra coisa. Há um diálogo que pode se estabelecer entre a mulher e o menino. Diálogo que, por paradoxo, pode não passar de modo direto pelas palavras, mas está subordinado a elas.

Marguerite exerce também uma função protetora em relação a Arthur, hostilizado pela sociedade por atos que os outros não compreendem e vêem como agressivos e perigosos.

À esta altura, e sem revelar demasiado da trama, podemos lembrar, a título de exemplo, que existe um outro personagem presente na trama, Stéphane, um pretendente de Margueritte, que se incomoda demais com a presença de Arthur. Stéphane quer se casar, Margueritte recusa-se. “Stéphane não gosta do enigma que Arthur propõe a todos”, registra a narradora em seu diário. Ao contrário de outras crianças “normais”, que, bondosas e bem-educadas, asseguram que nós, adultos, também somos bondosos e bem educados, esta, em particular, não responde. “Ao não responder, ele não diz nada sobre nós. Ele é para nós um espelho opaco!”

Marguerite deseja ajudar Arthur, mas percebe que também aprende com ele. Nota que o incômodo provocado por Arthur diz muito sobre nós mesmos, “pobres de nós, que precisamos que nossa imagem se confirme sempre”, constata. “Começo a desconfiar que nesse pedido permanente de reconhecimento pode estar a fonte de grande parte de nossas dificuldades de entendimento entre as pessoas”.

Sentimos aqui ecos de Hegel e da “luta pelo reconhecimento” presente em sua Fenomenologia do Espírito, lida por Jacques Lacan através de Alexandre Kojève. É nossa “natureza” e ponto frágil da matriz humana essa necessidade do reconhecimento pelo outro, da devolução da própria imagem a partir do outro e, sem a qual, não nos sentimos seguros da nossa imagem própria. Arthur, e crianças como ele, nos recusam esse reconhecimento. Por isso não apenas provocam incômodo mas, no passado, tempo do romance, eram vistas como enfeitiçadas ou “demoníacas”.

Se Margueritte tem suas intuições a respeito de Arthur (e sobre si mesma), recebe considerável ajuda de outro personagem, Monsenhor Olivier. Religioso de corte humanista, também ele muito perspicaz a respeito dos mistérios da mente humana, Olivier auxilia Margueritte a perceber o enorme porém apaixonante desafio que representa o relacionamento com uma pessoa como Arthur.

Se a narrativa ficcional é simulacro de uma situação terapêutica, Monsenhor Olivier ocupa a posição do “supervisor”, ou mesmo do analista da analista, aquele que dá suporte ao terapeuta e também o ajuda a vislumbrar seus pontos cegos. A relação com o outro é sempre pontuada de complexidades imensas. Identificações, projeções, sentimentos amorosos, hostis, ou ambos ao mesmo tempo. Fenômenos da subjetividade mais tarde chamados por Freud de “transferência”.

Mas toda essa terminologia fica para depois porque Marguerite se comporta em relação a Arthur baseada mais em sua sensibilidade e seus insights pontuais que em teorias. E é melhor mesmo confiar mais em sua sensibilidade feminina que na psiquiatria da época. Como prova, Marguerite, que é uma mulher rica, leva Arthur a Paris, ao Hospital de Bicêtre, onde, ouviu falar, existe tratamento para garotos como ele. A experiência resulta em um fiasco traumático.

Melhor então confiar mais nos pequenos progressos de Arthur em companhia de pessoas que gostam realmente dele do que em curas bruscas, feitas à força e que apenas traumatizam, sem nada resolver. Mais sensato respeitar o mistério de um menino que não fala, cobre-se dos pés à cabeça para dormir e mostra-se atraído por livros antigos e suas iluminuras medievais.

A quarta parte do livro, em que a autora desvela suas referências, ou parte delas, pode ser vista como exposição dos elementos de construção da matéria ficcional. Mas, mais do que conceitos e teorias, desvela o que a autora chama de “desejo de reparação”. Das suas experiências terapêuticas que, sabemos, trazem muitas alegrias mas não poucas frustrações, surgiu um desejo: “Tive vontade de recriá-las na ficção, já que não pude ajudar seus pais a reinventá-las.

Arthur defende a tese de que os autistas já estavam entre nós há muito tempo, antes de caírem nas malhas de percepção médica de meados do século XX, quando é diagnosticada, descrita e denominada. Defende também que não se trata de um doença ou malformação, mas de uma maneira diferente de estar no mundo.

Misto de psicanálise romanceada e livro de ideias, Arthur sustenta-se em uma experiência clínica, mas também numa série de referências culturais, ocultas ou explícitas, que lhe acrescentam camadas adicionais de compreensão. Estas vão de alusões a uma psicanalista de crianças famosa como Maud Mannoni, a Freud, Proust, à filosofia sufi e ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Este, em especial, é citado por seu conto Funes el Memorioso, fantástico estudo ficcional sobre como uma memória prodigiosa pode significar entrave às ideias abstratas e, portanto, ao próprio pensamento.

Borgeana também é a torção ficcional do texto, no qual os diários da narradora e de Arthur são recolhidos por uma terceira personagem, Charlotte, e encaminhadas, já em 1941, para uma psicanalista famosa que assina sua carta de recebimento como F.D. Iniciais reconhecíveis para todos os que conhecem o mundo da psicanálise, designam Françoise Dolto, a extraordinária analista de crianças. Os diários de Marguerite e Arthur são, pois, palavras que atravessam o século e chegam a olhos e ouvidos capazes de compreendê-las. 

Esses relatos, essas palavras escritas, que passam de mão em mão até chegarem à sua leitora ideal lembram o dito de Lacan, baseado num conto de Edgar Allan Poe, sobre a carta extraviada que sempre acaba por chegar ao seu destinatário.

Nesse sentido, Arthur é uma comovente defesa da potência da palavra e do respeito pelo outro, sua maneira de ser, seu tempo, seu desejo. Chega, a contrapelo, num tempo de inflação de ilusórias soluções químicas para os sofrimentos da subjetividade. E de falta de empatia em relação a quem parece diferente de nós, detentores de uma não menos problemática “normalidade”.

Arthur, um Autista no Século XIX

Autora: Maria Cristina Kupfer

Editora: Escuta

268 páginas, R$ 69

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