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Psicanalistas advertem para consequências de cirurgias transexuais

Medicina oferece solução imediatista, mas a angústia que não se esgota na materialidade da carne

Amanda Mont'Alvão Veloso, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2018 | 16h00

Um corpo prensado entre a realidade biológica e a identificação com o gênero oposto. A agonia de "estar preso em um corpo errado" relatada pelos transexuais vem sendo respondida pela medicina com as cirurgias de adequação corporal, mas há aí uma angústia que não se esgota na materialidade da carne, advertem os psicanalistas Marco Antonio Coutinho Jorge e Natália Pereira Travassos no livro Transexualidade: O Corpo entre o Sujeito e a Ciência, lançado pela Editora Zahar. 

Patologizada como "transexualismo" e "disforia de gênero" pelas ciências médicas, a transexualidade tem uma abordagem distinta na psicanálise: não é o corpo que vai dizer se um sujeito é homem ou mulher, e não há aí hipótese de anormalidade. O cerne da publicação, fruto de três anos de pesquisa teórico-clínica feita no Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é interrogar a simplificação com que o tema vem sendo tratado na cultura e na medicina e abordar assuntos pouco bem-vindos, como a destransição, a homofobia e a plural sexualidade dos seres humanos. Pondera, sobretudo, sobre a atenção dada somente ao que cabe dentro da demanda por um novo corpo, em detrimento daquilo que escapa às expressões manifestas do sofrimento. 

Coutinho Jorge conhece o discurso médico, uma vez que também é psiquiatra. Além disso, Travassos realiza trabalho voluntário com um grupo de cidadania LGBT. Mais do que de um corpo, é preciso falar de pessoas, defendem os autores, além de retirar a discussão da dicotomia normal x patológico e inscrevê-la em um espaço de singularidade, onde cada sujeito possui percursos próprios. Os autores se reuniram para esta entrevista ao Aliás, onde comentam os buracos existentes nas narrativas direcionadas à vulnerável população transexual no Brasil. 

O que define a transexualidade?

Segundo a medicina, a transexualidade é entendida como o sentimento de incongruência entre o sexo e o gênero, levando um grande número de sujeitos que padecem desse sofrimento a demandar intervenções corporais, como hormonização e cirurgias, com o intuito de eliminar o mal-estar de “ter uma alma presa em um corpo que não é o seu”. O saber médico responde sem hesitar à questão “o que é ser homem?” e “o que é ser mulher?”. Para a psicanálise, “homem” e “mulher” são narrativas próprias de cada sujeito. Por isso diversos autores têm indagado se há transexualidade fora da medicina e seu aparato tecno-cirúrgico. 

Quais as implicações de a transexualidade ser frequentemente abordada pela dicotomia normal x patológico? 

A mais negativa delas é a normatização da sexualidade. A descoberta freudiana do inconsciente subverte as noções que apresentam fronteiras rígidas entre normal e patológico. Essa polarização promove respostas imediatas de adequação a padrões vigentes – culturais ou científicos –, que podem ter efeitos desastrosos. Veja-se a existência de casos de suicídio na população transexual, assim como o crescente número de casos de arrependimento e busca de destransição, isto é, pessoas que fizeram a transição de adequação sexual e depois se arrependeram, como é exposto no excelente documentário The regretters, de Marcus Lindeen. 

Como a transexualidade pode ser pensada pela ótica da cultura e como fenômeno social? Trata-se de uma inscrição sexual contemporânea?

A transexualidade, como definida pela ciência médica, não parece ser uma inscrição sexual contemporânea, mas a tentativa de higienização dos corpos e adequação do biológico sob a égide do gênero, constituindo um verdadeiro encarceramento. Contudo, a vivência da transexualidade não é igual para todos os transexuais; alguns, por exemplo, não querem fazer todas as adequações corporais. Sabemos que a circulação entre as insígnias masculinas e femininas é antiga, mas é preciso ver que a demanda de intervenção no corpo só ocorreu a partir dos desenvolvimentos técnico-científicos – manipulação de hormônios sintéticos e técnicas cirúrgicas. O corpo ganhou status de objeto de consumo e, se a medicina afirma que é possível subverter a ordem biológica para adequar o corpo à alma e apaziguar um mal-estar, por que não? O caso de Christine Jorgensen (caso princeps da transexualidade), veiculado pelos meios de comunicação da época (televisão, rádio, imprensa), teve enorme repercussão mundial e produziu considerável crescimento de pedidos de adequação sexual, em relatos surpreendentemente idênticos ao que Jorgensen proferiu nas mídias. Hoje, na era da informação imediata e global, a propagação pelas redes sociais é infinitamente maior e produz efeitos de contágio muito mais significativos. 

Qual o olhar da ciência sobre o corpo transexual e qual a importância da singularidade do sujeito frente às transformações físicas feitas pela medicina? 

A ciência, sem levar em conta certas impossibilidades, promete felicidade ao propor eliminar o desconforto entre o corpo e a alma. É uma oferta imediata e tentadora, mas ela não coloca interrogações necessárias; afinal, uma mudança feita no corpo nem sempre produzirá o resultado satisfatório. A psicanálise valoriza aquilo que a ciência descarta, ou seja, o sujeito e sua capacidade de elaboração dos conflitos com os quais se depara ao longo da vida; aposta no trabalho feito pela simbolização e não nas alterações no real do corpo. O corpo pode parecer muito natural, mas não é! Para a psicanálise, é construído e revestido pela linguagem. O grave é que a resposta dada pela ciência ao transexual implica em intervenções corporais, em sua maioria irreversíveis; isso significa que não é possível retornar ao estado anterior no caso de arrependimento de uma cirurgia de redesignação sexual, por exemplo, ou de uma mamoplastia masculinizadora. A psicanálise trabalha pela via do simbólico, ou seja, não se faz necessário marcar na carne. A linguagem permite que o sujeito circule entre diferentes elementos, se fazendo homem e mulher através de uma narrativa singular e variável. É mesmo necessário que se tenha um corpo de uma mulher para comportar feminilidade ou um corpo de homem para comportar masculinidade? Um corpo não faz de ninguém “homem” ou “mulher”.

Quais as repercussões possíveis após uma cirurgia de mudança de sexo e por que estas intervenções devem ser ponderadas? 

O número crescente de casos de destransição, que fomos descobrindo e mencionamos no livro, revela os impasses inerentes a essa ênfase posta na mudança anatômica. São descritos também casos de depressão profunda e suicídio. Nem sempre a intervenção no corpo será uma saída satisfatória para apaziguar o conflito vivido pelas pessoas transexuais; além disso, ter um novo corpo é também ter uma nova imagem, o que pode demandar apropriação pela linguagem. Os cuidados exigidos no período pós-operatório também são pouco abordados. O uso contínuo de uma órtese vaginal implica em dores intensas, por exemplo. Enfim, o sujeito pode se deparar com uma insatisfação ainda maior do que o seu estado anterior às cirurgias e retornar ao estado anterior torna-se impossível, pois são operações irreversíveis!

O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTs no mundo. O que esta violência direcionada diz de nossa sociedade? 

Essa violência retrata o grau de repressão sexual que vivemos; ela é diretamente proporcional ao nível do recalque da sexualidade presente nos indivíduos dessa sociedade. Aliás, outro aspecto relevante que constatamos, tanto na clínica quanto na cultura, foi a forte aliança entre a homofobia reinante e a transexualidade. Durante a pesquisa encontramos alguns estudos que iam na mesma direção das observações que fizemos. A presença cada vez maior das homossexualidades na cultura contemporânea (despatologizacão, paradas LGBTI+ anuais, crescimento acentuado de manifestações explícitas bissexuais na adolescência, conquistas de direitos sociais, reconhecimento jurídico do casamento homoafetivo, vencendo a poderosa barreira ideológica de que o casamento é apenas entre homem e mulher, etc) não deixou de produzir uma forte reação da parcela ultra-conservadora da sociedade. Assim, a homofobia cresceu em paralelo a essa visibilidade das homossexualidades. É preciso entender que as homossexualidades são altamente subversivas em relação aos ideais ultra-conservadores da sociedade na medida em que elas são a presentificação em ato da falta de complementaridade “natural” entre os sexos masculino e feminino para o ser humano. Assim, fica muito evidente que esse apoio dado nas últimas décadas pela ciência e pela cultura à transexualização pode estar a serviço, em muitos casos, de uma homofobia da sociedade assim como da homofobia internalizada dos próprios homossexuais, que se revela na maioria das análises. Não à toa, hoje no Irã os homens homossexuais têm sido conduzidos compulsoriamente ao processo transexualizador. 

Quais as particularidades da transexualidade em crianças e adolescentes? Que ponderações vocês julgam fundamentais?

Esse foi o aspecto mais motivador de nossa pesquisa, o aumento impressionante de casos da chamada disforia de gênero em crianças e adolescentes. A avaliação desses casos precisa ser feita com uma prudência redobrada e sempre com a participação de psicanalistas, pois as identificações de gênero nessa fase da vida são lábeis e nada conclusivas. Além disso, a fantasia da criança exercita de modo salutar essas identificações e, portanto, qualquer proposta de intervenção corporal deve ser colocada em suspenso. A prescrição de bloqueadores hormonais (indicado para casos de puberdade precoce) em alguns pré-púberes organicamente saudáveis com disforia de gênero, por exemplo, pode causar graves danos como a esterilização. Alguns médicos tentam explicar a transexualidade na criança através de exames de imagem cerebral, mas tal hipótese foi contestada por estudos sérios realizados pelo Johns Hopkins Hospital.

Que estratégias o País pode tomar de forma a reduzir a vulnerabilidade desta população?

Garantir treinamento contínuo e formação permanente dos profissionais de saúde sobre as especificidades da saúde transexual, promover políticas públicas de acesso à saúde, educação e mercado de trabalho que visem a inclusão da população LGBTI+, incentivar espaços de discussão e escuta sobre a diversidade sexual. Não basta haver um protocolo de acesso ao processo transexualizador, é importante que se faça com qualidade.

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