Lote 42
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Quadrinistas investem em narrativas silenciosas sem palavras

Brasileiro Rafael Sica e uruguaio Gervasio Troche usam referências como Jean-Jacques Sempé e Edward Hopper em suas ilustrações

Matheus Lopes Quirino*, Especial para o Estado

29 de fevereiro de 2020 | 16h00

Um silêncio ensurdecedor toma o espectador do lugar em que está. Ao virar a página, ele cai em uma outra tela, um mundo detalhadamente novo. E é assim, com essa sensação de ser deslocado rapidamente a mundos diferentes, que esse leitor/espectador, só, trafega por lugares longínquos, idílicos, ou simplesmente inabitáveis. A exceção da única personagem que aparece em todas as cenas: uma figura miúda, de máscara, que parece se refugiar pelas páginas deste livro tão triste quanto belo.

Depois de se aventurar por uma série de fachadas e objetos minimalistas no livro sanfonado, homônimo (Fachadas), o pelotense Rafael Sica seguiu criando narrativas silenciosas, mas que têm muito a dizer. Lançado recentemente, Triste foi um trabalho bem recebido dentro do mercado gráfico alternativo. “As imagens de Rafael Sica mostram o viver das pessoas nestes bicudos tempos, em que desaprendemos a olhar os outros, compartilhar afetos, sentimentos”, escreve o médico Paulo Saldiva no epílogo do livro.

“Eu quis criar um desconforto a partir da personagem, ela está ali, cabisbaixa, ignorando todo um contexto, tantos detalhes do cotidiano que fazem a diferença na vida das pessoas”, conta Rafael Sica ao Aliás. O quadrinista, por meio da contraposição da pequenina figura triste com todo um universo rico em pormenores, procura questionar o olhar do homem contemporâneo perdido num turbilhão de informações. 

Sica, que não possui redes sociais, acredita que, na contramão das redes, a conexão exacerbada afasta, ao invés de aproximar. “Mas fiquei tentado em colocar um smartphone em algumas das telas,”, admite.

Ele passa a maior parte do tempo desenhando. “Dá muito trabalho, são muitos detalhes, leva algum tempo para, primeiro, se esboçar algo parecido com o que vai ser definitivo...”, Rafael Sica garante que não é um homem solitário. “Uso muito da solidão para criar, já fui, sim, muito mais recluso no passado, mas hoje mantenho bom convívio com meus pares, a personagem não é uma representação do autor”, diz rindo. E ele ressalta a importância de observar quem o cerca. 

Um cronista da imagem, Sica ficou um ano trabalhando em Triste. “Eu tive tempo de errar, fui fazendo o livro entre outras coisas, os desenhos surgiam naturalmente. O processo de criação foi um laboratório, sim; voltar atrás, refazer um traço, pensar mais um pouco; o tempo ajudou, e eu gosto de ficar desenhando; nessas sessões, divagava e acabava dando esses tantos detalhes nas paisagens”. De fato, o livro comunica essa clara dissonância entre cena e personagem, bem como uma alegoria sobre isolamento social, insatisfação com a vida e individualismo. 

A solidão afeta os artistas e deixa marcas claras em seus trabalhos. E, mesmo antes da descoberta do fogo, foi ela a primeira companheira do homem, tendo este sentimento um papel fundamental nos processos de quem criava para comunicar. No mundo das artes, a solidão se tornou um tema cada vez mais frequente. 

Em outros tempos, ela era considerada também uma maldição que impunha aos pintores trabalhos intermitentes de sofrimento; exemplos célebres são figuras como o pintor holandês Van Gogh, que, por meio de autorretratos, entre outros temas característicos de suas pinturas, expôs tão bem a angústia de um homem atormentado por demônios internos, que nada mais eram que a solidão se cadenciando para picos depressivos, regados a álcool, entre outros problemas. Ou também o norte-americano Edward Hopper, famoso por suas pinturas urbanas que retratam espaços vazios nas metrópoles americanas. 

Hoje, com a evolução tecnológica e novas formas de exposição artísticas, gráficas, visuais ou escritas, a solidão pode ser explorada para além das palavras, da alta literatura. Os artistas lutam com as armas que possuem e, nesta batalha íntima, expõem seus conflitos a leitores e seguidores, muitas vezes grupos pequenos em redes sociais e outros canais. 

Para além dos cânones, hoje, a questão do silêncio ganha diferentes abordagens, problematizando não só a questão da melancolia, mas também tratando de histórias fantásticas, como nos quadrinhos Monstros! e Có! & Birds, ambos de Gustavo Duarte (ganhador oito vezes do prêmio HQ-Mix), que trabalha guiado por um fio condutor da estética da aventura, aos reflexivos e surrealistas quadrinhos do uruguaio Gervasio Troche, como Bagagem e Desenhos Invisíveis

“Acredito que o desenho, para mim, seja o meio mais sincero de expor minhas ideias”, diz o desenhista. “Não me preocupo tanto em lançar rapidamente livros, tenho meu próprio tempo”, conta Troche ao Aliás. Ele, que publica em jornais de seu país e também no Brasil, mantém o blog Portroche, onde está boa parte de sua obra. Desde menino era aficionado do desenho. “Tive influências muito boas nesse campo gráfico, de Le Petit Nicolas, de Jean-Jacques Sempé, a Saul Steinberg e Quino, me inspirando nesses grandes desenhistas”. 

De veteranos como Sempé, cartunista da revista The New Yorker, à ítalo-brasileira Eva Furnari, autora do clássico infantil A Bruxinha Atrapalhada, hoje grandes talentos como eles não dependem exclusivamente de grandes editoras. Ganhando notabilidade por meio de trabalhos publicados em plataformas digitais e impressas em tiragens menores, com maior cuidado na apresentação e edição, estão Troche e a brasileira Tai Cossich (A Espetacular Clínica da Monga apresenta: Caso Original), além do próprio Sica, cuja capa de Triste é impressa de forma artesanal em serigrafia. 

Sem uma palavra para guiar o leitor, a apreciação de cada tela criada por Sica resgata um hábito que, aos poucos, vai sendo esquecido: observar atentamente. Alguns detalhes não devem passar despercebidos; embora o livro sustente o mesmo personagem em todas as cenas, a solidão pode se encontrar em cantos inesperados, como em selvas, até mesmo em cidades. “A personagem, em meio a tantas trivialidades do cotidiano, não é necessariamente ele ou ela, quem pega o livro tem isso aberto”, ressalta o autor. 

A personagem está parada no vale da solidão, na página seguinte, em um iceberg, na periferia de uma grande cidade, em uma plantação agrícola, oca, em uma linha férrea, usina, no próprio universo, no mundo da imaginação. No livro nada está fresco e tudo desmorona nas paisagens – como se, há anos, os lugares estivessem inabitáveis. Embora a riqueza de detalhes seja esteticamente muito bem trabalhada, esta personagem principal, aparentemente simples, torna-se ponto de fuga. 

Todas as cenas do livro pertencem a um mundo analógico, por vezes onírico. A nenhum momento a personagem está em um shopping, cinema, ou qualquer local que mascare a solidão. Ela é a própria encarnação do isolamento. 

Rafael Sica escolhe lugares sem pessoas como se, propositalmente, a provocação precise ficar exp0licitamente clara. Sica acaba isolando o personagem do mundo real. À exceção da companhia de alguns cães, gatos e pombos, o protagonista que vegeta concentra todo esse sentimento, sem precisar enfrentar grandes multidões, cada vez mais tristes em seus smartphones.

TRISTE

AUTOR: RAFAEL SICA

EDITORA: LOTE 42

64 PÁGS., R$ 65

*MATHEUS LOPES QUIRINO É EDITOR DO SITE FRENTE & VERSOS

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