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Qualquer cor, desde que seja o preto

Num ambiente em que discrição faz bem à sobrevivência política, os altos líderes chineses aprenderam a não se destacar pelo traje

NELS FRYE - EDITOR CHEFE DE LIFESTYLE, REVISTA BILÍNGUE EM CHINÊS E INGLÊS; ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h08

Muitas coisas mudaram na China nos últimos dez anos - dos dezenas de milhões de antigos camponeses que agora são membros da classe média às butiques Prada, Hermès e Gucci que atualmente invadem os shopping centers de Pequim e Xangai. O que não mudou é o modo de vestir dos altos líderes do país: o terno escuro de dois botões, camisa branca de colarinho largo e gravatas imemoriais com nó clássico windsor continuam obrigatórios. E, quase sem exceção, eles ainda pintam o cabelo de preto absoluto a fim de esconder a idade, enquanto os ternos largos ocultam diferenças de físico. Numa época de transição, o Partido Comunista Chinês está absolutamente determinado a mostrar unidade, continuidade e compromisso com a estabilidade, o que tornaria inoportunas eventuais aventuras em matéria de trajes formais.

Na verdade, hoje os líderes chineses estão ainda menos preocupados com a moda. O único item com personalidade do look-dirigente-chinês, o único que aproximava os pesos-pesados governistas dos "avançados" de Williamsburg, no Brooklyn, do polo de tecnologia de Shoreditch, em Londres, ou do distrito de vanguarda artístico de Pequim perdeu força. Trata-se dos largos óculos quadrados de nerd, uma reminiscência de Henry Kissinger, hoje obrigatórios para os que se consideram originais. São o que define Wu Bangguo, desde 2002 o segundo homem do Comitê Permanente do Politburo, o organismo responsável pelas decisões mais importantes da China. Ele está deixando o cargo e levará consigo os óculos com armação até a linha das sobrancelhas. Antes dele, o ex-primeiro-ministro Li Peng, o líder mais associado ao massacre da Praça Tiananmen, usava óculos quase idênticos, que se misturavam curiosamente com suas sobrancelhas hirsutas. Ainda nessa linha, mais memoráveis ainda são os enormes óculos de aro de tartaruga do jovial ex-presidente Jiang Zemin. Hoje, os chineses consideram esses óculos pesados mais característicos de idosos, ou, quando muito, de pessoas com ar professoral e sério - mas certamente não retrô chic. É uma pena. As armações exageradas eram o que impedia os líderes chineses de passarem despercebidos.

Os óculos do presidente que está deixando o cargo, Hu Jintao, são grandes, embora com uma armação leve de metal mais sutil. Alguns dos homens que chegaram ao Comitê Permanente com a saída de Hu e da maioria dos seus colegas, no dia 14 de novembro, usam armações menores, contemporâneas, muito discretas, mas é provável que muitos deles tenham se submetido a uma cirurgia a laser, tenham uma excelente visão ou usem lentes de contato. Entretanto, a ausência de óculos nerd, ou mesmo de alguns modelos mais modernos, marca os atuais líderes como homens contemporâneos e não como remanescentes de uma geração anterior. Por outro lado, empresta aos novos imperadores a camuflagem mais sem graça possível: nove (ou sete) homens quase idênticos de terno.

Os principais líderes da China estão usando ternos ocidentais e não mais o uniforme típico da era Mao, o sun yat-sen, como é conhecido na China (é o nome do fundador da república chinesa, Sun Yat-sen), desde que Hu Yaobang, o homem mais importante do Partido Comunista de 1981 até 1987, começou a usar. Hu, o líder mais reformador da China, tentou introduzir responsabilização e transparência no governo, exigindo que os chineses da etnia han do Tibete aprendessem tibetano e até mesmo apoiando o emprego de garfos no lugar de pauzinhos. Portanto, não surpreende que tenha sido o primeiro líder chinês importante a optar por terno e gravata. Seu liberalismo fez com que fosse expulso, mas a preferência por roupas ocidentais permaneceu. Com o passar das décadas de 1980 e 90, as fotografias deixaram gradativamente de mostrar líderes envergando o uniforme sun yat-sen. Hu Jintao só o usava nas paradas militares, e é improvável que o novo presidente, Xi Jinping, seja favorável à moda, talvez por associá-la aos sofrimentos que ele e seus colegas experimentaram durante a Revolução Cultural.

A preferência pelos trajes ocidentais se coaduna com a abertura econômica que levou a uma enorme expansão na China. Ela representa a mão estendida em direção ao Ocidente, o interesse pela modernização, o "aberto para os negócios", a indicação de que a China está ansiosa por ascender ao topo aceitando grande parte da ordem mundial predominante. É uma mensagem diferente daquela dos líderes de países como Índia, Irã, Arábia Saudita e Nigéria, que ocasionalmente preferem roupas não ocidentais. "Usar um traje de estilo Mao Tsé-tung lembra explicitamente aos estrangeiros que estão diante de funcionários do Partido Comunista", segundo uma estilista de Pequim, que pediu para não ser identificada porque não é aconselhável falar dos líderes. "Além disso", acrescentou, "no fim de uma refeição você pode desabotoar um paletó ocidental, enquanto os ternos Mao são sempre abotoados até em cima" (e os líderes atuais, observa ela, são um pouco mais "cheios" que os predecessores).

Alguns chineses veem nos trajes ocidentais de seus líderes o reflexo de uma falta de estilo e de uma voz que distinga a China no cenário mundial. Um vendedor de loja que pediu para não ser identificado disse que gostaria de que os líderes se vestissem à moda chinesa, mas, "infelizmente, eles precisam parecer modernos, e não há uma forma chinesa moderna de se vestir, nem mesmo etiqueta para seguir". Um morador de Pequim, gerente de uma empresa que reforma imóveis de luxo, muitos para funcionários do governo, observa que a China moderna não tem personalidade própria. "Ela só pode absorvê-la dos outros, mas isso também permite que nos tornemos mais capazes de sobreviver e prosperar."

Os trajes casuais dos membros do alto escalão também não são marcantes. Quando os líderes precisam aparecer juntos em público, uma camisa branca social de manga curta enfiada na calça funciona como uniforme de verão. No inverno, predomina um casaco acolchoado azul-marinho, embora os líderes usem sobretudos de lã quando posam para fotos oficiais, principalmente na pista do aeroporto de algum país estrangeiro. No outono e no inverno, usam uma jaqueta escura até a cintura, feita de algum material sintético comum. Essa jaqueta se destaca mais por aquilo que não é - blazer, jaqueta de couro, vestimenta tradicional chinesa - do que por associação com alguma tradição cultural que ela possa ter. Considerando seu material barato, corte padrão e cor inexpressiva, geralmente entre cinza e preto, o traje parece dizer que seu usuário é só "qualquer um".

Bo, o pitoresco. Esses uniformes todos são as opções mais seguras. Falta de personalidade é exatamente o que os líderes do Partido Comunista procuram. Ultimamente, líderes autocráticos de outros países que se vestiam de maneira chamativa não tiveram fins muito agradáveis. Exemplo é o ditador iraquiano Saddam Hussein, um exibicionista que gostava de ternos risca de giz feitos sob medida, de preferência acompanhados por lenços de seda em cores berrantes no bolsinho do paletó; outro é o finado homem forte da Líbia Muamar Kadafi, famoso pelas camisas com estampas de motivos africanos. O ex-presidente egípcio Hosni Mubarak, embora homem de gosto mais apurado, tinha como marca os ternos risca de giz feitos sob medida - mensagem que o público deve ter entendido como "eu meto a mão nos recursos públicos". Bo Xilai, secretário caído em desgraça da seção de Chongqing do Partido Comunista, a personalidade mais pitoresca da elite do partido desde Mao, usava ternos de corte impecável, de três botões, e gostava de um nó largo da gravata que às vezes até afofava. Esses detalhes no trajar não caracterizavam extravagância, mas colaboravam para que Bo, com seu carisma, físico imponente e rosto expressivo se destacasse entre a monotonia visual de seu colegas. Movendo-se como um financista de Wall Street em meio a desleixados gerentes do centro-oeste americano, Bo era realmente cativante, segundo uma consultora de Nova York que frequentemente o encontrava.

Qualquer que tenha sido a combinação de fatores que provocou a queda de Bo, sua boa aparência não deve ter ajudado. Ela foi um dos elementos que o tornavam atraente para as massas - o que por outro lado enfatizaria uma possível faceta demagógica. O povo, entretanto, não gosta da obscuridade de outras figuras do alto escalão. Vários jovens chineses me disseram que seus líderes se vestem mal, ou mesmo de uma maneira que "embaraça" a China. Considerando-se a inexpressiva - se não desleixada - natureza dos trajes, essas reações parecem estar mais relacionadas à inacessibilidade dos líderes do que a uma real preocupação pela sua maneira de trajar.

Mas, ironicamente, quando alguém ligado ao governo se veste de modo diferente, a reação -pela internet, pelo menos - em geral é de escândalo. Li Xaolin, filha de Li Peng (o dos óculos nerd), uma das empresárias mais bem-sucedidas da China e delegada ao Parlamento, foi criticada por sua coleção de Chanel, Hermès e outras caras grifes estrangeiras. O estardalhaço por causa da coleção de relógios de Yang Dacai, funcionário do Ministério dos Transportes de Shaanxi, também levou à proibição não oficial de relógios caros para todos os funcionários do governo, eliminando assim uma das poucas possibilidades de um funcionário público expressar algum grau de individualidade. "Membros do governo são os principais VIPs em todas as lojas na China", diz a estilista de Pequim. Esse poder aquisitivo, no entanto, precisa ser "terceirizado" em benefício dos membros da família. Por exemplo, a influência do premiê Wen Jintao proporcionou riqueza para sua esposa e seus parentes, mas não para ele próprio. Essa é talvez a principal razão de os funcionários não poderem exibir trajes pessoais distintos: tais trajes reavivariam imediatamente a incômoda lembrança de que as famílias dos funcionários em geral são muito mais ricas do que os seus baixos salários normais podem permitir.

Talvez não sobrem mesmo boas opções em matéria de estilo para funcionários do governo. Considerando sua frágil relação com os governados, e a competição acirrada com os colegas para alcançar cargos mais elevados - uma corrida na qual o sucesso só será possível se eles evitarem as controvérsias e obtiverem consenso -, o atual manto da invisibilidade talvez seja sua melhor escolha. Se as gravatas Hermès ou os ternos Armani provavelmente favorecem as acusações de corrupção, os ternos Mao parecem um perigoso retrocesso. No final, o melhor mesmo é evitar destacar-se. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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