'Quando comprar vira rotina, temos que nos questionar: é a única forma de ter prazer?'

Carta aberta aos consumidores - Tatiana Filomensky, PSICÓLOGA COORD. DO GRUPO DE COMPRADORES COMPULSIVOS DO AMB. DOS TRANSTORNOS DO IMPULSO DO INST. DE PSIQ. DO HC-SP

O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 23h37

Dados do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Mercado divulgados na última terça-feira mostram que o paulistano vai ao shopping toda semana. Além disso, compra mais do que o planejado. O resultado é previsível: o consumo está enraizado na nossa cultura. Com bases nessas informações, vale pensar sobre o papel do consumo nos dias atuais. Claro que comprar é um ato prazeroso, mas não podemos nos esquecer que consumir em excesso é doença. Hoje, os shoppings assumiram um papel que vai além do comércio, agregam alimentação, lazer e diversos serviços oferecidos - como pet shop, banco, academia. O conforto, aliado à segurança, torna o local muito mais atrativo. Na contramão, as pessoas abandonam as ruas e ficam apenas em lugares fechados, sem contato com o resto da cidade. Temos também facilidades de crédito oferecidas para a população, verdadeiras armadilhas para compradores. Promovem crédito numa sociedade que não tem educação financeira. Numa vitrine, por exemplo, vemos apenas o valor da parcela do produto; raramente o preço final é exposto em números legíveis. Assim, quando o consumidor faz a compra, ele antecipa um prazer ao adquirir o produto e adia o "desprazer" (que seria o pagamento). A partir do momento em que o ato da compra vira rotina, independentemente do que se está comprando, chegando-se a adquirir quantidades exageradas e até itens desnecessários, temos que nos questionar: é a única forma de ter prazer? Realmente preciso disso? O consumo compulsivo é como uma dependência química, traz prejuízos emocionais, familiares, financeiros e profissionais, transformando-se numa dependência comportamental. Nas datas comemorativas percebemos como qualquer momento é pretexto para troca de presentes. É a era do megacomércio, na qual a surpresa de ser presenteado foi deixada de lado. Temos de ter um olhar crítico para entender que a representação material nem sempre é sinônimo de felicidade ou a única maneira de demonstrar sentimentos por alguém.

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