Quando dividir fortalece

Redes digitais subvertem a lógica da concentração de poder e são mais poderosas quanto mais compartilhado fica seu uso

Gilson Schwartz, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2009 | 00h09

A melhor definição para o efeito da internet nos costumes políticos é a que celebra a emergência da liderança distribuída. As redes, já se sabe, são mais poderosas quanto mais distribuído, espalhado e compartilhado o seu uso. No Brasil, essa noção é confirmada pelo avesso: no país da concentração de renda e poder, a internet está sempre aquém do potencial.

Um dos maiores desafios da política contemporânea é traduzir a ideia de distribuição de informação e poder, que vem do modelo de computação distribuída, para um universo onde a concentração de poder, a assimetria de informação e a dissimulação tornaram-se sinônimos de sucesso. Ao menos em tese, internet e política são irreconciliáveis. Todo líder político existe para ser consagrado num altar, virar ícone, o culto à personalidade parece um desaguadouro natural e inevitável da vida pública. Na China, nos EUA ou no Brasil, a política está mais para folhetim do que para manifesto.

A internet veio subverter essa lógica nos mercados, na cultura e na vida pessoal. Antes da internet, por exemplo, a produção e a distribuição de bens e serviços tendia à concentração. As redes digitais abrem possibilidades de quebrar esse modelo. Em vez de artistas "consagrados" pelos esquemas de grandes gravadoras e estúdios, multiplicaram-se os espaços para a produção e consumo de artistas independentes e desconhecidos do "grande público". A própria noção de um "grande público" reduzido a massa facilmente manipulável pelo marketing das grandes empresas entra em declínio.

No lugar do culto às estrelas, impõem-se o culto ao amador, o indivíduo quase anônimo que se faz pop efêmero, mas efetivo, usando recursos do YouTube, do Orkut, do Twitter e mesmo do singelo e-mail. Se os donos do poder e das leis deixarem, claro.

No Brasil, esses midiocratas têm feito de tudo para controlar a voz do povo. Em 2010, aparentemente está tudo liberado. Mas preservaram o direito de resposta, regras para debates, querem legislar na internet como se fosse uma televisão em miniatura. Como a rede é dispersa e pulverizada, esse resquício de controle moral sobre a opinião pública pode virar um monumental labirinto kafkiano.

Eduardo Azeredo (PSDB-MG), destaca-se como um obcecado pelo controle da opinião alheia (ele é disparado o mais anacrônico "legislador" da opinião digital). O TSE dá sua contribuição, criando mais regras sem meios para que elas sejam cumpridas em tempo hábil. Como sempre no Brasil, ninguém sabe se o controle vai "pegar". Na dúvida, o senador se faz de vestal e o TSE finge que controla os costumes políticos nacionais.

A campanha de Obama tornou-se a referência global para a nova arquitetura da informação política. Se na web 2.0 o mantra é "conteúdo criado pelo usuário", na campanha de 2008 o mote converteu-se em "conteúdo gerado por eleitores". Mas nem tudo é tecnologia nesse novo mundo.

Um dos principais organizadores do obamismo digital, Marshall Ganz, militou por décadas em movimentos comunitários locais, depois de abandonar os estudos no último ano da faculdade. Voltou a Harvard 26 anos depois, terminou o curso, fez doutorado e hoje dá aulas de política. Foi dele a coordenação dos "Camps Obama", encontros de três dias que mobilizaram nada menos que 23 mil militantes, de baixo para cima (uma entrevista com Ganz está no site http://techpresident.com/node/6545). Uma análise detalhada da campanha obamista, feita por Colin Delany no blog epolitics, está disponível para os interessados (http://www.epolitics.com/learning-from-obama.pdf). Foram várias ferramentas: vídeo online, redes sociais, propaganda pura e simples. A vedete foi o portal com "ferramentas para ativistas" (MyBarackObama.com). Aliás, nem tudo é voluntariado e doação - Barack Obama gastou US$ 7,5 milhões para integrar as várias plataformas do Google na campanha afinal vitoriosa.

Nem tudo é sucesso e virtude no cruzamento entre internet e política. Na França, os políticos movem uma espécie de cruzada anti-internet frente à disseminação de vídeos comprometedores mostrando Sarkozy e ministros em situações embaraçosas.

A rede pode ajudar a democratizar a vida política, mas, como acontece com quase tudo na internet, é o caminho para um novo ceticismo frente aos profissionais do poder e para a dessacralização dos legítimos representantes do povo. A esfera pública ganha em complexidade, mas também fica mais fragmentada e muitas vezes torna mais populares os flagrantes da intimidade ou os atos falhos, não produzindo necessariamente mais consciência cívica ou mobilização popular.

Outra dimensão ambígua da politização da internet é o novo papel assumido por empresas privadas com desenvoltura e domínio crescente da opinião pública, como o Google. Recentemente, os ataques ao Google partem tanto de concorrentes (jornais reagem contra a reprodução desautorizada de conteúdo) quanto de políticos e governantes (o governo francês acaba de anunciar uma ofensiva para financiar a digitalização do patrimônio cultural nacional antes que a herança simbólica vire mais um ativo apropriado ou dependente de empresas como o Google).

Na prática, construir ícones políticos depende menos de regras inócuas e cada vez mais da competência para gerenciar múltiplas mídias em que será mais ouvido o líder que estiver mais preparado para ouvir o que dizem todos os demais. Ganha a parada não quem fala mais alto, mas quem está mais preparado e disposto a conversar.

Gilson Schwartz, Professor de economia da Escola de Comunicações e Artes da USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.