Quando Fidel partir

Nem todo cubano, mesmo os que odeiam o Velho, quer mudanças

ANTHONY DEPALMA É JORNALISTA, ESCRITOR AMERICANO. AUTOR DE O HOMEM QUE INVENTOU FIDEL (COMPANHIA DAS LETRAS), O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h09

ANTHONY DEPALMA

A morte assombra Havana. Por uma estranha ironia do destino, tanto Fidel Castro quanto sua cria ideológica, Hugo Chávez, parecem estar enfrentando o fim, um não muito longe do outro, cercados pelo mistério e pela incerteza em torno de quem governa de fato Cuba e a Venezuela, e do que acontecerá uma vez que esses fogosos comandantes finalmente se forem.

Este mês, Chávez deveria ter tomado posse para um terceiro mandato de seis anos. Mas enquanto ele luta pela vida em um hospital cubano depois de uma cirurgia para tratar de um câncer, seus partidários puxam os cordéis em Caracas numa paródia do óbvio, deixando o país numa espécie de limbo governamental, dada a impossibilidade de Chávez de governar. Até mesmo algo tão lógico, e legal, quanto à substituição temporária de Chávez pelo segundo no comando conforme determina a Constituição (o presidente da Assembleia, membro do alto escalão do partido de Chávez) está sendo rejeitado e definido como o equivalente a um golpe de Estado.

A própria morte de Fidel foi antecipada durante tanto tempo, e preparada em todos os detalhes, que ele poderia já estar morto. Pelo menos seu ser físico. Seu irmão mais novo, Raúl, está no cargo desde 2008, mas o legado de Fidel permanece como uma enorme nuvem negra sobre o país.

Raúl já está sendo assombrado por ambos os fantasmas. Ele precisa fazer um delicado jogo com o povo cubano, oferecendo as reformas que este exige para melhorar a vida que se tornou extremamente difícil e desencorajadora, mas permitindo apenas as mudanças que servem para preservar o legado do irmão - a única reivindicação de Raúl ao poder.

Ao mesmo tempo, deve tentar administrar a ausência de Chávez de forma a não interromper o fornecimento dos 100 mil barris diários de petróleo que a Venezuela manda para Cuba a um custo praticamente irrisório. Se a Venezuela fechar a torneira depois da morte de Chávez, ou forçar Raúl a pagar o preço de mercado pelo produto, toda a economia cubana entrará em colapso.

Raúl se preparou para a possibilidade de uma virada total na Venezuela aprovando uma série de "reformas" a fim de promover o apoio popular, abrandando o controle central da economia. A mudança mais recente foi a revogação da onerosa exigência, para a maioria dos cubanos, ao solicitar a permissão para deixar o país. Os cubanos que saíram sem ter os papéis exigidos perderam suas propriedades que tinham sido confiscadas e foram punidos ao regressar. Com a mudança da legislação, os cubanos só precisam de um passaporte válido e do visto exigido pelo país que pretendem visitar.

Como descobriram muitos cidadãos que faziam fila em frente à repartição do governo, na semana passada, para preparar a documentação, para obter um passaporte terão de pagar o equivalente em pesos cubanos a mais de US$ 100, quantia que a maioria das pessoas que ganham US$ 19 ao mês não poderá pagar, a não ser que tenha parentes generosos vivendo fora de Cuba que lhes enviem dinheiro. Esses mesmos parentes se tornaram a principal fonte de divisas que mantém a economia cubana funcionando.

Ainda não foi testada a disposição do governo de permitir que os dissidentes, como Guillermo Farinas e a blogueira Yoani Sánchez, deixem o país ou, quando partirem, que voltem. No Twitter, Yoani escreveu: "O funcionário encarregado me garantiu que, quando eu conseguisse o passaporte, poderia viajar. Vou acreditar quando estiver no avião".

Cada uma das supostas reformas de Raúl conserva algumas cicatrizes que Fidel infligiu à sociedade cubana há muito tempo. Os cubanos agora podem comprar e vender imóveis residenciais, desde que tenham o dinheiro, que a maioria não possui. Podem entrar nos hotéis para turistas, como qualquer visitante europeu, mas poucos podem pagar a diária de um quarto. Alguns analistas acreditam que Raúl está conduzindo Cuba na direção da China, abrindo espaço para o capitalismo, embora mantendo a esfera política sob rigoroso controle. Mas suas reformas econômicas provavelmente não criarão bilionários, como na China. Os cubanos receberam autorização para abrir pequenas empresas, para, por exemplo, reformar colchões, podar palmeiras ou pintar retratos.

Embora formalmente Fidel tenha transferido o poder a Raúl em 2008, sua persistente presença em Cuba só não deixa perceber abertamente quão decepcionados ficarão os que esperam por uma drástica transformação quando ele partir de verdade. Fidel, de 86 anos, retirou-se da vida pública, mas o Fidel ideológico está bem vivo. Em Cuba vi cartazes proclamando "Fidel es un país". Esse país continua não tolerando direitos básicos como a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa; é um lugar onde a economia é controlada pelo Estado, para melhor ou para pior, onde a iniciativa privada é frustrada e o objetivo dos mais talentosos muitas vezes é ir embora.

Carlos Alberto Montaner, um refugiado cubano que mora na Espanha, contou que o túmulo de Fidel já foi construído em Santiago, não muito longe de onde a revolução começou e onde José Martí e outros heróis do passado de Cuba agora repousam. Indubitavelmente, no dia em que o governo anunciar sua morte (e não haverá razão para ocultá-la) ocorrerão manifestações de profundo pesar (como na Coreia do Norte quando o Grande Líder morreu) e seu carro fúnebre fará em sentido inverso a famosa jornada de Fidel de Santiago a Havana, em 1959, para assumir o controle do governo.

Mas chegou o momento de o resto do mundo compreender que, quando o corpo de Fidel finalmente for sepultado no cemitério de Santa Efigenia, muito provavelmente não haverá nenhuma mudança radical no governo de Cuba. Raúl ainda não deixou claro como a ilha deverá ser governada.

Toda uma geração de cubanos ainda enaltece Fidel como herói. E haverá muitos outros que, mesmo que não ousem pronunciar seu nome e só se refiram a ele como o velho que arruinou seus sonhos e desconcertou suas vidas, devem tanto ao atual sistema que não pensam em abrir mão dele.

Todo cubano que se mudou para a casa de um exilado, ou ficou com o que restou de uma empresa expropriada, tem todo o interesse em que as coisas continuem como estão. Como descobri quando visitei a casa de Havana onde minha esposa viveu antes de partir para os EUA, essas mesmas pessoas - ainda que odeiem os irmãos Castro - não querem nenhuma mudança que permita aos refugiados regressar para reclamar sua propriedade.

Portanto, está na hora de encarar a realidade sobre Cuba. Não sou fã do regime dos Castro, mas acho bobagem aguardar uma mudança que não vem. Espero que as "reformas" de Raúl tornem a vida menos miserável para o povo cubano. Não sei se na questão das viagens elas levarão a um nova Mariel, com milhares de pessoas partindo rumo à Flórida. Mas acredito que as mudanças ajudarão a reunir famílias que foram destroçadas pela geopolítica e pela imagem duradoura de um homem que é como se estivesse morto. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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