Quando o pior já tiver passado, salvemos o Haiti

O país ainda será paupérrimo, sua gente, inculta, e seu futuro, trágico

Leonardo Padura, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2010 | 01h14

O Haiti foi o primeiro país independente da América Latina. A colônia francesa de Saint-Domingue, que ocupava a metade ocidental da Ilha La Española, viu nos anos finais do século 18 arderem os cafezais e plantações de cana-de-açúcar que tanta riqueza haviam dado à metrópole europeia. O fogo foi ateado pelos negros escravos, trazidos da África ou nascidos na colônia, que tiveram a ousadia de pensar o sonho iluminista de que a liberdade, a igualdade e a fraternidade dos homens também concernia a eles, os mais explorados e desiguais.

O repto lançado ao mundo e à história pelos negros e ex-escravos haitianos ao que parece foi audacioso demais e logo se reverteria numa maldição secular. Desde então, o Haiti seria território de invasões e ocupações, de ditaduras e violência, de miséria, dor, ignorância, medo e fanatismo.

Derrotados os sonhos e a utopia, o Haiti se converteria numa janela do inferno na face da terra. É o país mais pobre do Hemisfério Ocidental, o mais analfabeto, o mais assolado pela violência e as enfermidades, o mais faminto e insalubre. Nove milhões de homens, mulheres e crianças, quase todos negros, vivem num pedaço de terra exaurida e agreste. São radicalmente incultos e carentes. No Haiti, morrem a cada dia de fome, desnutrição, doenças curáveis e desolação centenas de crianças, idosos, mulheres.

Até que a fúria da natureza sacudisse a capital haitiana e a devastasse, deixando um número ainda imprevisível de mortos e feridos, quem falava no Haiti? Quem se recordava do Haiti e de sua eterna agonia?

Hoje, governos de muitos países expressam sua dor e entregam a solidariedade humanitária a um país desolado. Graças a um terremoto que parece ter saído das maldições do Apocalipse (embora uma ira assim não possa ser divina), fala-se de Haiti, ajuda-se o Haiti, recorda-se do Haiti. O auxílio que chega e chegará ao país seguramente salvará vidas, alimentará famintos e abrigará carentes. Mas, quando a onda passar, quem continuará ajudando o Haiti?

As dezenas de milhares de mortos que hoje jazem embaixo dos escombros de uma cidade paupérrima, nas fossas abertas de qualquer maneira e até nas próprias ruas da cidade comovem de uma maneira especial. Mas, e os que morriam de fome e desesperança um dia antes, a quem comoviam?

Agora, quando falamos de Haiti, deveríamos usar palavras que não fossem somente de condolência, mas sobretudo de esperança: o Haiti precisa da ajuda que chega hoje, mas também da que pedia desde antes, a ajuda que lhe permitisse sair de sua ancestral miséria, de sua ignorância compacta, de sua pobreza, que são tão devastadoras, mais até, quanto o mais devastador dos terremotos.

A fúria da natureza nos lembrou que o Haiti existe. Oxalá amanhã, quando a tragédia sair das manchetes dos jornais e das proclamas dos organismos internacionais, quando esses mortos de hoje houverem sido sepultados, não nos esqueçamos de que o Haiti continuará existindo, pobre e miserável, e sua gente continuará morrendo se não se mudar o destino trágico que um mundo injusto ofereceu àqueles escravos que lutaram pela liberdade, igualdade e fraternidade entre os homens. Como se fosse possível. TRADUÇÃO: CELSO PACIORNIK

Escritor e jornalista cubano, tem obras traduzidas em vários idiomas. No Brasil, publicou

Passado Perfeito e Adeus, Hemingway (Companhia das Letras), entre outros títulos

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