The Economist
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Quando os cinemas reabrirem não serão mais os mesmos

O legado da covid-19: menos salas de cinema, exibição de filmes de grande sucesso

Redação, The Economist

16 de maio de 2020 | 16h00

As luzes se apagaram em muitas salas de cinema da Flórida. Mas em meio a essa escuridão o brilho da tela de mais de 25 metros do Ocala Drive-In é visto a um quilômetro e meio de distância da estrada. Com metade dos espaços de estacionamento no seu terreno de quase três mil metros quadrados para permitir o distanciamento social, o Ocala abriga 240 veículos e está repleto todas as noites. “Somos a única coisa que vem dando certo agora”, disse o proprietário John Watzke. As famílias se sentam em cadeiras dobráveis para assistirem a filmes como Trolls 2 ou De Volta para o Futuro pagando seis dólares por adulto (os menores de cinco anos e cães não pagam). Watzke decidiu manter o espaço aberto por causa da sua experiência na época do furacão Katrina em 2005, “quando qualquer coisa que nos oferecesse cinco minutos de uma vida normal era apreciada”.

Mas no caso de muitas das quase seis mil salas de cinema nos EUA a vida está longe da normalidade. Todas praticamente estão fechadas desde março. E embora alguns Estados tenham começado a flexibilizar o lockdown, vai demorar meses até as cortinas serem levantadas. Um quarto dos americanos diz que só voltará a frequentar um cinema no outono e assim os estúdios de cinema estão segurando seus filmes. Nenhum lançamento está planejado para o fim de semana do 4 de julho, normalmente um período muito aguardado. O próximo filme de grande orçamento será Tenet, um filme de ação da Warner Bros, provisoriamente com data de estreia marcada para 17 de julho.

E pode demorar mais do que os cinemas conseguirão esperar. Já endividados depois de anos de investimentos em novos assentos e outras comodidades, há quatro meses estão sem receita, e isto será acompanhado de um retorno lento às atividades normais. A maior cadeia de cinemas do mundo, a AMC, que possui cerca de mil salas, a maior parte nos Estados Unidos, no mês passado conseguiu um empréstimo de emergência de US$ 500 milhões que a ajudarão até novembro. Mas esse empréstimo elevará sua dívida total a dez vezes o lucro operacional bruto, segundo a agência Moody’s. Provavelmente haverá uma reestruturação. A Cineworld, a segunda maior rede de cinemas, anunciou em março que está em risco de falência se for obrigada a continuar fechada por mais de três meses. Os preços das ações das duas companhias despencaram desde o início do ano.

Os Estados Unidos já têm 1.600 menos salas de cinema do que existiam na virada do século. Naquela época o americano médio ia ao cinema cinco vezes ao ano; no ano passado ele foi três vezes e meia. À medida que mais salas de cinema fecham ou cortam gastos e o vírus perdura, o sofá da casa fica ainda mais tentador.

Assim, os estúdios de Hollywood vêm analisando alternativas. Embora tenha chegado às telas em 10 de abril, em meio à pandemia, Trolls 2 foi assistido não só no Ocala Drive In,  uma vez que a Universal Pictures decidiu colocar a animação online no mesmo dia. Ao preço de US$ 20 por um download de 48 horas, o filme arrecadou US$ 95 milhões nos Estados Unidos nas três primeiras semanas, de acordo com o The Wall Street Journal. Ou seja, bem menos do que os US$ 125 milhões que o Trolls anterior arrecadou nas bilheterias. Mas a Universal fica com 80% das receitas obtidas com o download em vez de pagar a metade para os proprietários das salas de cinema. O estúdio elogiou o experimento, afirmando ser um sucesso e pretende realizar mais lançamentos simultâneos no futuro.

Os proprietários de cinemas naturalmente estão horrorizados com o rompimento dessa janela de 90 dias, ou seja, o período em que os filmes devem ser exibidos exclusivamente nas telas grandes. A AMC anunciou que não exibirá mais filmes da Universal, acrescentando que esta não é “uma ameaça vazia ou irrefletida”. No caso da Cineworld, a companhia anunciou que também boicotará filmes que desrespeitarem a janela de 90 dias. Mas a Universal não é o único estúdio a partir para o online. Warner já fez acordo para o lançamento apenas digital de Scoob!, que deveria estrear nos cinemas em 15 de maio. E a Paramount vendeu The Lovebirds para a Netflix. Mesmo a Disney, que normalmente contabiliza melhores bilheterias do que os demais estúdios, decidiu colocar o filme Artemis Fowl - O Mundo secreto no seu serviço de streaming e não o lançará nos cinemas.

Essas decisões foram todas provocadas pela pandemia. Mas os estúdios já estavam sob pressão para fornecer conteúdo para os serviços de streaming lançados pelas suas companhias controladoras. Quando a Netflix encomenda sucessos e os coloca online imediatamente, a Disney oferece filmes antigos, como o seu remake de Robin Hood, que no passado foi lançado nos cinemas e agora vai direto para o Disney+. Este ano serão admitidos ao Oscar filmes produzidos apenas para streaming e a Academia insiste que se trata de uma exceção induzida pela covid-19. Mas as indicações de melhor filme no ano passado incluíram dois filmes da Netflix - O Irlandês e História de um Casamento, vistos num número mínimo de salas de cinema.

Os maiores títulos deste ano, de James Bond a Mulher Maravilha, tiveram seus lançamentos adiados e não colocados online. A própria Universal retardou o lançamento do próximo filme da franquia Velozes e Furiosos para abril do ano que vem. Como os filmes anteriores da série contabilizaram uma bilheteria de US$ 1,2 bilhão no mundo todo, a companhia não pode se permitir deixar de exibir o filme nos cinemas.

Mas cada vez mais os lançamentos nos cinemas só têm sentido no caso daqueles filmes de enorme sucesso de público, os "filmes de evento". Os estúdios perceberam que apostar pesado em alguns “blockbusters” rende muito mais dinheiro do que lançar inúmeros filmes menores. Os custos de marketing no caso de um blockbuster são proporcionalmente menores e gastar com estrelas globalmente famosas torna mais fácil vender um filme no mundo todo. Com o comparecimento aos cinemas em declínio nos Estados Unidos, os filmes precisam contar com uma das poucas estrelas que as pessoas querem ver. E assim, recompensas cada vez maiores se adicionam aos grandes sucessos. No ano passado os cinco filmes de maior orçamento abocanharam um quarto das bilheterias domésticas, quase o dobro do registrado em 2000.

Os críticos se queixam de que a ênfase nos filmes chamados de "grandes eventos" vem tornando os estúdios tediosamente conservadores quanto ao que eles aprovam. Todos os dez filmes de maior sucesso nos EUA no ano passado eram episódios de séries, como Vingadores: Ultimato, ou remakes como O Rei Leão. Em 2000 foram apenas dois filmes dos dez principais. E o que Hollywood produz, o resto do mundo assiste: os dez principais filmes no mundo todo no ano passado foram quase idênticos aos vistos nos EUA. Na verdade, os estúdios não deixaram de produzir filmes de menor orçamento, uma vez que precisam experimentar novos atores e novas ideias (nem sempre foi claro que adaptações de histórias em quadrinhos renderiam tanto dinheiro). Mas cada vez mais essas produções menores vão direto para os serviços de streaming.

Tudo isso é apenas uma continuação do desvio do conteúdo de cinema para a televisão. Os cinemas outrora abrigavam todos os tipos de vídeo. A partir dos anos 1950, a TV abocanhou as notícias, os desenhos animados e séries, deixando os cinemas somente com os filmes de longa-metragem. Hoje o streaming vem absorvendo grande parte dos filmes também, de modo que a sala de cinema está se tornando um lugar para se assistir os filmes chamados de evento. Alguma coisa vem sendo perdida: uma noite em casa assistindo à Netflix não é igual a uma noite no Ocala, afirmou Watzke. As pessoas podem desfrutar de um filme do mesmo modo que na TV. Mas "se elas assistirem num cinema ao ar livre, isso vira uma memória”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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