Quando se sente bater...

A derrota do movimento iniciado em 9 de julho de 1932 abriu caminho para a liquidação da democracia pelo golpe do Estado Novo

Boris Fausto,

06 de julho de 2013 | 18h03

Em seu livro sobre a revolução paulista de 1932, com o expressivo título de Palmares pelo Avesso, o escritor e jornalista Paulo Duarte lembrou a insegurança que tomou conta dele, na frente de combate: estaria lutando pela volta dos “carcomidos”, como eram chamados os políticos apeados do poder pela Revolução de 1930, ou para garantir a democratização do país, nos anos incertos do Governo Provisório, entre 1930–1933?

No calor da hora, a insegurança de Paulo Duarte antecipou os sentimentos e as interpretações conflitantes do episódio revolucionário. De um lado, sob inspiração do nacional-desenvolvimentismo, a Revolução de 1932 foi encarada como um movimento da oligarquia paulista, cujos interesses tinham sido atingidos pela nova ordem imposta pelo governo Vargas. De outro, o pensamento liberal, com raízes principalmente em São Paulo, ressaltou os aspectos políticos da revolução, destacando o ideário liberal-democrático, expresso na palavra de ordem da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

Sem dúvida, nas condições dos anos 1930, o País necessitava da instalação de um novo modelo federativo, em que a União fosse dotada de maiores poderes, fosse para enfrentar os dilemas impostos pela crise mundial de 1929, fosse para promover um processo de industrialização. Mas essa necessidade não impunha, como uma lei da história, a implantação de um regime autoritário, como a cúpula militar, e não só ela, sustentou desde a Revolução de 1930.

Se a vitória do movimento armado de 1932 era uma hipótese remota, convém lembrar que sua derrota e os fatos subsequentes abriram caminho para a liquidação do regime democrático, esboçada já a partir de 1934, com o golpe do Estado Novo.

Os tempos mudaram e nada se compara aos idos de 1932. Mas, as surpreendentes mobilizações sociais de nossos dias nos fazem lembrar de um episódio revolucionário que mobilizou amplos setores da população, com um ímpeto extraordinário, em busca de uma ordem democrática.

*BORIS FAUSTO É HISTORIADOR, PROFESSOR APOSENTADO DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTRAS OBRAS, DE A REVOLUÇÃO DE 30 – HISTORIOGRAFIA E HISTÓRIA (COMPANHIA DAS LETRAS)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.