Quase não iguais

Aécio Neves e Eduardo Campos são vencedores com trajetórias políticas parecidas. Mas, segundo o articulista, semelhanças acabam sob a análise de seus desempenhos recentes

LEONARDO AVRITZER É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h12

LEONARDO AVRITZER

Analistas políticos têm apontado Eduardo Campos e Aécio Neves como os vencedores das eleições municipais de 2012, ainda que, evidentemente, o PT não seja um dos perdedores. Há, certamente, semelhanças na trajetória e no desempenho dos dois: entraram na política ainda jovens pela mão dos avós (importantes líderes em Minas Gerais e Pernambuco) e venceram eleições importantes nos seus Estados, em especial as eleições para suas capitais realizadas neste ano. No entanto, outros elementos apontam para a diferenciação entre os dois, seja no que diz respeito ao escopo da suas vitórias locais ou à força das suas respectivas lideranças nacionais.

Pode-se dizer ainda que, apesar da origem parecida, Aécio e Campos estabeleceram uma liderança política própria. E terminam as semelhanças quando pensamos no desempenho recente dos dois. No caso de Aécio, sua liderança continua sendo fortemente estadual, mas com contestações no próprio Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte sempre foi um problema para a afirmação dessa liderança, e as diversas composições que ele realizou com o PT indicam esse receio de não consolidar plenamente tal posição na capital. Esse parece ser o principal ganho de Aécio nas últimas eleições. Ele, de fato, pela primeira vez desde 2002, conseguiu adquirir um controle pleno sobre a prefeitura de Belo Horizonte. Mas, vale a pena qualificar esse apoio antes de compará-lo com o desempenho de Campos nas eleições no Recife.

Aécio "herdou" a prefeitura de Belo Horizonte como resultado de uma articulação mal concebida pelo ex-prefeito Fernando Pimentel, do PT. Seu candidato, Márcio Lacerda, do PSB, se reelegeu, mas o desempenho do candidato do PT, Patrus Ananias, com 40% dos votos, pode indicar que Aécio enfrentará forte oposição em Belo Horizonte em 2014. Vale a pena também apontar que o ex-governador continua tendo desafios no interior de Minas Gerais: seus candidatos apenas tiveram bom desempenho em Belo Horizonte e Betim, e ele amargou importantes derrotas em Uberlândia, Montes Claros, Contagem e Juiz de Fora. Assim, Aécio parece ainda ter desafios em seu Estado antes de postular uma possível candidatura presidencial. Ao mesmo tempo, nada parece indicar que ele tenha adquirido uma posição de liderança no Senado durante seus dois anos de mandato como senador.

A liderança emergente de Eduardo Campos parece ser de outro quilate. Em primeiro lugar, sua contribuição para fazer Geraldo Júlio prefeito de Recife foi mais decisiva do que a de Aécio em Belo Horizonte. A capital de Pernambuco foi governada pelo PT por três mandatos consecutivos e tudo apontava na direção de uma quarta gestão. No entanto, as mazelas do partido e suas dissensões internas colocaram a possibilidade da própria derrota. Em Belo Horizonte, Lacerda conseguiu vencer por uma margem estreita de votos a partir de uma gestão bem aprovada e consolidada politicamente. Júlio obteve uma vitória inesperada a partir de uma candidatura de última hora que cresceu nas intenções de voto e saiu vencedora das urnas ainda no primeiro turno. Portanto, não é possível igualar as duas eleições e o desempenho das lideranças políticas que bancaram os respectivos candidatos a prefeito.

Mas é fundamentalmente no plano nacional que se colocam as principais diferenças de postura entre os dois políticos. Aécio tem encontrado dificuldade extrema em nacionalizar a liderança que tem em Minas Gerais. Nesta eleição, com exceção de uma breve presença em Salvador, não se tem notícia da presença dele em cenários eleitorais importantes, especialmente no Estado de São Paulo, onde está concentrada uma porção significativa do eleitorado brasileiro. Também não é possível perceber uma presença forte nas negociações em curso no Senado, seja como liderança de referência, seja como líder da oposição. O contrário parece estar acontecendo com Eduardo Campos. Esta eleição marca, além do seu controle quase total da política pernambucana, a nacionalização de sua liderança, em eleições como a de Belo Horizonte, São Paulo, Campinas, Uberaba e Fortaleza, entre outras. A forte presença de Campos e do PSB não só em diversas capitais do Nordeste, como também em importantes cidades mineiras e paulistas, marca decisivamente, ao contrário de Aécio, a nacionalização de sua liderança política.

A questão colocada, portanto, ao se encerrarem as eleições de 2012, é como pensar o papel de cada um desses possíveis vencedores. Do lado de Aécio é possível ver um conjunto de desafios que ainda não estão superados para que ele consolide uma possível candidatura presidencial. O principal é sua fraca inserção nas campanhas realizadas pela oposição no Rio de Janeiro e São Paulo, o que mostra que ele ainda tem um longo caminho a trilhar no seu Estado e nos principais Estados da federação antes de se tornar um líder nacionalmente conhecido. Do lado de Campos, os dilemas são diferentes, e o principal deles é qual uso fazer da liderança nacional recentemente adquirida. É possível tanto fazer uso no sentido de aumentar sua presença na coalizão que sustenta o atual governo federal quanto de deslocar o espectro da oposição para a esquerda. Da solução desse dilema surgirá a configuração política pós-eleição de 2012.

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