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Quatro filmes de Carl Dreyer são relançados no Brasil

'Vampiro' (1932), 'Dias de Ira' (1943), 'A Palavra' ('Ordet', 1955) e 'Gertrud' (1964) estão reunidos em box da Versátil

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2017 | 05h00

Na era do cinema videogame e descartável, que papel ainda jogam filmes como os do dinamarquês Carl Theodor Dreyer (1889-1968)? As respostas, cada um de nós terá a sua, podem começar a ser formuladas a partir da caixa lançada pela Versátil com quatro das obras do cineasta: em ordem cronológica, Vampiro (1932), Dias de Ira (1943), A Palavra (1955) e Gertrud (1964).

A caixa não abarca a totalidade da sua trajetória, e nem contém sua obra maior, A Paixão de Joana D’Arc (1928), lançada também pela Versátil, porém em edição individual. No entanto, dá uma ideia bastante compreensiva do percurso de Dreyer, se é que podemos falar em linha evolutiva em artista tão sólido quanto múltiplo e consciente de si. 

Tomemos Vampiro como ponto de partida. Baseado em Carmilla, a Vampira de Karnstein, de Sheridan Le Fanu, este é considerado um clássico do cinema fantástico. Mas, em se tratando de Dreyer, vai além disso. A história é a de um viajante interessado em temas do sobrenatural hospedado numa pousada conhecida por ser frequentada por mortos-vivos. 

Não temos aqui os sustos costumeiros e nem mesmo o suspense habitual de histórias do gênero. A Dreyer interessa mais esse impasse entre uma morte que não se completa e uma vida que não pode ser vivida senão às expensas dos outros. Essa angústia metafísica do vampiro expressa no contraste entre luz e sombras, com a presença em surdina do mistério, boiando entre o puro indizível e explicações racionais nunca suficientes. 

Tal disposição de espírito se encontra de forma ainda mais clara em Dias de Ira, com seu clima de feitiçaria e caça às bruxas na Dinamarca do século 17. Essa obra sombria fala de um religioso casado com uma mulher muito mais jovem, filha de uma mulher acusada de ser bruxa no passado. Quando o filho do pastor regressa à casa, é inevitável que ele e a jovem madrasta se apaixonem, um amor de consequências funestas. 

Em poucos filmes, ou em poucas obras de maneira geral, sente-se de forma tão marcante a presença opressiva de uma religiosidade persecutória quanto nesta. A delação, a possibilidade de uma vida ser tirada apenas por acusações vagas, a prática da tortura, o tormento da carne, a culpa atroz, a inveja e a maledicência sob as capas da santidade - tudo isso se presencia nessa trama soturna e ascética, em que as imagens perturbadoras se somam a sons para configurar a presença de um destino irremediável. Já se falou muito na religiosidade de Dreyer, mas em Dias de Ira a religião é um fardo terrível da humanidade, um ministério de poder exercido por homens cruéis em nome de um Deus impiedoso. 

A Palavra (Ordet) é, ao lado de Joana D’Arc, o título mais festejado de Dreyer. Venceu o prêmio principal do Festival de Veneza em 1955, mas a decisão não foi unânime. Houve críticos que consideraram sua estética um tanto retrô e alguns jurados disseram haver considerado “o conjunto da obra” de Dreyer, como se o filme, em si, não fosse justificativa suficiente. Em artigo de 1956, no France Observateur, o crítico André Bazin (um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma) acha absurda essa justificativa. Ordet pertenceria a uma estética tão “ultrapassada” como Luzes da Cidade, de Chaplin, compara Bazin. Ou seja, certas obras destacam-se do seu contexto histórico e nascem “como a pérola da ostra”. Não há sentido classificá-las como modernas ou antigas, assim como é problemático falar em progresso estético. São joias raras. Intemporais. Exceções. 

Ordet fala de um fazendeiro e seus três filhos. O mais velho casou-se com uma jovem que já lhe deu duas filhas e espera outro bebê. O filho menor quer se casar com a filha de um artesão de aldeia que dirige uma seita protestante. O filho do meio é tratado como louco e se passa por Cristo. No entanto, será ele, Johannes, o veículo de um milagre operado pela palavra e que, como todo milagre, desafia a ordem natural das coisas, na qual a morte se insere. Nessa “tragédia teológica”, segundo os termos de Bazin, há uma espécie de exposição à luz do dia do sentido religioso do mundo. O mistério, ou mesmo o sobrenatural, que em outras obras vem do exterior, aqui é pura imanência. A morte não ganha uma expressão naturalista, mas o artista busca pelo seu sentido. De certa forma, neste capítulo de sua obra, Dreyer, através de imagens, tenta pensar o indizível. 

O quarto filme da caixa é também o último de Dreyer. A princípio Gertrud foi muito mal recebido e só ganhou sua verdadeira dimensão após a morte do diretor, em 1968. Na trama, uma cantora, após abandonar seu marido e seus amantes, decide envelhecer na solidão. Gertrud causou surpresa por, em aparência, se afastar tanto da estética quanto dos temas costumeiros de Dreyer. Revisto, revela-se uma obra refinada de meditação sobre o amor e a morte. Sua estrutura, que se assemelha à de uma partitura musical, tem um sentido de modernidade que transcende a superfície em aparência convencional. Dreyer, como sempre, exige que o espectador vá além da primeira aparência da obra e supere seus preconceitos e outras limitações. Seu cinema é um desafio à acomodação. 

Essa exigência é fruto de um rigor muito raro na história dessa arte que está sempre a discutir se deve entregar ao público o que ele espera ou pode estimulá-lo a ver algo além do seu horizonte habitual. É também fruto da pouca preocupação do artista em mostrar-se previsível ou rígido do ponto de vista estilístico. Em uma entrevista de 1965 aos Cahiers du Cinéma, Dreyer se refere a um crítico dinamarquês que um dia lhe disse ter encontrado pelo menos uns seis estilos diferentes ao longo de sua obra. “Isso me tocou, porque é uma coisa que eu realmente tentei fazer: encontrar um estilo que fosse válido por apenas este filme, esta ação, este personagem, este assunto particular”, disse. Estilo poliédrico, portanto, de muitas faces, apto a recolocar o mistério em um mundo desencantado. 

A Arte de Carl T. Dreyer. Caixa com dois DVDs lançada pela Versátil contendo O Vampiro, Dias de Ira, A Palavra e Gertrud, de Carl Dreyer. Preço: R$ 69,90

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