The New York Times
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Quatro obras raras de Piet Mondrian são reivindicadas por herdeiros

Trabalhos do período neoplástico do pintor holandês estão em posse de museu alemão há décadas

Catherine Hickley, The New York Times

10 Março 2018 | 16h00

BERLIM - Não existe a menor dúvida de que quatro pinturas de Piet Mondrian no Museu Kaiser Wilhelm em Krefeld são importantes obras de seu período neoplástico, quando usou grelhas e cores primárias para criar obras-primas de beleza geométrica. Fora isso, parece haver dúvidas sobre tudo mais que se refere às telas. Estão no museu desde pelo menos 1950, mas questiona-se quando chegaram lá, dúvida que agora ganha tons de mistério e debate.

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Os herdeiros de Mondrian, holandês que foi um dos pioneiros do abstracionismo, decidiram reivindicar os quadros, afirmando que ele os emprestou ao museu há quase 90 anos e depois os deixou para trás quando fugiu da Europa enquanto a 2.ª Guerra se agravava. Eles contrataram um advogado especialista em restituição de obras de arte, Gunnar Schnabel, e um especialista em procedência das obras, Monika Tatzkow, que passou três anos rastreando as pinturas de volta aos dias de sua criação na década de 1920.

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Mas a cidade de Krefeld diz acreditar que as pinturas foram presentes, embora não tenha conseguido sustentar essa afirmação com provas. Mondrian “regularmente doava pinturas para as quais não mais tinha uso”, disse um porta-voz da cidade. Os herdeiros discordam que Mondrian gostasse tanto de dar presentes, sugerem que o museu tenha ignorado durante décadas as indicações de que as pinturas não eram de sua propriedade e convocaram como aliado o ex-ministro alemão da cultura, Michael Naumann. Em uma carta ao prefeito de Krefeld, Naumann descreveu a história das pinturas como “um episódio indescritível de desonestidade do museu desde o fim da guerra”.

Nos últimos anos, muitos museus rastrearam as histórias de peças que possuem, particularmente aquelas que poderiam ter mudado de mãos durante a guerra. “Os museus deveriam ter feito pesquisas sobre a procedência de todas as pinturas de sua coleção”, disse Sally Yerkovich, que ensina num curso sobre ética e museus na Columbia University, em Nova York. “Se eles têm itens de origem pouco clara, devem publicar tais falhas.”

A cidade de Krefeld disse que pretende realizar um exame abrangente da procedência de sua coleção e, no caso dos Mondrians, estará contratando seu próprio especialista para pesquisar a história. Mondrian criou as quatro obras durante a fase em que o abstracionismo se impôs. Os pesquisadores dos herdeiros rastrearam as pinturas até uma exposição em Frankfurt, em 1929, chamada A Cadeira. Lá, 19 obras de Mondrian, incluindo as quatro agora em poder do museu, foram colocadas à venda e exibidas sobre cadeiras tubulares metálicas.

Um curador que planejava realizar uma exibição no museu de Krefeld no mesmo ano, indagou se alguns dos Mondrians poderiam ser emprestados para sua própria exposição, de acordo com a correspondência encontrada por Tatzkow. Os herdeiros acreditam que pelo menos oito Mondrians foram emprestados a Krefeld como resultado, uma visão confirmada por um e-mail de 2010 de uma curadora do museu, Sabine Roder, ao historiador de arte Walter Grasskamp. “Provavelmente as obras chegaram ao museu em 1930”, escreveu Roder, “quando o diretor na época, Max Creutz, planejando uma exposição de artistas internacionais de vanguarda que jamais aconteceu.”

Nenhuma evidência surgiu do que ocorreu com as telas durante as duas décadas seguintes, ou se o artista chegou a solicitar sua devolução antes de fugir para Londres em 1938. De lá, viajou para Nova York, onde morreu em 1944. Tatzkow diz que Mondrian nunca descobriu o que fora feito com as pinturas e acreditava que todas as suas obras nos museus alemães haviam sido destruídas.

Abstrações como as criadas por Mondrian não eram valorizadas pelos nazistas, que fizeram campanha contra a arte moderna. Duas das obras de Mondrian, apreendidas em museus em Hannover e Essen, foram exibidas na infame exposição Arte Degenerada inaugurada em Munique em 1937, ano em que Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, orquestrou uma apreensão em massa de obras de arte moderna nos museus alemães.

O Museu Kaiser Wilhelm, que foi fundado em 1897 e agora se concentra na arte do pós-guerra, estava entre aqueles que tiveram muitas peças confiscadas. Mas os quadros de Mondrian não estão em nenhuma lista das obras apreendidas, talvez porque, segundo argumentam Tatzkow e Schnabel, como empréstimos, não constavam de nenhum inventário oficial. Os Mondrians estavam no museu em 1950, quando o diretor Paul Wember, disse que eles surgiram sob o que descreveu como “circunstâncias misteriosas”. Quatro dos oito Mondrians foram vendidos ou trocados por Wember no início da década de 1950 para a compra de outras obras importantes do modernismo clássico. (Os herdeiros buscam restituição para todas as pinturas). Os remanescentes apareceram pela primeira vez no inventário do museu em 1954.

O município de Krefeld diz que os herdeiros não têm prova de que as obras eram empréstimos. “Os quadros em questão também poderiam ter chegado ao museu como um presente”, diz um comunicado do gabinete do prefeito. A cidade, ao afirmar que tem título legal, argumentou que, em teoria, qualquer reclamação dos herdeiros seria inválida por causa do prazo de prescrição.

Os herdeiros tomaram conhecimento das obras que estavam em Krefeld quando o catálogo de Joop Joosten dando conhecimento das obras de Mondrian foi publicado em 1998. Em 2011, entraram em contato com o museu, pedindo informações sobre como as pinturas vieram a parar na sua coleção. Os herdeiros dizem que Roder respondeu que não poderia dar mais informações.

A cidade de Krefeld rejeitou qualquer insinuação de que os funcionários do museu mantiveram em segredo a história das pinturas. O gabinete do prefeito apontou que, desde que foram totalmente restauradas, as obras foram exibidas no Tate Liverpool em 2014, no Martin-Gropius-Bau em Berlim em 2015 e em Utrecht e Herford em 2017.

“Paul Wember e seus sucessores, Gerhard Storck e Martin Hentschel, realizaram extensas pesquisas sobre as origens não explicadas”, afirmou em comunicado. “O autor do catálogo raisonné frequentemente esteve em Krefeld para pesquisar e trocar informações com os diretores”. Ele advertiu que “a difamação de antigos e atuais funcionários da cidade de Krefeld será vigorosamente repudiada”. / Tradução de Claudia Bozzo 

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