Quatro peças de Henrik Ibsen são lançadas no Brasil

Quatro peças de Henrik Ibsen são lançadas no Brasil

Dramaturgo norueguês defendeu a independência do indivíduo frente ao Estado e à sociedade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2018 | 16h00

Em Um Inimigo do Povo, uma das quatro peças que a editora Carambaia reúne numa caixa dedicada a Ibsen, o dramaturgo norueguês conclui que “o homem mais forte é aquele que está só”. Henrik Ibsen (1828-1906), marco zero do teatro moderno, foi um apólogo da iniciativa individual contra o poder coletivo. Acreditava mesmo que era preciso abolir o Estado – e essa revolução, dizia, teria dele total apoio. Coerente, Ibsen criou personagens lembrados exatamente por seu individualismo exacerbado – e um exemplo disso é a protagonista da peça Hedda Gabler, outro texto que integra a caixa agora lançada com mais duas peças, Espectros e Solness, o Construtor. Há vários outros exemplos que não estão nela, dos quais basta citar a Nora de Casa de Bonecas, que, após falsificar a assinatura do falecido pai para conseguir um empréstimo, é maltratada e humilhada pelo marido, o abandona junto aos filhos e segue seu destino solitário.

Outro exemplo de virada radical contra as instituições e o Estado pode ser visto na prática numa recente comunidade criada na costa noroeste de Washington, que escolheu viver independente do conforto da civilização para voltar ao tempo de Thoreau (leia reportagem do New York Times na edição digital do Aliás). Nesse santuário ecológico, que reedita experiências da contracultura dos anos 1970, indivíduos cansados da dependência estatal tentam resistir ao avanço da uniformização cultural como se fossem versões atualizadas dos personagens de Ibsen, não só um dramaturgo que revolucionou a linguagem teatral, mas pressentiu o que estava por vir.

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Num excelente estudo sobre Ibsen lançado pela Perspectiva em 2006, Ibsen e o Novo Sujeito da Modernidade, a mestra em artes cênicas Tereza Menezes chama a atenção para a unidade da obra do dramaturgo, notando que em todas as suas peças “os personagens estão em busca de si mesmos, enquanto sujeitos autônomos e fiéis às suas próprias características”. Esse traço se acentua na segunda fase da produção teatral de Ibsen, a dos poemas épicos dramáticos, segundo a autora, elegendo Brand (1866) e Peer Gynt (1867) como as peças que hasteiam a bandeira do individualismo em Ibsen.

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Na terceira fase, quando Ibsen abandona o verso e assume o drama realista, surgem personagens libertárias como a Nora de Casa de Bonecas (1879), a protagonista de Espectros (1881), Helena Alving, viúva rica e culta que desafia os padrões morais de seu tempo, ou o doutor Stockmann de Um Inimigo do Povo (1882), saudado como um herói quando divulga o poder curativo das águas de um balneário e execrado ao denunciar a poluição do mesmo centro turístico.

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Finalmente na quarta fase, a dos dramas interiores, ainda segundo a divisão formal de Tereza Menezes, estão Hedda Gabler (1890) e Solness, o Construtor (1892). O simbolismo ganha, então, proeminência no último período de sua obra, que marca sua volta à terra natal após 27 anos morando na Itália e Alemanha. 

Obedecendo a ordem da caixa e a cronologia das peças, Espectros, proibida na época em vários países, é um compêndio de temas que as sociedades conservadoras preferem evitar: doenças venéreas, eutanásia, incesto, casos extraconjugais. A senhora Alving, conhecedora desses casos do marido e consciente da transmissão da sífilis de pai para filho (numa época em que a doença era incurável como a Aids nos anos 1980), quer redimir a memória do falecido marido, inaugurando um orfanato em sua homenagem.

Tolerante, criou a filha do marido com a empregada e abdicou de sua paixão por um pastor. O filho repete a história paterna e seduz a nova empregada sem saber que Regina é sua irmã. O epílogo é uma tragédia digna desse nome: um incêndio destrói o orfanato e o filho enfrenta o espectro da morte ao lado da mãe, mulher frustrada que trai a si mesma para manter as aparências.

Já nos cinco atos de Um Inimigo do Povo, o leitor acompanha a derrocada de um homem – e, paradoxalmente, por causa de sua integridade moral. Em Espectros, Ibsen fala da mentira. Em Um Inimigo do Povo, é a verdade de um homem que não interessa à comunidade. O doutor Stockman fez a fama de uma cidade por causa de suas águas. Mais tarde descobre as falcatruas da administração municipal que acabam por contaminar a rede da estância, cujo prefeito, aliás, é seu irmão. Acossado por ele e outros políticos, Stockman perde clientes, sua casa é apedrejada e, a exemplo da senhora Alving de Espectros, acaba sozinho.

Num livro da professora de literatura norueguesa Toril Moi (Henrik Ibsen and the Birth Of Modernism, 2007, Oxford University Press), a autora redefine as referências de teatro realista para incorporar o adjetivo idealista ao dramaturgo norueguês, observando, porém, que não se trata de um idealismo religioso, mas algo próximo do autossacrifício dos seus personagens, uma imolação em prol da comunidade – Tori Moi cita particularmente uma peça que não está na caixa da Carambaia, Brand (1866), em que um pastor moralista sacrifica a esposa, o filho e a si mesmo em sua busca radical de uma saída para a humanidade. Brand acaba abandonado pela comunidade. Morre atingido por uma avalanche de neve.

Hedda Gabler é tão dura como Brand, pois julga-se igualmente superior aos demais integrantes de sua comunidade. Filha de militar, ela herdou do pai a arrogância e a inclemência. Casada com um homem fraco, que vive para fazer suas vontades, ela paga essa dedicação com sua infidelidade, seduzindo um ex-namorado que acaba cometendo suicídio (com a arma de Hedda) após ver destruída (pela própria amante) a única cópia do livro que escreveu. Ardilosa, Hedda mente com frequência para ter as pessoas sob seu poder. Reclama do tédio da vida familiar, dos parentes do marido. Só cai em si quando o ex-namorado se mata. Há nessa morte um componente simbólico que diz respeito à própria herança familiar de Hedda, pois a pistola usada foi um presente do pai aristocrata, o general Gabler.

Finalmente em Solness, o Construtor, Ibsen usa mais uma vez um símbolo forte para recontar no palco uma situação muito particular sua: a paixão outonal de um velho por uma jovem (ele teve algumas amantes). O construtor sabe que jamais vai repetir o êxito das antigas construções, mas não reconhece o talento dos colaboradores (que explorou um bocado) para delegar aos mesmos a missão de continuar sua obra. Anos após ter construído uma igreja, uma garota, que era adolescente na ocasião, volta para desafiar o veterano Solness a subir no alto da torre e nela colocar uma coroa de flores – que acaba, de modo simbólico, marcando sua morte em consequência da vertigem. O pavor da renovação, parece dizer Ibsen, já é o fim sem que se reconheça o crepúsculo da experiência existencial.

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