Que cabelo é esse?!

'Se Neymar vai salvar o futebol brasileiro, eu não sei. Mas em apenas quatro semanas ele transformou a cabeça do meu filho'

JUAN PABLO VILLALOBOS É ESCRITOR MEXICANO, AUTOR DO ROMANCE FESTA NO COVIL (COMPANHIA DAS LETRAS). ESTA É UMA VERSÃO REDUZIDA DA REPORTAGEM QUE ELE ESCREVEU PARA A REVISTA GATOPARDO., O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h11

No sábado, 31 de março de 2012, às 11h51, Neymar da Silva Santos Júnior entra no departamento de marketing do Santos Futebol Clube, que fica no Centro de Treinamento Rei Pelé. Usa uma camiseta preta com um lema estampado em letras brancas no peito, o que provoca uma reação imediata de Eduardo Musa, o responsável pela gestão da carreira do jogador. "Quem vai editar as fotos? Precisa tirar isso das fotografias", diz ele, mostrando as letras na camiseta.

Neymar se aproxima e me estende uma mão fria e sem força. Acabou de tomar banho, depois de concluir o treinamento. Fica parado ao meu lado, ombro a ombro, sem evitar o contato físico, quando me apresento. Não tem pressa, mas bem parece que gostaria de estar em outro lugar. Apesar disso, sua atitude ali no escritório, naquele momento, não é de prepotência. Sabe que é seu dever estar ali e aceita com a resignação de quem não toma decisões. O que emana de sua figura é desamparo. Sem me dar conta, começo a falar com ele como se ele fosse um menino. Onde está o craque de personalidade exuberante e contundente?

Somente quanto ele se senta diante de mim para começar a entrevista noto um detalhe que o muda completamente: Neymar usa um gorro. Vim até aqui por esses cabelos que agora me são negados. Se Deus existe e se Deus, como os brasileiros gostam de dizer, é brasileiro, e se além disso é santista, então Deus tem um humor arrevesado.

Mudei-me para cá para viver no país do futebol em setembro de 2011. Antes vivia em Barcelona e isso é importante porque a mudança transtornou, de maneira estrambólica, o penteado do meu filho mais velho. Ele tem 5 anos e costumava sair por aí com os cabelos numa atitude aborrecida. Claro que já era fanático por futebol (como não ser em Barcelona?), mas sua adoração por Messi, Xavi ou Iniesta não interferia em sua estética capilar. Então nos mudamos para o país do futebol. Pior: então eles, minha mulher e meus dois filhos, se mudaram para o país do futebol e eu fiquei em Barcelona, concluindo nossa mudança. Esse processo durou quatro semanas, nem um dia mais, eu juro. E eis uma verdade do tamanho do Maracanã: em quatro semanas seu filho pode se transformar numa outra pessoa.

Aterrissei no país do futebol e no aeroporto me aguardava um garoto que vagamente parecia meu filho. Contudo, tinha algo muito estranho na cabeça. Para começar, havia uma tal quantidade de gel no cabelo que me pareceu que, em vez de viver no país do futebol, voltamos a viver no México. Expatriar-se, no caso dos mexicanos, significa aprender a viver sem gel. Enfim, o fato é que na parte central do crânio os cabelos daquele menino parecido com meu filho estavam eriçados como os de um moicano, um punk. "Que cabelo é esse?", perguntei, depois de uns abraços perplexos. "Neymar, papai, estou penteado como o Neymar", respondeu aquele menino que afirmava ser meu filho.

Neymar Jr. é um caso de marketing esportivo no estilo de Michael Jordan, Tiger Woods ou Cristiano Ronaldo. Uma equipe de especialistas em marketing trabalha para explorar comercialmente a imagem do garoto. Eduardo Musa é o principal responsável pela estrutura que inclui quatro pessoas pagas pelo clube e mais oito empregados diretos do jogador.

Pergunto a Neymar se houve alguma personalidade que conheceu e o impressionou. O garoto titubeia, não sabe o que responder e a cada hesitação toca o nariz. A insegurança que demonstra ao tentar uma resposta faz-me lembrar que li em algum lugar que ele estava fazendo um curso de media training, depois de alguns tropeções midiáticos. "Um esportista, um ator, um político", insisto. "Duda, me ajuda, quem já conheci?" Duda é Eduardo Musa, que acompanha atentamente o desenrolar da entrevista. Posso ajudar?, pede permissão. Digo que sim. Duda não vacila: "Beckham". "Sim, era nele que eu estava pensando", afirma Neymar. David Beckham: paradigma do jogador fashion, jogador marca, jogador top model, jogador-máquina-de-fazer-dinheiro.

Pensando na fartura monetária e em sua estética, tão própria de esportistas de sucesso, modelo do novo-rico, pergunto a Neymar onde ele gostaria de viver. "Viver não" (o curso de media training está funcionando, Neymar entende que sua resposta poderia ser interpretada com um sinal do seu futuro no futebol), "mas há lugares que gostaria de conhecer melhor: Dubai me parece muito legal, e também Las Vegas". Muito legal. Dinheiro gosta de dinheiro.

Domingo, 4 de março de 2012, estou num boteco em frente do estádio Urbano Caldeira, mais conhecido como Vila Belmiro, a casa do Santos. Às 4 da tarde o Santos vai enfrentar o Corinthians. Aproximo-me de uma mesa onde três sessentões exibem seu amor pelo Santos em inúmeras tatuagens. Um deles tem tatuado o escudo do clube na testa. Imagino a agulha picando a pele que cobre o córtex cerebral, imagino enxaquecas delirantes, o êxtase masoquista do futebol. "Neymar é um malabarista", me diz, e franze as sobrancelhas de modo que a sigla S.F.C. no escudo fica ilegível. "Desde a primeira partida já se viu que era um craque", garante o que exibe Pelé no braço direito. "Não se esconde, quanto mais o pegam mais ele quer jogar", diz o terceiro.

Há uma unanimidade premente, histérica, para confirmar a genialidade de Neymar. "Se gosto dele? Imagine que percorri 3 mil quilômetros para vê-lo", responde o mais velho dos torcedores do boteco, que assegura ter viajado de Manaus somente para assistir à partida. À medida que a conversa continua, descubro que na realidade o idoso veio a Santos por motivos familiares e a negócios, mas disse daquele jeito porque soava mais espetacular, era uma frase à altura do fanatismo histérico em torno da figura de Neymar. "Viajei 3 mil quilômetros só para ver Neymar."

Não podemos entender Neymar da Silva Santos Júnior sem falar de Neymar da Silva Santos, seu pai, que controla todos os negócios do filho e administra seu dinheiro. Eduardo Musa confirma: "É o pai quem manda", afirma taxativamente, "ele decide, tem a última palavra, isso está bem claro: aqui quem manda é o pai". Neymar pai e Neymar Jr. "Por isso a marca é Neymar Jr.", esclarece Eduardo, porque "Neymar é o pai". É verdade: no logotipo e em todo material de marketing se utiliza o Jr. Um adendo supérfluo e ao mesmo tempo muito significativo. Haverá alguma possibilidade de os fãs, a opinião pública ou o "santíssimo mercado" confundirem o verdadeiro Neymar?

Esse controle administrativo provém de um estreito vínculo afetivo. "Quem é seu herói na vida real?", pergunto ao jogador, e essa é uma das poucas respostas que vêm de imediato, sem necessidade de refletir. "Meu pai", responde. Em outro momento da entrevista ele me diz que um dos seus filmes favoritos é Em Busca da Felicidade, um drama com toques motivacionais em que um pai de família em sérias dificuldades econômicas precisa educar o filho pequeno".

"Um jogador que você admira?", pergunto. "Robinho", ele responde sem vacilar. Mas há alguma coisa que Neymar possa admirar em Robinho? Na verdade, não. O que funciona nesse caso é um mecanismo de lealdade. Algo parecido se verifica quando peço que me diga qual seu artista favorito: "Tenho vários amigos", é o que diz primeiro, antes de citar os nomes de Thiaguinho e Gusttavo Lima. Neymar precisa de uma tribo.

Esse apego ao pai e aos amigos, essa necessidade de sentir a proteção da tribo, que deixam à mostra um Neymar tímido, quase inseguro, o que coincide com sua figura frágil, lhe fornecem um traço conveniente de "naturalidade". "Vocês o viram de chinelos de dedo, ele é muito simples, esse é o Neymar", diria Eduardo Musa mais tarde, quando Neymar já havia saído e ele podia ser também uma pessoa simples e abandonar a prepotência própria de guarda-costas de luxo do garoto que todo o Brasil quer conhecer. A porta do escritório se abre e Neymar entra de novo: "Duda, onde estão as chaves do meu carro?" "Não sei, não estão comigo", responde Eduardo. Neymar sai, mas volta de imediato. Duda está com as chaves no bolso.

O confronto entre Santos e Corinthians implica um encontro simbólico entre duas figuras em situações opostas: Neymar e Adriano. Adriano é o último exemplo da decadência em que costumam cair alguns craques brasileiros com uma indolência alarmante. Uma semana depois do jogo, Adriano acabaria expulso do Corinthians.

Neymar e Adriano se encontram na saudação protocolar de antes do início da partida. Tenho uma curiosidade imensa, epistemológica, para ver o que vai suceder. Penso que são dois eixos de um quadrado semiótico que poderia explicar o enigma dos craques brasileiros. Eles se saúdam entre sorrisos carinhosos e depois se abraçam durante cinco longuíssimos segundos. Como tenho propensão para o melodrama, quando eu os observo se abraçando, lembro-me de Ronaldinho e Ronaldo, e penso "Cuidado Neymar, eis aí um futuro possível".

Indagados sobre a possibilidade de que Neymar acabe fracassando, os torcedores fora do estádio tentaram me tranquilizar ao defender, de maneira unânime, que Neymar não vai malograr, que está muito protegido, que seu pai o tem sob controle. Eduardo Musa me afirma a mesma coisa: "Ele está a salvo, pelo trabalho que temos feito e pela educação que recebeu de sua família". Isso soa muito bonito, mas outra de suas frases me parece mais reveladora: "Se não há um bom desempenho esportivo, não há nada". Talvez essa seja a melhor garantia do futuro de Neymar: se não há um bom futebol, não há negócio.

Ao terminar a entrevista, peço que nos fotografem juntos. Neymar coloca-se à minha esquerda. Coloco meu braço esquerdo nas suas costas e a mão em seu ombro. Neymar faz o mesmo com seu braço direito. Mas sua mão descansa na minha cintura. Então descubro que o fotógrafo não está pronto, que tinha desmontado uma lente da câmara e precisamos esperar. Neymar não se afasta nem tira a mão da cintura. Eu tampouco me afasto. Nos mantemos abraçados na mesma posição. E os segundos passam. Uma situação muito estanha, um tanto embaraçosa.

Enquanto dura o abraço, lembro de Neymar ter me dito que seu super-herói favorito é o Homem-Aranha. Num desses gestos que evidenciam que ele é um moleque, ao dizer isso, fez um gesto de lançar teias de aranha. Penso em Peter Parker, estudante do curso colegial, órfão, tímido, com problemas de identidade, antissocial, com complexo de inferioridade, que age movido pela culpa. E penso no super-herói favorito do meu filho: Ben-10, um menino tímido de 10 anos que procura esconder seus medos.

Eduardo Musa me diz ter uma teoria: "Neymar é o herói possível, um moleque de rua, por isso os meninos se identificam com ele". O herói perfeito para os tempos de Ben-10. A pergunta é: Ben-10 poderia ganhar um mundial de futebol organizado em seu país?

Por fim fazem a foto.

Antes de me despedir e enquanto ele assina, muito amavelmente, um par de camisetas, digo-lhe que tenho um filho de 5 anos que é louco por ele, imita seu penteado e até, quando faz desenhos da família, se desenha com o cabelo estilo moicano. Neymar ri de maneira condescendente. Tiro da mochila um desenho e entrego a ele, apontando uma espécie de onda negra que coroa a cabeça do meu filho. Ele ri às gargalhadas. Mas não tira o gorro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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