Que Europa é essa?

Não é só uma greve contra Sarkozy. É todo um continente a irradiar o esplendor de sua tristeza

Francisco Foot Hardman*, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 21h02

Vinte de novembro, terça-feira: greve generalizada na França. Aos trabalhadores em transportes (ferrovias, metrôs, ônibus), aqui designados pelo termo genérico cheminots (e cheminottes, reclamam as milhares de mulheres da categoria), parados há quase uma semana, juntam-se os funcionários públicos e os estudantes universitários. São manifestações de rua por todo o país, reunindo no total 700 mil pessoas, segundo as maiores centrais sindicais, ou pelo menos 400 mil, segundo a polícia.As pautas de reivindicação são muito específicas, mas a confluência se dá em torno de uma questão: fortalecer a resistência contra a política econômica e as reformas previdenciária e universitária anunciadas pelo presidente Sarkozy. Uma coisa é certa. O euro vai muito bem, obrigado, a curva descendente do dólar que o diga. Mas o poder de compra da população, em geral, tem decrescido muito, em itens vitais, como moradia, remédios, alimentos, combustível. Isso é visível na França, mas vale para toda a Europa. Grande parte das pessoas sente saudades do franco, lira, peseta, escudo, não por saudosismo numismático, mas simplesmente pela sensação concreta de empobrecimento. Nos transportes, setor de grande tradição sindical, temos o desenrolar do braço-de-ferro decisivo entre governo e trabalhadores. Vários direitos trabalhistas e previdenciários da categoria vêm sendo retirados aos poucos. Caminhar a pé em Paris pode ser um prazer único se você não tiver hora certa para chegar ou sair do trabalho. Se for só num dia, tudo bem. Quando próximo de uma semana, o caos se alia ao mau-humor já "clássico" do parisiense-classe-média. E o apoio difuso da população aos grevistas rapidamente pode se converter em resmungos ressentidos.Suspiros relativosSerá por isso que a livreira me pergunta por que estou suspirando tão forte? É porque caminhei muito, hoje, para chegar até aqui, até esse santuário bibliográfico, lhe respondo. Mas se tivesse mais tempo, se tivesse naquela hora folheando esse texto fundador do surrealismo, Les Champs magnétiques (Os Campos magnéticos), de André Breton e Philippe Soupault, de 1920, cujo último exemplar, na vitrine, ela acabara de vender, eu ainda poderia encontrar, em "Eclipses", a frase-verso mais cabível: não, senhora, é que estou apenas tomado pela "calma dos suspiros relativos". Sim, pois Paris é das raras metrópoles contemporâneas que, mesmo sob indisfarçáveis sinais dessa "décadence avec élégance", parece-nos oferecer, a cada passeio, a ilusão de um tempo suspenso, eclipsado, de uma reunião de camadas históricas ligadas por uma frágil película de sonho e mais sonho. Os surrealistas foram, depois de Baudelaire, Lautréamont e Proust, entre outros, aqueles que melhor conseguiram expressar essa estranha mistura de espaço-tempos. Isso foi o que mais terá encantado ao então exilado em Paris, Walter Benjamin. Seu "trabalho das passagens" é uma reflexão primorosa sobre o passe mágico das temporalidades inscrito em objetos, lugares, palavras, fragmentos de memória, enfim, dos quais nasce toda matéria histórica. E Cortázar, também exilado aqui, fez desse tema um conto notável, "El otro cielo" ( O outro céu) em Todos los fuegos el fuego (1966). O sentido mais profundo do real pode permanecer como espectro de uma imagem indecifrável: Paris, depois de tantos postais, impõem-se inteira, até para seus habitantes, estrangeiros, imigrantes deslocados em sua grande maioria. Volto ao fotógrafo de Cortázar em outro conto belíssimo, "Las babas del diablo" (As babas do diabo), não o daquele parque londrino imortalizado na obra-prima de Antonioni, Blow-up (Depois daquele beijo). Mas o de uma pracinha quase invisível num dos cantos da ilha de Saint-Louis, beira do Sena, quase uma praça exilada, no cais D''''Orléans. Sempre quase vazia, se não fosse por alguns amantes inconstantes que a cruzam, se não fosse pelos rastros infernais do fotógrafo de Cortázar.São nesses limites geográficos, nesses finais de linha, nesses pontos extremos que a Europa, no que tem de utópico ou mesmo fantasmagórico, pode se nos mostrar. Isso perceberam magistralmente alguns jovens escritores e fotógrafos reunidos no projeto recentemente transformado em livro, Last & Lost: Atlas d''''une Europe fantôme, sob coordenação de Katharina Raabe e Monika Sznajderman (Lausanne, Eds. Noir sur Blanc, 2007). Perdidos na traduçãoSejam as imagens de uma Lisboa sempre fora de esquadro, fora de século, como queria Wim Wenders; sejam as da fronteira remota búlgaro-turca, literalmente o "fim da Europa", nas fotos incríveis tiradas por Vasselina Nikolaeva, artista de Sofia atualmente na Holanda; sejam as crônicas dessa Amsterdã cada dia mais surreal entre drogados de todo o mundo e prostitutas-vitrines já envelhecidas; sejam os resorts artificiais que dominam a paisagem do litoral da Andaluzia, mal tendo tempo de esconder os restos de uma velha Espanha ainda perceptíveis, como também já nos sugeriam as pequenas cidades praianas catalãs visitadas na ficção-exílio de Roberto Bolaño; sejam as paisagens industriais fantasmáticas nessa Europa do Leste cada dia mais central, cada dia mais Ocidente, cada dia mais enfiada no coração de Paris ou de Berlim, como as da Rússia, Ucrânia, Eslováquia, Polônia, Romênia, esta última derradeiro e falido bastião de nossa latinidade perdida, de onde proliferam alguns dos mendicantes mais precários que nos abordam aqui; sejam ainda lugarejos afastados no mapa dos Estados nacionais que emanam dos restos da ex-Iugoslávia, ou cidades esquecidas da Irlanda e da Noruega, nas brumas do mar do Norte; diante, enfim, dessa sucessão vertiginosa de registros e narrativas, permanecemos, como aqueles personagens de Sofia Coppola em Tóquio, sós e perdidos na tradução. Não tão sós, afinal. Estamos em condição parelha à do escritor polonês Andrezej Stasiuk que, no livro citado, compôs esse seu especialmente melancólico relato, "Fado", para as cidades de Pogradec (Albânia) e Rudnany (Eslováquia), além de Praga e outras. De repente, é fácil darmo-nos conta de que há mais Europas por aqui do que sonhara nossa pobre geografia. E notem, por favor, que nem sequer começamos a falar de Áfricas distópicas ou de Ásias feridas... Que aí a história e os cenários se complicariam de vez.Mas voltemos a Paris. Na velha Maison de la Mutualité, cenário de manifestações da esquerda, símbolo da antiga solidariedade operária, um amigo socialista me arrasta para ver um comício de Olivier Besancenot, carteiro da mitológica La Poste, com menos de 30 anos e hoje sensação no campo à esquerda do PS, por ter abiscoitado quase 5% nas eleições presidenciais, como candidato da LCR (Liga Comunista Revolucionária, de tendência trotskista). Tudo parecia uma viagem no tempo, sem ironia. Os mesmos panfletos de frações fracionadas, discutindo tópicos programáticos com a pureza doutrinária digna dos melhores exegetas, representantes de verdades solitárias quanto de si próprios. A Internacional cantada por uma assembléia abarrotada, com predomínio de jovens (reafirmar a beleza feminina francesa seria desperdício de tempo). E Olivier, na empolgação do carisma consagrador, parecia particularmente motivado. Sua fala é claríssima, vai do baixo ao alto tom com natural modulação e rara capacidade articulatória, sempre de improviso. Só um senão: fiel à mais latina e discursiva oratória, acabou falando demais, demasiado, no limite do cansaço de seus ardorosos fãs, muitos dos quais ainda têm que dormir cedo. Excesso perdoável, pois estamos, não em Versailles, mas no Quartier Latin. Lá fora, impassível, uma dessas noites outonais frias e límpidas. Os tempos e espaços se confundem de novo dentro e fora, na rua e em alguma gaveta da memória. Será que ainda vale morrer de amor em Paris? Os sinais de pobreza e miséria a céu aberto se acumulam pela cidade e subúrbios. Visitante de passagem, a salvo das barbáries mais incrustradas no cotidiano, podemos fazer da greve uma festa, e por ora ponderar. Se aqui ainda se fabrica o melhor pão e o melhor vinho do mundo, isso talvez possa ser creditado a algum mérito da civilização, seja qual for o sentido que concedamos a essa famigerada palavra. Em Paris você talvez ainda possa dizer que gosta de literatura sem cair no ridículo. E se as ciências humanas tivessem que ser reinventadas, o seriam certamente aqui. Mas a julgar pela crise profunda das universidades francesas, dificilmente o serão, a curto prazo. Até quando? Até quando se poderá ainda falar aqui na tradição da Comuna, ou de 68, sem ser encarado como louco? Até quando o sonho aqui ainda alcança algum lugar? Difícil é crer nesse "outro céu". Que do outro lado da passagem, aguarde-nos, com ânimo, algum outro século vivo. Assim, por exemplo: passam os estudantes da Sorbonne em passeata, portas da universidade bloqueadas, com eles muitos secundaristas, e se você imaginasse, pois a força desse imaginário persiste, veria, ao longe, desenhar-se uma cena de 1968. Mas a imagem é passageira, pois o movimento de agora, visivelmente, vive o isolamento de suas pautas, e a crise maior de representação. Natureza-mortaOutro exemplo: no Grand Palais, por trás de alguns quadros expostos de Gustave Courbet, um dos fundadores da modernidade na pintura, restauradores descobriram, recentemente, "espectros", isto é, ensaios de outros motivos, temas e figuras, depois ocultos pelas tintas da obra que vingou, espécie de rascunhos abandonados. Poderíamos imaginar atravessar essas camadas, e lá estar com o pintor entre suas melhores naturezas-mortas, aquelas que fez quando preso em Sainte-Pélagie, depois da Comuna de Paris. Ou entre alguns dos seus desenhos mais belos, esboços avulsos num caderno que ficou. Mas, não: temos que sair, que o museu fecha, e a Europa-fantasma lá fora, esplêndida na tristeza que irradia, nos espera. De novo Breton e Soupault - ontem, vanguarda, hoje lembrança -, de novo me deixo à deriva de suas palavras, mas isso só aqui e agora, que a viagem logo termina: "Simplicidades de luas antigas, vós sois como sábios mistérios para nossos olhos injetados de lugares-comuns". * Francisco Foot Hardman, professor de história literária no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, está na França, onde participa de um colóquio sobre arte e literatura na América Latina, na Universidade Paul Verlaine, em Metz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.