'Que morra e vá para o inferno'

Já são 30 ameaças por dia, 400% a mais do que Bush recebia. De onde parte o ódio a quem acaba de chegar?

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2009 | 08h47

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Foi uma semana de envergonhar os americanos de bem. E nos induzir a desconfiar que boa parte deles não merece ter Obama como presidente.

 

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Primeiro, a demissão de Van Jones, conselheiro da presidência para assuntos de energia limpa e ambientalismo. Depois, o demagógico alvoroço em torno de uma exortação aos estudos candidamente dirigida pelo presidente às crianças do primeiro grau, através de uma rede pública de televisão. Culminando com o discurso de quarta-feira, no Congresso, quando Obama foi ostensivamente hostilizado por uma súcia de republicanos desrespeitosos, paranoicos e arruaceiros.

 

Van Jones não foi demitido; demitiu-se, galhardamente, na madrugada de domingo. Vítima de uma campanha difamatória, ao estilo macarthista, liderada pelo lunático Glenn Beck, da Fox News, pelo site neoconservador World Net Daily e por Phil Kerpen, do grupo direitista American for Prosperity (especializado em criar factoides, geralmente em favor da indústria petrolífera), o presumido czar da "economia verde" preferiu evitar que polêmicas estéreis, envolvendo suas crenças políticas (é marxista assumido) e críticas à cumplicidade do governo Bush com o atentado de 11 de Setembro, viessem desviar a atenção do que realmente importa neste momento: discutir o projeto de reforma do sistema de saúde do país com franqueza e sem parti pris ideológico.

 

Quanto à grosseria do deputado Joe Wilson, xingando Obama de mentiroso durante o discurso de quarta-feira, vocês não viram nada. O insulto foi fichinha se comparado aos sermões do pastor batista Steven Anderson - e também a uma série de outras agressões ao presidente que há meses vêm se multiplicando por todos os cantos da América.

 

O pastor Anderson, da Igreja Mundo Fiel, de Phoenix (Arizona), odeia Obama. Até aí, tudo bem, é seu direito. Abusando desse direito, já o chamou de "demônio socialista", assassino, infanticida e outros injuriosos clichês da direita americana. Mas no dia 16 de agosto o reverendo extrapolou, arrematando sua odienta ladainha com uma incitação à morte do presidente. Anderson, disse-o com todas as letras, quer que Obama morra e vá para o inferno. Está no YouTube, como parte de uma entrevista que Rick Sanchez editou com o sulfúrico evangélico, para a CNN. Se o pastor tivesse feito algo parecido com George Bush, agentes de segurança do governo teriam batido em sua porta em menos de 24 horas.

 

Na plateia do pastor, Chris Broughton, aquele cro-magnon que, munido de um rifle AR-15, compareceria, no dia seguinte, ao centro de convenções da cidade para execrar pessoalmente um discurso do presidente. Broughton ficou no exibicionismo, para sorte do presidente e, também, do pastor, que, na hipótese de um atentado, poderia ser processado por incitamento à violência. O lanfranhudo já entrou no radar do FBI como um Lee Oswald em potencial.

 

Não está dando para piscar. Com seu efetivo reduzido à metade, os órgãos de segurança americanos cortarão um dobrado para enfrentar a atual onda de ameaças à integridade física de Obama. Já somam, em média, 30 por dia, 400% a mais do que Bush costumava receber. Por que tanto ódio a um presidente que, afinal de contas, não foi responsável por nenhuma das adversidades que há tempos corroem o prestígio, o moral e a economia da América?

 

Simples: Obama elegeu-se prometendo mudanças substanciosas e uma visão moderna e mais generosa de progresso, o que contraria grandes e arraigados interesses econômicos; no caso da reforma da saúde, os interesses de empresas de seguro, da indústria farmacêutica e de médicos e hospitais que tratam a saúde como uma commodity. Mais: Obama é negro, e o racismo ainda é uma força ativa, notadamente nos Estados do sul.

 

Além de negro, Obama tem a simpatia dos latinos, legal e ilegalmente estabelecidos no país, permanente motivo de pânico para os brancos que se julgam os únicos "americanos verdadeiros", mas, como provam todas as projeções demográficas, serão minoria daqui a 30 anos. Por duvidar de tais projeções, para ela, manipuladas, a republicana Michele Bachmann, de Minnesota, propôs um boicote nacional ao censo de 2010, como se isso pudesse diminuir o número de latinos que efetivamente nascem e procriam na América.

 

Os latinos estavam, não por acaso, no centro do entrevero protagonizado pelo deputado Joe Wilson, na histórica quarta-feira em que Obama, pondo de lado sua porção Spock e assumindo o seu lado Rocky, como desejava a comentarista política do New York Times Maureen Dowd, finalmente chamou os republicanos na chincha. Obama jamais prometera incluir os imigrantes ilegais nas benesses de seu projeto para a saúde pública. Patranha do Wilson, que acabou levando a pior. Sem exclusão dos parlamentares que, dissimuladamente ou às escâncaras, pegando o celular, teclando o blackberry, abandonando o recinto ou dando vaias, engrossaram a chacrinha xenófoba; como se os latinos sem documentação só explorassem a economia do país, sem lhe dar nada em troca; como se não pagassem impostos sobre tudo o que consomem.

 

Wilson é da Carolina do Sul, assim como o senador Jim DeMint, que apostou que o plano do governo para a saúde seria "o Waterloo" de Obama. A Carolina do Sul é a Alagoas da América do Norte. Dias antes de a Guerra Civil estourar, um congressista da terra espancou com uma bengala um senador de Massachusetts que ousara criticar os escravistas do sul do país. Também era de lá o agressivo senador Strom Thurmond, que, diziam as más línguas, nunca tomou vodca por medo de virar comunista. Idem Mark Sandorf, aquele governador que mentiu para a mulher e flagraram com uma amante argentina, em junho deste ano, e o ex-governador e senador Ernest Hollings, que passou quatro décadas insultando abertamente negros e latinos. Hollings nem era republicano. Alguma coisa deve ter a água do Rio Savannah.

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