Quem dá mais? Quem dá mais?

De condomínio encalhado nos EUA à tigela de Gandhi, passando pela coleção Saint Laurent, só dá leilão

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2009 | 00h14

Na Babilônia, eram as mulheres. Na Roma Antiga, os espólios de guerra e os servos. Na América do século passado, obras de arte e memorabilia cinematográfica (Steven Spielberg arrematou o trenó de Cidadão Kane, um fã de Audrey Hepburn pagou cerca de US$ 700 mil pelo Givenchy preto que a atriz vestia em Bonequinha de Luxo, um tarado por Judy Garland desembolsou outros tantos dólares para ter em casa os rúbidos sapatinhos que Dorothy calçava em O Mágico de Oz). Hoje, até ativos podres de bancos à beira da falência e condomínios encalhados pela crise do crédito nos Estados Unidos estão sendo leiloados.   Leilão: a ultima ratio do capitalismo fané. O mercado imobiliário de Nova York e do sul da Flórida depende agora de almoedas cujos lances mais altos mal cobrem a metade do valor original dos imóveis. Quem der mais, estará dando muito menos.Leilão: a espetacularização do consumo conspícuo. Alguém duvida que o maior fenômeno midiático da semana passada tenha sido o leilão do acervo de obras de arte e decorativas de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé?Leilão: a comercialização do consumo inconspícuo.Vão passar no martelo quatro objetos pessoais de Mohandas Gandhi, o Mahatma Gandhi. Parece até gozação do Casseta & Planeta, mas é verdade: o ascético Gandhi, que se notabilizou por seu desapreço total a bens materiais, deixou quatro bens (um par de óculos, um relógio de bolso, uma sandália de couro e uma tigela de metal) que, nos dias 5 e 6 de março, serão leiloadas pela Antiquorum Auctioneers, em Nova York. Sob protestos do governo indiano.Leilão: uma fonte esporádica de atritos diplomáticos. Sobretudo com países pródigos em tesouros pilhados e perdidos, como a Grécia, a China, a Índia e todos aqueles santuários asiáticos. O governo indiano já estava em pé de guerra com a Antiquorum Auctioneers quando as autoridades chinesas abriram fogo contra a Christie?s de Londres, justamente por conta do leilão das peças de Saint Laurent e Bergé expostas no Grand Palais, no início da semana.Com 96% de seus lotes arrematados por 374,4 milhões, quase o dobro do esperado, o leilão da Christie?s já entrou para o Livro dos Recordes. Foram três dias e seis sessões de pregões, documentadas por jornais, revistas e televisões do mundo inteiro. Ao longo do espetáculo, três assombros, pelo menos: o preço atingido por um Matisse de 1911 ( 35,9 milhões), o "encalhe" de um Picasso da fase cubista, e o arremate de duas esculturas de bronze da dinastia Qing por 32,1 milhões. Foram estas duas peças (uma cabeça de coelho e outra de rato) que puseram a China e a Christie?s em rota de colisão. Elas faziam parte de um relógio d?água, "com figuras do zodíaco", desenhadas pelo missionário jesuíta Giuseppe Castiglione, e teriam sido saqueadas do Palácio Imperial de Verão de Pequim por tropas britânicas e francesas, no fim da Segunda Guerra do Ópio, em 1860. Vejam só quantos ingredientes se misturam nesse rolo formado à sombra do colonialismo europeu. Não entendi direito por que um missionário jesuíta daria o melhor do seu talento para esculpir uma obra inspirada em crenças estranhas ao cristianismo. Outra dúvida: o horóscopo chinês, e não o zodíaco, é que tem rato (Shu) e coelho (Tu) em seu elenco de signos, certo? Pouco importa. O fato é que as duas esculturas acabaram na Europa e Bergé comprou-as de um galerista parisiense. Para encerrar a controvérsia, o companheiro de Saint Laurent comprometeu-se a devolvê-las a seu país de origem. Mas impôs uma condição: o governo chinês teria de passar a respeitar os direitos humanos. Resultado: a Christie?s, que há tempos tem em Hong Kong sua melhor praça de leilões depois de Nova York e Londres, ganhou um cartão amarelo dos chineses. Se ganhar o segundo, deixará aquele precioso mercado à disposição de sua maior concorrente, a Sotheby?s, que em 2008, só em Hong Kong, faturou US$ 130 milhões. Gandhi morreu em 1948, assassinado por um hindu radical, Nathuran Godse. Estava nos braços da sobrinha-neta Abha quando sussurrou seu último mantra. Foi para ela que deixou a sandália, a tigela e o relógio (um Zenith de prata, fabricado em 1910), que Abha repassou a Gita Mehta, sua filha e provável ponte para os leiloeiros da Antiquorum. Os óculos foram doados por Gandhi ao coronel Muhammad Mahabat Khanji III, em 1930, depois que o militar (e soberano de um principado em Junagadh) pediu ao mahatma inspiração para melhor entender a Índia. "Gandhi vislumbrara a independência de nosso país através daqueles óculos", relembrou Varsha Das, no meio da semana. Diretor do museu que em Nova Délhi dedicaram ao maior herói da luta dos indianos contra a dominação britânica, Das é um dos mais indignados com o leilão: "Vai contra tudo que Gandhi pensava e praticava. Em vez de cobiçar seus pouquíssimos e modestos objetos pessoais, deveriam preocupar-se com a disseminação de suas mensagens contra o materialismo e o comercialismo". O lance inicial das quatro relíquias de Gandhi deve ficar em torno dos US$ 25 mil. Membros do Parlamento indiano intimaram o primeiro-ministro Manmohan Singh a impedir o leilão ou abrir os cofres do país para disputá-lo sobranceiro e trazer para o museu de Nova Délhi os óculos, o relógio, a sandália e a tigela do mahatma. Foi desse modo que, num leilão da Christie?s em 2007, o governo indiano assegurou a posse definitiva das últimas cartas de Gandhi, escritas duas semanas antes de sua morte. Alguns indianos discordam dessa estratégia por entender que a Índia não deve monopolizar a figura de Gandhi. Ela pertence ao mundo inteiro, argumentam. Não a coleções particulares, mas a acervos públicos onde a humildade do mais respeitado defensor do satyagraha (o protesto não violento) possa ser reverenciada por qualquer um de nós - mesmo aqueles que duvidam da eficácia do protesto pacífico na luta contra a opressão. QUARTA, 25 DE FEVEREIROApetite de investidorEm três dias de leilão, o acervo do estilista Yves Saint Laurent e seu companheiro, Pierre Bergé, quebrou todos os recordes nesse tipo de evento: 374 milhões. A obra principal da coleção, uma tela cubista de Picasso, não chegou a ser vendida.

Tudo o que sabemos sobre:
Aliásleilão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.