Bloomber/Getty Images
Bloomber/Getty Images

Quem dera fosse simples assim

‘Mapear o cérebro é muito mais complexo do que foi o projeto do genoma humano’, afirma neurocientista português

MÔNICA MANIR,

23 de fevereiro de 2013 | 16h00

Entrevista com António Damásio, neurocientista e diretor do Instituto do Cérebro e da Criatividade do Sul da Califórnia

Não sem razão, António Damásio se anima com a última sobre o cérebro: o governo americano pretende investir, nos próximos dez anos, pelo menos US$ 3 bilhões no mapeamento da nossa massa cinzenta. Obama fez o anúncio, e agora o Congresso precisa aprovar o que está sendo chamado de Brain Activity Map. Mas a empolgação maior do renomado neurocientista português, nesta entrevista que deu ao Aliás a partir de Los Angeles, foi com seus próprios projetos.

Ele tem pesquisado, por exemplo, sobre a base dos sentimentos, como se pode atestar em recente estudo seu publicado na revista Nature Reviews Neuroscience. Também quer saber de que forma o cérebro pode apreciar e gerar música, e para isso tem uma equipe no Brain and Creativity Institute, criado por ele e por sua mulher, Hanna Damásio (também neurologista), na Universidade do Sul da Califórnia. Numa multiplataforma de ação - porque tudo hoje é multiplataforma -, ainda finaliza um livro a respeito da evolução da vida e da criação das culturas. “É a maneira como a cultura é construída no seu princípio a partir de aspectos biológicos, nomeadamente aspectos que têm a ver com cérebro”, explica. Damásio, em suma, está a revolucionar de novo, a inverter lógicas, a aprimorar conceitos, como o de que a razão não é tão pura como a maioria de nós pensa ou deseja, mas enredada - para o melhor e para o pior - pela tal base de sentimentos.

Se uma não é água nem a outra é azeite, então que razão e emoção sejam vistas como ingredientes da mesma cepa. Isso ele demonstrou em O Erro de Descartes, publicado em 1995 a partir da observação de pacientes com lesão cerebral e lançado aqui pela Companhia das Letras. Depois vieram O Sentimento de Si, Ao Encontro de Espinosa, E o Cérebro Criou o Homem e O Mistério da Consciência. Radicado há quase 40 anos nos EUA, o lisboeta laureado com os prêmios Pessoa e Príncipe das Astúrias deve vir ao Brasil em junho, quando participará do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Damásio por vezes tropeça na língua-mãe, como se percebe na entrevista a seguir, focada no destino das pesquisas cerebrais. Também usou a palavra “nós” quando explicava sobre sua mudança para os EUA. Por isso foi perguntado sobre família e filhos. “Não tenho filhos”, diz. “Meus filhos são os livros.” Todos eles invariavelmente dedicados a Hanna.

O governo dos EUA espera que o mapeamento faça pelo cérebro o que o Projeto Genoma fez pela genética. O senhor acha pertinente comparar um projeto com o outro?

Acho pertinente comparar o projeto do genoma com o projeto do mapeamento do cérebro porque ambos têm muito a ver com descobrir essenciais de sistemas biológicos fundamentais. Há no entanto uma grande diferença: o programa do genoma, comparado com o programa do mapeamento do cérebro, é relativamente simples.

Quais as maiores dificuldades a enfrentar no mapeamento do cérebro humano?

A maior dificuldade é o fato de o cérebro humano ser extremamente complexo. Por exemplo, os neurônios estão combinados em regiões e sistemas. E são vários bilhões de células, que fazem conexões entre si da ordem dos trilhões. Para que as células funcionem, precisam de uma grande variedade de moléculas, de transmissores químicos, etc. E essas moléculas são também enormemente variadas e levadas a funcionar através da ação de um grande número de genes, que têm diferenças a apresentar em vários componentes do cérebro. O cérebro é ainda o gerador do comportamento. Ele gera nossas ações motoras e aquilo que se passa na nossa mente. De modo que a complexidade de que estamos a falar é de fato extraordinária, como não há nenhuma outra comparável em termos de biologia.

Os procedimentos de pesquisa do cérebro são necessariamente invasivos?

Na maior parte dos casos, não. O mapeamento que se faz com scanners de ressonância magnética não é invasivo. A eletroencefalografia não é invasiva. Há numerosas maneiras de estudar o cérebro que não levam de todo à invasão do sítio biológico. E sempre que há qualquer risco para o ser humano, procura-se uma forma de fazer o trabalho em animais de pesquisa.

Qual a importância da nanociência nesse estudo?

Há muitos níveis de estudo. E, quando se pesquisa aquilo que se passa numa célula nervosa, há aspectos muito pequenos, microscópicos. Mas não são microscópicos, são ultramicroscópios e tem a ver com o nível nano de estrutura física. É aí que a nanociência tem seu papel.

Acredita que uma década será tempo suficiente para esse mapeamento?

A resposta é não. Haverá um certo mapeamento, mas não é possível de todo fazer o mapeamento completo. É preciso avançar com o projeto para que haja energia para depois continuar. E não é possível fazer um prognóstico porque tudo depende de certos aspectos ainda não descobertos, que se podem revelar muito complexos.

Por que a proposta de fechar numa  década? Em janeiro, a União Europeia anunciou um megainvestimento no cérebro que também se estenderia por dez anos.

Se apresentassem um programa para sete anos, pareceria curto demais. E se apresentassem para 20 anos, quem vai esperar 20 anos por um resultado? A década não tem nada a ver com a realidade. É puramente uma forma de apresentar o problema.

De imediato, pensa-se nos portadores de Alzheimer e Parkinson como os maiores beneficiários das pesquisas. Essas doenças, ao lado do câncer, são os grandes males do século?

É verdade que esses portadores serão grandes beneficiários. Espera-se. Mas, quando você pergunta se Alzheimer e Parkinson são os grandes males do século, juntamente com o câncer, há mais outras doenças para além. Alzheimer e Parkinson são doenças terríveis e cada vez mais frequentes porque a população vai envelhecendo, não é? Mas há também os acidentes vasculares cerebrais, a depressão e a drug addiction. Como é que se diz isso em português?

Dependência de drogas.

Sim, dependência de drogas. São enormes males também, que só podem ser tratados se soubermos seus aspectos cerebrais.

Acha que está ocorrendo uma banalização da neurociência, como se ela pudesse explicar de questões biológicas a econômicas?

Há um enorme interesse em neurociência em todos os locais onde se faz ciência avançada, mas o programa é agora mais intenso porque as pessoas começam a perceber que a neurociência pode trazer enormes vantagens para resolver problemas da humanidade. É um componente da explicação daquilo que é vida, daquilo que é comportamento humano. Mas não explica tudo. É preciso ser posta em contexto, pensar como a neurociência se articula com a psicologia tradicional, com a filosofia, com o entendimento das relações sociais.

Por que a neurociência ganhou tanta notoriedade nos últimos tempos?

Porque estamos todos muito corretamente fascinados com aquilo que é nossa mente, nosso comportamento, e a mente e o comportamento são resultado do funcionamento do cérebro. Portanto, quando conhecemos em mais pormenor aquilo que está a passar no cérebro, estamos também a conhecer melhor algumas das coisas que se passam em nosso comportamento.

Todas as emoções têm um mecanismo neural?

Sim, é evidente que sim.

E a fé?

A fé não é uma emoção. A fé é um estado de crença que tem um componente emocional, mas que não se limita a uma emoção nem a mecanismos neurais.

O senhor é um estudioso da memória. Inteligência e memória estão necessariamente relacionadas? Não raro são vistas inclusive como sinônimos.

Muitas vezes são vistas como sinônimos, mas não deveriam ser. Porque se pode ter uma memória extraordinária e não ser de todo inteligente. Mas, quando se pensa na inteligência e na criatividade, é necessário que haja uma boa memória para fornecer dados. A combinação de diferentes memórias permite a criação de novas ideias, novos produtos, que é o mais importante em matéria de inteligência.

A morte encefálica é tida hoje como o critério definitivo para se estabelecer o fim da vida. O senhor acredita que novas descobertas relativas ao cérebro possam mudar esse parâmetro?

A morte encefálica muitas vezes acarreta cessação de vida. Mas há numerosos casos em que é possível continuar a vida mesmo após ter cessado a vida do cérebro, no sentido normal do termo. Com novos estudos sobre cérebro, não só é possível saber mais sobre o seu funcionamento como é possível ter novos critérios para esse problema. Isso é uma coisa que acontece com a ciência à medida que progride. Critérios baseados em ciência mais antiga muitas vezes estão corretos, mas outras vezes é preciso que sejam revistos.

Notícias relacionadas
Tudo o que sabemos sobre:
cérebromapaobamaneurociênciaprojeto

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.