Quem é a mulher na janela?

Parte da tragédia entre judeus e árabes é a incapacidade de muitos de nós, judeus e árabes, nos imaginarmos

Amos Oz*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2007 | 23h04

Se você comprar uma passagem para outro país, é possível que veja os monumentos, os palácios, as praças, os museus, as paisagens, os locais históricos desse país. Com sorte, terá oportunidade de conversar com alguns habitantes. E voltará para casa trazendo uma coleção de fotografias e postais.Mas, se ler um romance, vai adquirir na verdade uma passagem para os recantos mais secretos dos países e dos povos. A leitura de um romance estrangeiro é um convite para visitar as casas de outras pessoas e lugares secretos de outros países.Se você não é mais que um simples turista, talvez tenha a oportunidade de parar numa rua, olhar uma casa antiga na região velha da cidade, e ver uma mulher que olha da janela. E continuará seu caminho.Mas, se é um leitor, você não apenas verá a mulher que olha da janela, mas estará com ela, na sala dela, na sua cabeça.Quando você lê um romance estrangeiro, na verdade é convidado a entrar na sala de outras pessoas, no quarto das crianças, na cozinha, na sala de leitura, no quarto de dormir. É convidado a visitar suas dores secretas, suas alegrias familiares, seus sonhos.É por isso que acredito na literatura como uma ponte entre as pessoas. Creio que a curiosidade possa ter uma dimensão moral. Creio que a capacidade de imaginar o outro possa ser um antídoto contra o fanatismo. A capacidade de imaginar o outro não só o converte num homem de negócios melhor, ou num amante melhor, mas numa pessoa melhor.Parte da tragédia entre judeus e árabes é a incapacidade de muitos de nós, judeus e árabes, de nos imaginarmos uns aos outros. De imaginar, realmente, os amores, os medos terríveis, a raiva, a paixão do outro. Existe demasiada hostilidade entre nós e muito pouca curiosidade.Judeus e árabes têm em comum uma coisa essencial: no passado, ambos foram tratados dura e brutalmente pela mão violenta da Europa. Os árabes foram vítimas do imperialismo, do colonialismo, da exploração e de humilhações. Os judeus foram vítimas da discriminação, da perseguição, de expulsão e, finalmente, de assassinato em massa numa escala sem precedentes.Poderíamos imaginar que duas vítimas, e especialmente duas vítimas do mesmo opressor, desenvolveriam um sentido de solidariedade recíproca. Infelizmente as coisas não funcionam assim, nem em romances nem na vida real. Na verdade, alguns dos piores conflitos quase sempre envolvem duas vítimas do mesmo opressor. Duas crianças vítimas do mesmo pai violento não vão, necessariamente, gostar uma da outra. Com freqüência vêem na outra a imagem do pai opressor.É exatamente o caso entre judeus e árabes no Oriente Médio. Enquanto, para os árabes, os israelenses são os cruzados modernos, uma extensão da Europa branca e colonialista, muitos israelenses vêem os árabes como a nova encarnação dos perseguidores do passado, responsáveis pelo pogrom e nazistas.Diante dessa situação, a Europa tem uma responsabilidade particular na solução do conflito árabe-israelense: em vez de apontar ameaçadoramente para qualquer dos lados, os europeus devem oferecer a empatia, a compreensão e o apoio a ambas as partes. A escolha não é mais entre ser pró-Israel ou pró-Palestina, mas pró-paz.A mulher na janela pode ser uma palestina de Nablus. Pode ser uma judia israelense de Tel-Aviv. Se você quiser colaborar para que essas duas mulheres em suas janelas vivam em paz, seria bom ler sobre elas. Leiam romances, caros amigos. Eles lhes dirão muito.E essas mulheres também devem ler uma sobre a outra. Para saber, enfim, o que deixa a outra mulher na janela aterrorizada,irada ou cheia de esperança. Não estou sugerindo, esta noite, que a leitura de romances possa mudar o mundo. Estou sugerindo, e creio nisso, que ler romances é uma das melhores maneiras para compreender que todas as mulheres, em todas as janelas, estão, no final do dia, precisando urgentemente de paz. *Amos Oz, escritor israelense e co-fundador do movimento Peace Now, proferiu este discurso ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras 2007, dias atrás. O discurso teve grande repercussão e circula na internet

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