Quem leva a cadeira de Bush?

O Iraque, a imigração ilegal, a economia doméstica: três questões-chave na eleição americana

Alexander Keyssar*, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 20h49

A temporada eleitoral já corre solta nos Estados Unidos, embora ainda faltem mais de dez meses para o pleito. Candidatos de ambos os partidos estão ativamente concorrendo à presidência há mais de um ano - levantando centenas de milhões de dólares para suas campanhas e participando de dezenas de debates tediosos pela TV. Agora, conforme se aproxima a primeira eleição primária, eles intensificaram os ataques mútuos.Do lado democrata, a senadora Hillary Clinton continua à frente, mas sua dianteira nas pesquisas está diminuindo e ela poderá ser derrubada pelo senador Barack Obama ou pelo ex-senador e ex-candidato a vice-presidência, John Edwards, que se posiciona à esquerda.Entre os republicanos a disputa tem sido peculiar, conforme uma série de candidatos tenta se agarrar à frágil coalizão entre o poder de grandes empresas e o conservadorismo social que elegeu Bush. O senador John McCain perdeu o primeiro lugar na corrida para se tornar uma possibilidade improvável quando endossou a estratégia do presidente de enviar mais soldados ao Iraque. (Seus principais rivais, agora, apóiam a mesma decisão.) Mas a campanha de McCain tem mostrado sinais de ressurgimento, talvez porque os eleitores republicanos estejam apreensivos em relação às alternativas mais plausíveis - o ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, o ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, e o ex-governador do Arkansas, Mike Huckabee.Giuliani se apresenta como o mais resoluto defensor da segurança americana, embora não abandone posições liberais em questões como aborto, direitos dos homossexuais e controle de armas. Essas posições podem fazer dele um candidato difícil de engolir para a direita religiosa, que tem sido um pilar de apoio do partido desde 1980.Romney tem cortejado a direita religiosa, apesar de, quando em campanha para governador de Massachusetts, ter se apresentado como um liberal em termos sociais. Ele se mostra como um herdeiro mais competente dos valores de Bush. No final, poderá ser derrotado pela própria religião - é mórmon -, fator que contribuiu para a recente ascensão meteórica de Huckabee, um pastor batista conservador imprevisível, com uma linguagem franca, jeito espirituoso e nenhuma experiência em política externa.Provavelmente saberemos quem serão os candidatos em 5 de fevereiro, quando mais de duas dezenas de Estados já terão realizado eleições primárias. Seja qual for o desfecho, a campanha será marcada por uma continuidade da política recente. Nenhum dos candidatos republicanos tende a romper bruscamente com o conservadorismo do atual governo, embora McCain e Giuliani busquem ser mais suaves nas questões sociais. Os dois principais candidatos democratas, Hillary e Obama, representam uma volta ao centrismo promovido quando o marido da sra. Clinton era presidente.É claro que a eleição de uma mulher ou de um negro causaria impacto, mas pouca coisa sugere que suas políticas se diferenciem muito das ortodoxias democratas dos últimos 20 anos. É irônico que o homem e branco Edwards - um progressista e crítico ácido das grandes empresas - seja o único que mudaria de fato o espectro ideológico; mas ele dificilmente será nomeado por seu partido.Sejam quais forem os candidatos, a eleição presidencial será intensa e, talvez, maldosamente disputada. Há muito em jogo em pelo menos três áreas.A primeira é a política externa. Se um republicano for eleito, as políticas beligerantes do atual governo continuarão, temperadas levemente pela realidade que se apresenta no Iraque. A doutrina Bush de guerra preventiva não será repudiada, a manutenção da hegemonia mundial continuará sendo o objetivo da política externa e os EUA continuarão desconfiados, se não abertamente hostis a regimes de esquerda pelo mundo. Já uma administração democrata será muito mais propensa a agir de maneira multilateral, a cortejar e consultar aliados, assinar e respeitar tratados - e, talvez, ser mais protecionista no comércio internacional.Um governo democrata também tratará de refazer a imagem do país na opinião pública internacional: é fácil imaginar Hillary Clinton despachando seu marido para servir de embaixador da boa vontade ou Barack Obama se apresentando mundo afora como o admirável rosto novo, pardo, dos EUA.A segunda arena em que as apostas são altas é a economia doméstica. Bush tem sido bem-sucedido em concentrar renda. Os salários reais caíram e os frutos do crescimento econômico foram para o 1% mais rico dos americanos. O governo aviltou a legislação trabalhista, tornando cada vez mais difícil aos sindicatos se organizarem enquanto retiraram proteção à saúde e à segurança dos trabalhadores. Eles continuarão a fazer pressão nesse sentido. Mas, se um democrata for eleito, a tendência para o crescimento da desigualdade cessará, e poderá até ser invertida, em especial se Edwards sair fortalecido das primárias. Os democratas tratarão de fazer o país avançar (gradualmente) rumo a um sistema de saúde universal.A terceira questão envolve o uso dos diferentes poderes do governo para respaldar objetivos de grupos particulares. Os republicanos sinalizaram a intenção de nomear para a Suprema Corte juízes que provavelmente sustentarão proibições ao aborto; eles também empregarão na burocracia funcionários que considerem que a fé é mais importante do que a ciência como guia para a política pública, que os homossexuais não devem ter direitos iguais e que não há mais nenhuma necessidade de programas com tratamento preferencial para minorias raciais. Se os democratas vencerem, a burocracia e os tribunais serão repovoados por homens e mulheres com valores muito distintos dos valores republicanos.Duas outras questões vão pairar ameaçadoramente sobre a campanha. A primeira é a imigração, dilema que divide internamente ambos os partidos. Os EUA abrigam, hoje, mais de 10 milhões de imigrantes sem documentos: eles são uma fonte barata de mão-de-obra, mas sua presença é preocupante para muitos. Um grande número de eleitores está determinado a construir muros e expulsar os sem-documentos; sua decisão resulta tanto da convicção de que não se pode tolerar a violação da lei nessa escala como do receio de que a cultura americana não possa coexistir com dezenas de milhões de imigrantes pobres, culturalmente distintos, falando espanhol (e português). Tanto Romney como Giuliani vêm cortejando esses eleitores e, se um deles for nomeado candidato republicano, a imigração será injetada na campanha com uma retórica incendiária.De maior importância é a guerra no Iraque. Nos últimos meses, ela pesou menos porque os níveis de violência lá diminuíram e porque as propostas de quase todos os candidatos têm muito em comum: todos defendem uma retirada escalonada de tropas condicionada a um aumento da capacidade, aceitação e estabilidade do governo do Iraque. Essa, porém, é uma questão sobre a qual os candidatos não têm controle: se aumentar a violência sectária ou os ataques a soldados americanos entre agora e novembro, todos terão de enfrentar escolhas difíceis ao invés de esboçar cenários de saída otimistas. É bem provável que a guerra continue sendo um problema dominante que se colocará ao próximo presidente - e não é totalmente improvável que ela prejudique séria e rapidamente a próxima administração, seja lá quem for eleito. Um erro tão grave quanto foi a decisão de invadir o Iraque não vai ter soluções fáceis (ou boas).Os múltiplos fracassos do atual governo - a guerra, a corrupção, a politização do Departamento de Justiça, as deficiências da política educacional e o descaso com o fiasco das hipotecas de alto risco (subprime) que parece estar afundando a economia na recessão - estabeleceram o palco para o retorno dos democratas ao poder. Além disso, é bastante provável que os democratas continuem controlando o Congresso após 2008.Só que não são apenas partidos que decidem eleições. Elas giram ao redor das personalidades dos candidatos e sobre temas que ninguém comenta abertamente, como raça, religião e etnia. A eleição de um democrata, portanto, não está nem um pouco garantida. Hillary Clinton é a mais provável nomeada democrata, mas ela é detestada por milhões e vulnerável a ataques pessoais; há também muitos que preferem não assistir a uma volta da novela da família Clinton à Casa Branca. Barack Obama é carismático e envolvente, mas resta ver se um negro com nome que soa estrangeiro pode ser eleito presidente de um país onde a raça tem sido uma questão saliente há dois séculos.O resultado - e a natureza da campanha - também será influenciado por um sistema eleitoral peculiar, no qual é mais importante vencer em alguns Estados do que no resultado geral do país. O mapa eleitoral em 2008 seguramente será parecido com os de 2000 e 2004: os democratas vencerão no Nordeste e na Califórnia, enquanto os republicanos levarão o Sul e muitos Estados predominantemente rurais a oeste do Mississippi. Somente uma dúzia de Estados (incluindo Flórida, Pensilvânia, Ohio e vários do Meio-Oeste) terão disputas apertadas, e o resultado neles (que determinarão o vencedor) vai depender de as grandes cidades manterem a tradição de votar nos democratas ou de os eleitores mais ricos dos subúrbios sustentarem seu apoio vacilante aos republicanos.As linhas que dividem a política americana dizem menos respeito a região do que a classe, etnicidade e raça. Isso não mudará em 2008. O que decidirá a eleição, em novembro, será a capacidade dos candidatos de aguçar, abrandar ou redefinir essas divisões em um punhado de Estados críticos. *Alexander Keyssar é professor de História e Política Social da Escola de Administração Pública Kennedy da Universidade HarvardEmbates internacionais2007>>18/4Sunitas versus xiitasUma série de atentados contra xiitas mata mais de 240 pessoas no Iraque. Em um único ataque, 140 são mortos em Bagdá. Foi o dia mais violento na capital desde o lançamento do plano de segurança dos EUA, em fevereiro, cujo objetivo era impedir uma guerra civil entre sunitas e xiitas. A estratégia americana decepciona e a violência sectária continua alta no país.20/5Líbano e Fatah al-IslamO Exército libanês entra em choque com o grupo radical Fatah al-Islam no campo de refugiados palestinos Nahr al-Bared, norte do país. Três meses depois, os militares retomam o controle do campo. O saldo do pior conflito interno no Líbano desde a guerra civil (1975- 1990) é de quase 400 mortos.14/6Hamas domina GazaO movimento radical palestino Hamas assume o controle da Faixa de Gaza após derrotar as forças da Autoridade Palestina (AP) em combates que deixam 110 mortos. O presidente da AP, Mahmud Abbas, dissolve o governo de união nacional formado em março para conter a disputa entre as facções. Israel volta a realizar ofensivas em Gaza e declara a região uma "entidade hostil", ameaçando cortar o fornecimento de eletricidade e combustível. Abbas ganha apoio israelense e da comunidade internacional. Os confrontos continuam.17/10Tensão entre EUA e IrãO presidente dos EUA, George W. Bush, afirma que os líderes mundiais devem impedir que o Irã tenha armas nucleares "se quiserem evitar a 3ª Guerra Mundial". Semanas depois, um relatório feito por 16 agências de inteligência americanas, entre elas a CIA, revela que o Irã suspendeu em 2003 seu programa de armas nucleares. 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