Quem pariu Demóstenes?

Senador cassado é produto de oposição performática e moralista que se manifesta não importando qual seja o governo, diz professor

Carlos Melo, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h11

Ao longo dos meses, a cassação de Demóstenes Torres tornou-se tão inevitável quanto natural. Até seu advogado preferiu, antes, contestar a legalidade das provas do que a veracidade dos fatos. As evidências do envolvimento do senador com o contraventor, aliadas ao revanchismo de desafetos, foram avassaladoras. Aos seus pedidos de perdão só restaram ser patéticos. Não saberia Demóstenes que não há maior prazer do que ver o feiticeiro morrer do próprio feitiço? Ou, como se diz, que "filho feio não tem pai"?

Mas, à parte do evento, há a dinâmica do fato. Inicia-se na relação da sociedade com a política, seus efeitos na aproximação dessa com o crime organizado, e desemboca no papel que um personagem como Demóstenes assume no teatro político nacional, sua importância num deserto de liderança. Uma dinâmica que precisa ser compreendida.

Em primeiro lugar, cabe avaliar a relação entre sociedade, política, crime e campanhas eleitorais. Não se sabe bem quem nasceu primeiro, se a desconfiança em relação à honestidade dos políticos, que fez com que a sociedade se afastasse da política, ou se o afastamento da sociedade, que fez com que proliferassem a esperteza e a desonestidade nesse meio. Nem todos os políticos são mal-intencionados ou corruptos. Mas a banda podre se expande quanto mais a sociedade crê na política como coisa de malandro. Penhorada, a malandragem cresce e explora a "reserva de mercado". Os mais sérios resistem por um tempo. Por fim, muitos desistem ou são afastados.

Esse distanciamento nasce da visão de que "esse negócio de sociedade não existe, o que existe são os indivíduos e suas famílias". A frase é atribuída a Margareth Thatcher, mas a mentalidade a precede e, mais que isso, demonstra que o fenômeno é mais amplo que o Brasil. Trata-se de um modo de ver prejudicial a todos. Mesmo por uma questão de interesse pessoal, melhor seria aceitar que a sociedade existe, sim, e estamos todos sujeitos a ela. A forma de negociar as condições dessa convivência inevitável é, ainda, por meio da política.

O contrário disso não implica condenar o egoísmo - um mal menor, além de uma consideração moral sem muita importância no processo -, mas sobretudo o alheamento, a omissão, a ausência de fiscalização e, portanto, a permissividade. Remetem-se os problemas a uma abstração: a qualidade das instituições. Instituições, no entanto, são composições muito concretas, não brotam do chão ou caem das nuvens. Resultam da interação social. Licenciosas ou eficientes, serão reflexo da sociedade.

O caldo de cultura para a aproximação entre interesses privados, escusos e aqueles que restaram na condução da política está dado: o desinteresse permite ilícitos, fraudes, esquemas e, por fim, a banalização de escândalos. Junte-se a isso os exorbitantes valores das campanhas eleitorais. A necessidade de financiamento campeia em terreno vasto e livre para a associação entre a política e o crime.

O sistema, assim, torna-se refratário à modernização e à transparência. Formam-se pactos e corporações, a mudança é mais custosa, a aprovação de projetos submete-se à lógica de esquemas, o Congresso vira balcão, o patrimonialismo se fortalece. A burocracia se expande e elevam-se os custos Brasil. Não há reforma, o desenvolvimento e o bem-estar estagnam ou ficam aquém do possível. Em que pesem idiossincrasias dos governos, o processo é mais amplo que eles.

Paradoxalmente, uma parcela da sociedade, formada por setores médios, urbanos, que arcam com custos por meio de impostos e não percebem retornos significativos do Estado, vivendo o caos das cidades, desenvolve ainda maior asco à política. Indigna-se, denuncia e maldiz: cria ícones nos parlamentos e na mídia. Representa a fúria, mas não produz nada de concreto.

Antes de captar o processo e suas causas, buscar a transformação, desenvolve-se uma postura blasé. Confere-se responsabilidades à "falta de cultura desse povo" (sic), à "ignorância dos outros", "aos políticos em geral". Muito facilmente, taxam-se os desafetos de "governistas" ou "golpistas". O fato é que prolifera todo tipo de preconceito, restrições estéticas regionais e sociais. Diletantismo de salões da classe média, não se busca alternativa. Romantizam-se, apenas, as soluções, oposicionismo que termina em si próprio, um reacionarismo de ânimo.

Surge daí menos uma crítica substantiva do que concorrencial, uma oposição performática, baseada na histeria e no moralismo. Não raro, no farisaísmo. Não importa qual seja o governo. Se do PT, essa oposição gravitará em torno do PSDB, ou vice-versa. Foi nesse pântano que nasceu e se desenvolveu a figura pública de Demóstenes Torres. Quem o pariu foi essa mentalidade antipolítica raivosa e, no entanto, vazia. Mas quem o pariu não o embala: sua queda foi sucedida de enorme silêncio e alguns risos amarelos.

CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER - INSTITUTO DE ENSINO E PESQUISA

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