Quem são eles

Presença de extrema direita nos protestos de Kiev preocupa mas não é predominante, afirma analista

Joshua Keating*, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h12

Se a agitação sangrenta na Ucrânia foi vista no Ocidente principalmente como uma disputa entre defensores da democracia pró-europeus e um governo mais e mais autoritário sob a influência de Moscou, a posição oficial russa sobre os fatos vai no sentido de outra realidade: os governos ocidentais são uns tolos ingênuos que apoiam extremistas violentos com tendências fascistas de extrema direita.

O ministério russo do Exterior chamou os protestos de "Revolução Marrom", comparando-os à ascensão dos nazistas ao poder no anos 1930. O ministro Serguei Lavrov perguntou: "Por que ninguém condena aqueles que tomam edifícios do governo, atacam e queimam policiais e gritam slogans antissemitas?"

O governo russo tem por hábito rotular situações com certa informalidade, mas neste caso - embora, sem dúvida, defendendo os próprios interesses - não está totalmente equivocado.

Uma das três figuras da coalizão que lidera o movimento Maidan, ao lado do boxeador Vitali Klitschko e do ex-ministro do Exterior ucraniano Arseniy Yatsenyuk, é Oleh Tyahnybok, líder do partido nacionalista Svoboda. Ele tem por hábito fazer afirmações como a de que o governo do país é uma "máfia judaico-russa". O partido tem raízes nas milícias que lutaram ao lado dos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial e era conhecido como Partido Nacional Socialista da Ucrânia até 2004. No mês passado seus membros realizaram uma marcha com tochas em homenagem a Stepan Bandera - figura controvertida considerada por alguns colaborador nazista.

Em 2012, a eleição do Svoboda para o Parlamento pela primeira vez preocupou muitos judeus ucranianos, apesar de Tyahnybok ter se defendido, de modo pouco convincente, das acusações de antissemitismo. Ele afirmou que "pessoalmente não tenho nada contra os judeus comuns e até tenho amigos judeus, mas sim contra um grupo de oligarcas judeus que controla a Ucrânia e contra bolcheviques judeus (no passado)".

Claro que os protestos contra o governo por parte daqueles que defendem a integração da Ucrânia na Europa começou antes de o Svoboda aparecer em cena. E a presença do partido não representa todos - ou mesmo a maioria - dos manifestantes em Kiev, entre eles, um grande número de judeus. Mas o papel de Tyahnybok certamente constrangeu os partidários internacionais do movimento.

Obviamente o líder do Svoboda não participou da reunião em Berlim entre a chanceler Angela Merkel e Vitali Klitschko e Arseniy Yatsenyuk, figuras mais palatáveis. O senador John McCain foi criticado por dividir a tribuna com ele quando visitou Kiev em novembro. Mais recentemente, Tyanhybok reuniu-se com a secretária assistente de Estado americana, Victoria Nuland e a comissária para assuntos estrangeiros da União Europeia, Catherine Ashton.

Mesmo assim, a acusação de que o movimento Euromaidan é caracterizado primariamente pelo fascismo e o antissemitismo não tem muita substância, tendo em vista as pessoas que a fazem, como afirmou Timothy Snyder na New York Review of Books:

"Os protestos na Praça Maidan significam o retorno do Nacional Socialismo à Europa - isso é o que vem sendo repetido pela propaganda russa e por amigos do Kremlin na Ucrânia. O ministro russo do Exterior censurou em Munique os alemães pelo apoio a pessoas que saúdam Hitler. A mídia russa afirma continuamente que os ucranianos que protestam são nazistas. Naturalmente é importante prestar atenção ao papel da extrema direita na política e na história ucranianas.

"Ela ainda tem uma forte presença hoje, embora seja menos importante que na França, Áustria ou Holanda. Mas é o regime ucraniano, mais que seus oponentes, que recorre ao antissemitismo, informando sua polícia de choque que a oposição é liderada por judeus. Em outras palavras, o governo ucraniano está dizendo a si mesmo que seus oponentes são judeus e para nós que seus oponentes são nazistas.

"O estranho no caso de Moscou é a ideologia política daqueles que fazem tais afirmações. A União Eurasiana (proposta por Vladimir Putin) é inimiga da União Europeia não apenas em termos de estratégia, mas de ideologia. A União Europeia tem por fundamento uma lição histórica: a de que as guerras do século 20 foram baseadas em ideias falsas e perigosas, o nacional-socialismo e o stalinismo, que devem ser rejeitados e de fato derrotados por um sistema que garanta mercados livres, livre movimentação das pessoas e o Estado do bem-estar social. O eurasianismo, ao contrário, é apresentado pelos defensores como o oposto da democracia liberal."

Alguns também acusam o presidente Viktor Yanukovich de deliberadamente abrir caminho para a ascensão do Svoboda na Ucrânia como um oponente político útil. Se isso é verdade, foi um enorme erro de cálculo da parte do presidente.

A projeção do partido dentro do movimento de oposição com certeza é preocupante, não só diante da possibilidade de ele assumir um papel de destaque no campo político no futuro, mas por que permitiu a um presidente cada vez mais autoritário e seus flagrantemente autoritários patrocinadores internacionais alegarem que seus oponentes são os únicos que representam uma ameaça à democracia.

*Joshua Keating é redator da revista eletrônica Slate, na qual este texto foi originalmente publicado e na qual mantém o blog 'World'. Keating escreve sobre política internacional.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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