Quem são estas mulheres?

Personagens de ?Sex and the City? surgem articuladas e livres. Mas se submetem a rituais de humilhação pré-feminista

Lúcia Guimarães*, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2008 | 21h05

O juiz Antonin Scalia, da Suprema Corte Americana, é um conservador escancarado, um juiz ideólogo, embora proteste contra a militância judiciária. "Get over it!" ("Superem isto!"), ele exclamou, impaciente, quando a repórter do 60 Minutes lhe perguntou recentemente se a decisão de dar a vitória a George Bush em 2000 foi política e não jurídica. O filme Recount, da HBO, que tem sido reprisado nas últimas semanas, reabriu para muitos a ferida da decisão histórica do caso Bush versus Gore que instalou George W. na Casa Banca. O filme inspirou uma recontagem das múltiplas conseqüências do voto da Suprema Corte por 5 a 4.Guardo a edição amarelada de 25 de dezembro de 2000 da revista New Republic com a manchete em letras garrafais, sobre a fachada da Suprema Corte: "Desgraça", título do ensaio assinado por Jeffrey Rosen, um dos maiores analistas de lei constitucional do país.E o que tem em comum o retrocesso político americano e o quarteto de Sex and the City? Um encontro fortuito e furtivo na noite nova-iorquina. A adorável Sarah Jessica Parker acabara de gravar uma entrevista ao canal 13, da rede de TV pública, para promover o filme baseado na série que protagonizou e produziu. Parou no pátio externo para fumar quando, segundo uma testemunha relatou à revista New York, o sujeito corpulento saltou do carro Lincoln Town e aproximou-se da atriz minúscula. Despido da toga, mas munido de múltiplos argumentos, Antonin Scalia deitou sobre a perplexa Sarah Jessica seu arrazoado de loas a Sex and the City. Antes de dar ganho de causa à série e ao filme, o poderoso árbitro, insuspeito groupie e companheiro de caça de Dick Cheney, pediu para filar, não um autógrafo, mas um cigarro da atriz! Ela acatou imediatamente - e quem não faria o mesmo? - ao enfrentar o maquiavélico jurista que articulou a entrega do poder ao futuro responsável pela guerra no Iraque e assassino serial da língua inglesa? Se eu fosse Carrie Bradshaw, passaria a bolsa Vuitton e o relógio também.Tenho me desviado da ira de mulheres que me insultam porque não coleciono episódios de Sex and the City em DVD e não convidei 12 amigas para ir ao cinema assistir ao filme do mesmo nome (duração: 148 minutos), nem fui tomar cosmopolitans com elas depois da sessão. Na semana de estréia nos Estados Unidos, Sex and the City derrubou Indiana Jones do topo da bilheteria. A série foi um fenômeno quando estreou em 1998. Trouxe uma linguagem inovadora e, pela primeira vez, conferiu narrativa a mulheres solteiras acima de 30 anos que tinham poder aquisitivo, educação e liberdade sexual. O que decidiram fazer com tudo isso é outro papo.Jamais teria tido o mesmo impacto se fosse Sex and the City of Milwaukee. Acredito que haja intensa atividade sexual no Wisconsin. Mas os mojitos e cosmos lá, além de não custarem US$ 15, não são cercados da mesma energia nervosa nem pedidos pelo elenco de habitantes que continua a fazer de Nova York esta mistura de talento, ambição e, vamos ser francos, voracidade. Sex and the City foi baseada nas explorações reais e às vezes autobiográficas que Candace Bushnell publicava no semanário socialite The New York Observer e transformou em livro. Ela hoje vive casada, em alguma tranqüilidade idílica fora de Nova York.A engenhosa campanha de marketing que antecedeu o lançamento encontrou um exército de fãs ansiosas para reviver sua conexão com Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte. Uma profissional inglesa torrou sua poupança para viajar a Nova York e perdeu US$ 22 mil num embuste que lhe daria acesso à estréia no Radio City Music Hall e a ter contato com as atrizes nos bastidores. Até 2004, quando Sex and the City exibiu seu último episódio inédito, tive que dar satisfações a amigas que se enroscavam com seus travesseiros para assistir aos episódios que, não é surpresa, continuam a ser reprisados. Depois de me divertir inicialmente com a audácia dos temas, hoje completamente superada por outras séries como The L Word (lésbicas com poder aquisitivo) e Mad Men (executivos com poder aquisitivo), passei a trocar de canal para mais escapismo na ficção. Não preciso me identificar literalmente com a governanta Jane Eyre para desfrutar das boas remontagens do clássico de Charlotte Brontë.Mas quem são estas mulheres de Sex and the City? Certamente não as mulheres que conheci e conheço. Para começo de conversa, comprar sapatos de US$ 1 mil era coisa de perua alienada. Falávamos dos homens com desejo, insegurança, ressentimento e encanto, mas mulheres bem-educadas não confundiam liberação com a crassa descrição cirúrgica de cada encontro sexual. E tínhamos interesses demais para falar de homens sem parar. Conversávamos sobre o mundo ao largo e nos mobilizavam tanto o Oriente Médio quanto a próxima gravação do Caetano Veloso.As mulheres de Sex and the City têm o poder de articular o mundo à sua volta, podem pagar seu aluguel e sua conta no restaurante, mas se submetem a rituais de humilhação pré-feminista. Suas aventuras, que terminam em rejeição erótica e afetiva, não deixam cicatrizes e essa falsificação da psicologia feminina velejou impune. Não era segredo nenhum, em Manhattan, que Samantha, a mais "liberada" das quatro, era inspirada no clichê de um gay nova-iorquino. Michael Patrick King, diretor do filme e redator da série, é gay. Os gays de fato na história tinham baixa auto-estima.Disse bem o autor Lee Siegel, entrevistado nestas páginas em fevereiro: "Na América urbana, você não encontra um parceiro romântico tanto quanto herda o resultado dos crimes românticos de alguém. Algum dia, vão televisionar a verdadeira história do sexo e da cidade e vão chamá-la de Julgamento em Nuremberg." (Ensaio incluído no livro Falling Upwards, de 2006).O quarteto no filme faz concessões ou consegue o que quer (consumo e estabilidade). É o desfecho temporário para personagens que passaram dez anos oscilando entre a obsessão com o anel - a aceitação social trazida pelo casamento - e a promiscuidade sexual, dois extremos que não reconheço entre mulheres educadas e não psicóticas. Elas celebram a confusão entre o poder de compra com a compra de coisas para tapar o buraco existencial.O preço de um par de Manolo Blahniks com salto stiletto ainda parece uma pechincha se comparado ao custo emocional da vida em Sex and the City. *guimaraesml@gmail.com

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