Quem vai salvar quem?

No vórtex contestatório que levanta pessoas em todo o planeta, eis que chega ao Brasil a ira santa contra a experimentação animal. Ativistas invadem laboratórios e retiram cães, para desespero dos cientistas que pesquisavam remédios oncológicos com esses animais. Confrontam-se argumentos. Há ética em submeter beagles adoráveis à experimentação fria? Por outro lado, será ético criar cães em apartamentos minúsculos, permitindo que desenvolvam problemas renais por baixa frequência de micção e obesidade por falta de exercício? Os ativistas acham que os cientistas são uns animais e vice-versa, como se isso fosse a maior ofensa.

SIDARTA RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h17

O tema é forte e mobiliza paixões. São inegáveis os avanços para a saúde humana obtidos graças à experimentação animal, tais como vacinas, antibióticos, transplantes e reconstituição de órgãos. Sem a vivissecção, seria hoje impossível seguir avançando nas pesquisas sobre câncer, aids e doenças degenerativas, entre muitas outras. Mas se a pesquisa científica é patrimônio da humanidade, não há quem não se compadeça de um cãozinho melancólico.

O momento é oportuno para questionar injustiças e olhar de frente a questão dos direitos dos animais. Em perspectiva, nosso sucesso como espécie depende há milhares de anos da exploração de outras formas de vida. Nossos ancestrais nômades aprenderam a extrair de outros seres vivos seus alimentos, remédios, vestuário e serviços variados, domesticando espécies e criando novas raças a serviço do bicho homem. Não é exagero dizer que, sem tal domínio de outros seres, não haveria civilização. Portanto, o uso dos animais pela ciência nos últimos séculos, seja para compreender a biologia ou para resolver problemas práticos das pessoas, se configurou num contexto em que animais são coisas.

O problema é que não são. Animais possuem sistemas nervosos e isso cria um problema moral. Possivelmente todos os animais sentem dor e são capazes de tentar evitar sofrimento. Inúmeras espécies de vertebrados e mesmo invertebrados exibem algum tipo de cuidado parental. A consciência não é um dom exclusivamente humano, mas uma função fisiológica que, apesar de mal compreendida em seus mecanismos, ocorre sob distintas formas em muitas espécies diferentes. Levar em consideração todos esses aspectos é algo recente entre nós, homens e mulheres herdeiros de milênios de escravismo, utilitarismo e mesmo canibalismo. O passado da humanidade é prenhe de violência e brutalidade, mas também somos capazes de solidariedade e respeito ao próximo.

Por isso é fundamental lembrar que é justamente no âmbito da ciência que mais se avançou para dar aos animais tratamento condizente com sua condição sensorial e afetiva. No Brasil de algumas décadas atrás, não havia normas claras para a pesquisa experimental com modelos animais. Com a promulgação da Lei Arouca (Nº 11.794, de 8 de Outubro de 2008), passamos a dispor de uma moderna legislação para regular as Comissões de Ética no Uso de Animais (Ceuas) e o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea). Hoje a pesquisa científica brasileira obedece a padrão internacional que inibe sofrimento desnecessário ou extremo, limita o número de animais utilizados e normatiza a supervisão da pesquisa com animais.

Erra o alvo quem ataca a ciência, pois essa não apenas se preocupa com o bem-estar dos animais como avança no sentido de compreendê-los. Se quisermos realmente encarar o inferno do desrespeito ao outro ser vivo, miremos corajosamente onde isso é mais gritante: os criatórios e abatedouros de gado e aves. Infelizmente ainda é comum que esses animais sejam mantidos em ambientes insalubres e superlotados, submetidos a regimes de estimulação sensorial anormal, alimentação excessiva, manipulação hormonal, mutilação, castração e pânico da morte anunciada. Tudo isso em uma escala tão colossal que não se dá ao bicho mais do que um número e um carimbo da vigilância sanitária. Se cada pessoa que come carne tivesse plena consciência de tudo isso ao ingerir o alimento, haveria tamanho consumo desse produto? O que podemos fazer para diminuir tanto sofrimento? A carne de laboratório, livre de sistema nervoso, rica cultura de tecidos muscular, conjuntivo e adiposo, já é uma realidade. No futuro próximo, tem grande probabilidade de tornar-se mais barata, saborosa e saudável que a carne do animal de criação. Quem quer picanha de laboratório?

Se quisermos realmente visitar a estação final de horrores daquilo que pulsa e empatiza, desçamos às prisões, delegacias, masmorras, escravarias e outros centros de desespero de nosso tempo. Ali onde sofre e trucida a fera humana, atrás das grades e dentro do saco plástico universal, quem vai salvar quem? Muitos dirão que esses, os humanos aprisionados e torturados, são bichos culpados que merecem o suplício. E no entanto, como ensinam o cristianismo, a psicanálise e a neurociência, aqueles são sofredores como todos nós, afetados pela genética e pelo ambiente, por vezes levados a loucuras pela necessidade das encruzilhadas. Somos todos de carne e osso e o desafio é conviver em paz. Como na canção de Gil, "não há o que perdoar. Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão". *SIDARTA RIBEIRO É PROFESSOR TITULAR DE NEUROCIÊNCIAS DA UFRN

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