Quer levar pra casa?

Palmirinha se demitiu para descansar. Mas já está com o passe à venda

Mônica Manir,

11 de setembro de 2010 | 14h27

Ela pega o microfone, quer dizer, o interfone e dá uma chamada no porteiro: "Como o senhor manda a moça subir pela cozinha? Ela é jornalista, viu?" Tudo certo, Palmirinha, era por onde a entrevista deveria começar mesmo. A área de trabalho da culinarista não tem bancada de mármore nem panelas Le Creuset. É clean, de uma simplicidade palmirística. Mas, pela ausência de cadeiras, ela prefere conversar na sala de visitas de dois pisos. Só deu para bater o olho numa clareira no armário da cozinha, onde imperam uma Nossa Senhora e uma taça vermelha de pé longo no lugar do micro. "Micro-ondas? Eu praticamente na minha cozinha eu não tenho." Enquanto alguns fazem de tudo com o bicho, ela o deu de presente não lembra pra quem. "Você põe salgadinho ali e, se deixar pra comer mais tarde, ele endurece." Na visão dela, essa espiriteira de luxo é isso mesmo: um esquentador de comida congelada. Prefere as coisas antiga, sem esse no final. É de outros tempo, portanto. Mas está à espera da modernidade.

 

 

Recém-saída da TV Gazeta, onde gravou o último programa na semana passada, Palmirinha se lança para novidades de chinelinho de dedo e meia de seda. Não foi demitida, como se propagou. Pediu as contas, algo que já vinha ensaiando havia uns três anos. "Eu falava para mim mesma: ‘Este ano não faço a ceia de Natal da tevê’. E fazia." Reclamava especialmente da falta de uma ajudante e da ausência de férias. Em 11 anos e 3 meses na Gazeta, saiu apenas no período de festas de fim de ano e alguns dias em julhos alternados. De segunda a sexta, levantava às 5h30 para preparar os pratos e ajeitar o material do dia, que tinham de ficar prontos até às 13h10 (13h50, no período eleitoral), quando começava o TV Culinária. Finito o programa, 45 minutos depois, distribuía os quitutes "por baixo do pano" para os contrarregras e cameramen e voltava para o apartamento da Vila Mariana. Aos sábados chamava um táxi para fazer o supermercado do programa e dar uma escova no visual. Aos domingos pegava seu Dona Benta sem capa, mais uns livros surrados, tirava um ingrediente, juntava outro e preparava testes no quatro-bocas de casa. Não raro dormia na sala, vendo clássicos como A Ponte de Vaterlou e Encontro nos Bosque de Viena, seus preferidos.

 

 

Três meses atrás, com o aval das três filhas, dos três genros e dos seis netos, mais o tatibitate da bisneta, disse chega. Deu. Bai-bai. Não dava mais. A emissora fez contrapropostas que mencionavam assistente e uma cozinha nova, ou então uma carga horária mais leve, mas Palmirinha estava irredutível. Aos 79 anos zerados em junho, queria conviver com a família e viajar. Quer ainda. Do Brasil conhece o auditório de hotéis no Rio, em Salvador, Brasília, Aracaju e cidadelas do interior de São Paulo, onde se hospedou para dar curso de culinária. Tem um pouquinho de medo de voar, mas fará das tripas coração e, se Deus quiser, conhecerá Nossa Senhora, a de Fátima, em Portugal. A de Aparecida está na lista por causa de promessa antiga e não cumprida: visitar o santuário se a Santa Virgem a iluminasse e desse um futuro bonito para as filhas, com um casamento de melhor sorte que o dela.

 

 

Quem assistiu à Palmirinha desde os tempos da Record sabe que ela nasceu em Bauru, quando a cidade ainda era pequenininha, no tempo do trem de ferro (estrada de ferro, corrige a filha Sandra, discretamente), que veio para São Paulo com 5 anos morar com uma francesa, que voltou para o interior aos 14 quando o pai morreu e que criou sozinha as meninas, como se o marido morto fosse. Na verdade, era separada. Protelou encerrar o casamento porque, na sua época, não pegava bem romper o contrato matrimonial, nem com um companheiro alcoólatra. Quando a segunda filha casou, deu de ombros para o falatório e tirou a aliança. "Meu pai era mais um filho que ela tinha, um filho danado", diz Sandra, justamente a segunda filha, que a assessora full time nas lembranças e nos esquecimentos. Palmirinha não ficou ao deus-dará. Já havia ganhado um dinheirinho vendendo sonhos na rua, sonhos literais, que você pode rechear com creme de confeiteiro ou com caixinhas de pudim pronto.

 

 

Aliás, contava um dia essa história dos sonhos na TV quando um moço de 23 anos, desempregado, jogado num sofá, se aprumou para ouvir. A massa não era nem de éclair, era de pão doce. Ele juntou uns trocados para os ingredientes, comprou o tal pudim pronto e fez 28 sonhos, não 30, como a receita previa. "Deve ter feito uns maiorzinho", calcula Palmeirinha. O moço pôs tudo numa cesta de vime e foi para a praia confirmar a teoria de que basta levantar as mangas para a vida ter rumo. Vendeu a cesta inteira. No outro dia preparou mais doces e o sucesso se repetiu. Hoje tem um quiosque recheado de receitas da senhorinha. "Eu me sinto orgulhosa dessas carta que recebo", diz ela, referindo-se aos e-mails que chegavam via Gazeta. E desenrola a contar da moça que conseguiu pagar a faculdade com a receita de pão de mel da Palmirinha vendido no prédio da universidade, do engenheiro que não virou suco, mas vendedor de empadinha, e da moradora de rua que, depois de ver a culinarista na TV das Casas Bahia, arranjou um jeito de preparar salgados embaixo do viaduto e tinha até um computador, de onde mandou aquela mensagem aparentemente surreal.

 

 

O chef Allan Vila Espejo, dono de 14 restaurantes, que conviveu com a cozinheira Ofélia na época da Bandeirantes e antecedeu Palmirinha na TV Culinária, se mostrava triste com a saída da colega de emissora. "Além de uma pessoa verdadeiramente autêntica, ela é alinhada com a realidade do País", afirma. "Qualquer pessoa que assumir esse horário terá dificuldade para evitar a comparação." A apresentadora Viviane Romanelli foi quem pegou o rojão da hora. Ex-Shoptime, Redetv Shop e BestShopt TV, recebe culinaristas de segunda a quinta e, às sextas, arrisca um macarrão com tomate fresco e manjericão. "Eu apresentava meu programa, fazia sete merchan em 45 minuto, tinha de escolher uma receita que desse tempo pra mim fazer e que agradasse meu público. Já não é mais como era", deixa escapar Palmirinha, cujo ibope era de 1 ponto, média considerada interessante por Allan num horário disputadíssimo como o das 13 horas.

 

 

Jaleco é para os chefs. Ela ajeita o cardigã carmim sobre a camisa. Não gosta de usar blusa sem manga. "Acho que minha época pra isso já passou." Também não mostra interesse pelo jaleco porque entende que estaria se igualando a um chef. "A diferença entre chef de cozinha e culinarista é que chef faz uma faculdade, vai pra fora do Brasil, conhece outros prato, faz curso", explica, na sua perspectiva. "Eu sei fazer todos os pratos que pedirem, mas eu nunca me considero uma chef de cozinha porque jamais vou chegar na altura deles." E essa história de receber convite para voltar a trabalhar com a Ana Maria Braga? "Não sei da onde que surgiu isso de ir pra Globo, mas, se eu fosse convidada, eu gostaria."

 

 

Ana Maria foi quem alcunhou Palmira Onofre de Palmirinha ainda na Record. Quando a primeira foi para a Globo, deixou um recado na secretária eletrônica da segunda dizendo, de forma genérica: "Para onde eu for eu levo vocês". Palmirinha refletiu na época: "Eu falava errado mesmo e ainda falo. Se eu for pra Globo, a primeira vez que eu abrir a boca eles me pegam pelo braço e dizem: ‘Por favor, se retire’". Sonhou com um campo verde, verdinho, sem santo nem nada, que lhe pareceu um sinal para ficar onde estava. Agora, com o nome consagrado em revista mensal, passagem pelo Top Five do CQC, convite para o sofá da Hebe e entrega de prêmio da MTV com modelito do Alexandre "Escovique", acha que tem chance de caminhar por um terreno mais macio na Vênus Platinada. Boninho parece ter opinião diversa. "Palmirinha é uma figura, mas nem pensar", escreveu o diretor da Globo no seu twitter. "Sou a favor da renovação, a Palmirinha teve seu tempo. Parabéns. Para convidar alguém, seria uma chef jovem e moderna."

 

 

Vovó Palmirinha também tem seu Twitter, alimentado pelos netos, e não entende esses comentários de 140 caracteres. Anda mais preocupada com o neto adotivo, Anderson Clayton Ribeiro, que se contorcia no chão da Gazeta para perfazer o Huguinho, seu escada na TV Culinária. O moço, que entrou menino na Gazeta, dois meses depois dela, aguarda seu destino na emissora. Ele diz que não acreditava na saída de sua mentora espiritual e gastronômica, mas já tinha sacado a tensão – ou hipertensão – dos últimos tempos. Marinês Rodrigues, superintendente de programação da Gazeta, insiste que as portas continuam abertas para a culinarista e que o corte no último programa de Palmeirinha foi para poupá-la do sensacionalismo e de um mal súbito por causa da emoção. Palmirinha discorda frontalmente, ajeitando os óculos: "Eu tava falando, dando uma satisfação para as minhas amiguinhas, explicando por que eu tava saindo, que eu ia descansar, e eles me cortaram o microfone. Eu fiquei falando como se estivesse falando com as parede". A emissora aguarda uma oportunidade na agenda de Palmirinha para uma homenagem "no modelo ideal". Os parentes de Palmirinha esperam um buraco na agenda para curti-la até o tutano, com o tempero que a chefe da família quiser.

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