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Queridinho dos maestros

Nos últimos seis anos, o mundo da música clássica vergou sob o peso de uma Mahlermania nunca antes vista nos concertos

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

20 Março 2016 | 06h00

Incomodado com a ambiguidade pública que o atormentou a vida inteira -- fama como maestro, menosprezo em relação a suas composições --, Gustav Mahler (1860-1911) pronunciou a hoje célebre frase: “O meu tempo chegará”. E como. A pouco mais de um século de distância de sua morte, Mahler é hoje tão popular como Beethoven. Corrigindo: ainda mais popular do que o autor da Nona Sinfonia. Nos últimos seis anos – desde as comemorações em 2010 dos 150 anos de seu nascimento e do centenário de morte no ano seguinte --, o mundo vergou sob o peso de uma overdose de Mahler nunca antes vista. A Mahlermania começou nos anos 1960 – justamente a data do centenário de nascimento –, impulsionada por Leonard Bernstein (1918-1990) quando era maestro da mesma Filarmônica de Nova York que Mahler regera meio século antes. Bernstein se considerava uma espécie de fênix do compositor-maestro, sentia-se acometido do mesmo mal: compositor injustiçado, regente incensado.

Na cabeça dos programadores das temporadas de concertos brasileiras, Mahler é mais que obsessão. É talismã e carimbo de competência da orquestra. Não tivemos efemérides mahlerianas em 2015 nem neste ano. Mas contabilizam-se no período 14 concertos com uma ou outra de suas nove sinfonias ou então de um dos ciclos de canções sinfônicas. Não são concertos durante a temporada, mas aqueles considerados os mais importantes. Cacoete seguido à risca por três de nossas melhores orquestras integrantes do bloco “Eu sou Mahler”. Osesp e Filarmônica de Minas Gerais abriram e fecharam com Mahler 2015 e repetirão a dose em 2016; a Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo ainda não anunciou o último concerto de 2016, mas deve fechar o bloco Mahlermania, pois já fez Mahler em 2015 (duas vezes) e abriu mês passado a temporada 2016 com... Mahler. A Sinfônica de Heliópolis abriu a temporada de 2015 com Mahler. No Rio de Janeiro a Orquestra Petrobrás e a Orquestra Sinfônica Brasileira farão Mahler em 2016.

Qual o segredo da música de um compositor que desfruta, com suas sinfonias enormes como jiboias, de tão carismática imagem e popularidade? Primeiro, uma vida que parece roteiro de filme. Judeu, teve de se converter ao cristianismo para assumir em 1897 o cargo de titular da Ópera e Filarmônica numa Viena antissemita; aos 41 anos, casou-se com Alma, “femme fatale” de 20 anos que dividiu lençóis com as mais destacadas cabeças intelectuais e artísticas do Império Austro-húngaro. Ela pregou-lhe um par de chifres; ele, impotente, consultou-se com ninguém menos do que Sigmund Freud. Em 1911, já muito doente, sua viagem de navio dos Estados Unidos de volta para casa, com várias paradas, foi manchete na imprensa internacional por semanas. Thomas Mann acompanhou sua agonia até a morte em Viena em 18 de maio. Decidiu ali escrever Morte em Veneza inspirado no regente-compositor.

Meio século depois, Bernstein deu a largada à Mahlermania com a primeira integral das 9 sinfonias em gravações. Luchino Visconti levou o romance de Mann pra telona em 1971. Na trilha sonora, o Adagietto da Quinta Sinfonia, tão popular hoje quanto a quinta e a nona de Beethoven. Três anos depois, Mahler popularizou-se de vez com uma leitura pop do mito pelo cineasta britânico Ken Russell.

Enredos, detalhes, nomes e fatos para deixar qualquer marqueteiro competente com cascatas de orgasmos na hora de “vendê-lo”. Mahler é o primeiro nome compulsivamente posto na planilha das temporadas sinfônicas. Depois vem o resto.

Reconheça-se. Sua música tem poderes mágicos. As sinfonias caminham como romances, já dizia Theodor Adorno, querem contar uma história. Assumem o olhar ingênuo da criança, desejam desesperadamente abraçar o mundo. “Ultrajantemente moderno” e “inocentemente ultrapassado” foram duas das acusações mais frequentes à sua obra enquanto viveu. Hoje, são dois slogans “ultravendedores”. O público debulha-se hoje com “a banal complacência de uma sentimentalidade de costureira” (expressão de Vincent d’Indy). Outro estudioso, Marc Vignal, diz que Mahler “serve-se dos aspectos mais banais para dizer as coisas mais terríveis”.

Quadro sonoro. Tudo porque Mahler usou todos os tipos de música que compunham o quadro sonoro de seu tempo, sem respeitar hierarquias. Nisso foi revolucionário, pós-moderno “avant la lettre”. Tanto valia brincar com a canção folclórica francesa Frère Jacques (na Primeira Sinfonia), com a poesia chinesa (A Canção da Terra) ou fazer irromper o som de bandinhas militares em momentos solenes de suas sinfonias – quebrando hierarquias, derrubando barreiras entre música culta e música popular.

Esta mistura era visceral, fundamental em seu tempo. Mahler viveu mesmo entre dois mundos. Apanhou o melhor do passado; e transformou-o na crônica de um novo mundo, o do século 20. Por isso ainda hoje sua música soa atual. É inclusiva e retoma um caráter narrativo que agrada à pós-modernidade que nos assola. Daí a insistência das orquestras em tocar massivamente suas sinfonias, maravilhosos mosaicos que parecem – mas não são -- música contemporânea. Dão status, são bem recebidas pelas plateias. Mesmo que as execuções sejam, na melhor das hipóteses, no máximo medianas.

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