Quermesse multiestelar

Com Teletons ou aterrissagens hollywoodianas, celebridades tiram sua casquinha da tragédia no Haiti

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2010 | 01h01

A impressão que se tem é que todo o mundo - de Madonna a George Soros - está ajudando o Haiti. Se com segundas e terceiras intenções, por vaidade ou cruel ganância, só mais tarde saberemos. O fundamental, a esta altura, é a ajuda em si, pecuniária ou material, são as providências de ordem prática, a caridade funcional, eficaz.

Não há McDonald"s no Haiti, mas US$ 1,647 milhão dos muitos milhões que o fundo da Federação Internacional da Cruz Vermelha em favor das vítimas do terremoto recebeu na semana passada foram doados pela "Coca-Cola do hambúrguer". Quase isso a nossa Gisele Bündchen deu do próprio bolso, sem alarde, sem qualquer interesse marqueteiro. Afinal de contas, as chances de os haitianos terem acesso a um Big Mac me parecem infinitamente maiores que a de Porto Príncipe hospedar uma Fashion Week.

Embora um show beneficente de Madonna na capital haitiana também seja mais factível do que um desfile de modas, a namorada de Jesus Luz doou menos que Gisele: US$ 250 mil, destinados a Partners in Health (Sócios na Saúde), entidade sem fins lucrativos que há mais de duas décadas cuida de obras de assistência sanitária no Haiti. E ainda se apresentou no Teleton Hope for Haiti Now (Esperança para o Haiti Já), quermesse multiestelar que George Clooney apresentou de Los Angeles e o rapper haitiano Wyclef Jean de Nova York, na sexta-feira da semana passada, através de um pool de canais abertos e fechados.

Três dias depois do Teleton (que em duas horas arrecadou US$ 57 milhões, recorde nessa modalidade de beneficência eletrônica, criada pelo cômico Jerry Lewis em 1966), outra demonstração de altruísmo hollywoodiano chegou aos lares americanos pela televisão: a triunfal aterrissagem de John Travolta no aeroporto de Porto Príncipe, trazendo na bagagem do seu Boeing 707 particular quatro toneladas de comida, remédios e material hospitalar. Outro recorde batido. Nunca antes na história da filantropia pop um artista incumbiu-se sozinho de tão volumoso frete humanitário.

Antes de dar um viva a Travolta, considere o seguinte: 1) seu avião furou a fila; 2) também a bordo havia uma falange de clérigos da cientologia.

O aeroporto da capital haitiana não suporta mais de 130 aterrissagens por dia. Pelo menos 800 voos humanitários, entre os quais um charter da Médicos Sem Fronteiras, ainda esperavam autorização para voar até o Haiti quando o Boeing de Travolta pousou na pista do Toussaint Louverture. Câmaras estrategicamente colocadas para registrar a triunfal chegada do ator e a mulher, a atriz Kelly Preston, não perderam um segundo sequer de acenos, sorrisos e polegares para cima. Só faltou o tapete vermelho. Mas a intenção era boa.

Boa, em termos. E os cientologistas? Não eram médicos, nem enfermeiras, nem bombeiros, nem lixeiros, nem coveiros, as profissões com maior demanda atualmente no Haiti. O que lá foram fazer? Confortar os sobreviventes? Desviar os haitianos das "impurezas" do vodu para as "purezas" da cientologia?

Os evangelistas do culto inventado pelo americano L. Ron Hubbard não perdem uma oportunidade de fazer proselitismo. Tom Cruise, espécie de cardeal da seita, mandou-se para Nova York no 11 de Setembro e, insatisfeito com a forma como a limpeza do entulho estava sendo feita, bateu de frente com a Agência de Proteção ao Meio Ambiente. Aos bombeiros que haviam sobrevivido à operação de resgate vendeu um programa de "purificação" que, além de desprovido de qualquer credibilidade científica, custava US$ 5 mil per capita.

Travolta esteve em New Orleans quando do flagelo do Katrina. O programa purificador ainda custava cinquenta notas com a efígie de Benjamin Franklin. Por razões óbvias, os cientologistas por ele levados ao Haiti não cobrarão um mísero gourde por qualquer tipo de ajuda espiritual e material que lá tenham ido prestar. A doutrinação, desta vez, será inteiramente gratuita. Como os militares norte-americanos, os cientologistas estão precisando limpar sua barra junto à opinião pública internacional.

Se o Boeing do Travolta criou problemas para o fluxo de voos humanitários para o Haiti, maiores entraves ao processo de socorro aos flagelados haitianos vêm causando os aviões da Força Aérea dos Estados Unidos. Ao privilegiar as questões de estratégia e segurança, dando prioridade ao tráfego militar, a Força Aérea quase transformou o Haiti numa réplica de Bagdá, numa praça de guerra.

O Haiti pode ser comparado, como já foi inúmeras vezes, à New Orleans pós-Katrina, mas ao Iraque, não. É mais fácil de reconstruir, por ser, entre outras coisas, menor, ficar bem mais perto e, também ao contrário da Somália e do Afeganistão, não estar mergulhado na violência. Faltam-lhe infraestrutura, educação, leis confiáveis, mas tem jeito. Mas para isso precisa contar com a ajuda desinteressada das grandes economias, sobretudo das duas, França e Estados Unidos, que mais o prejudicaram nos últimos 300 anos.

Há dias, dois economistas que muito conhecem o país, Paul Collier e Jean-Louis Warnholz, relacionaram, no New York Times, uma série de medidas capazes de pôr a ilha em marcha e até torná-la relativamente próspera no médio prazo. Se conseguisse explorar bem seu café, suas reputadas mangas, seu açúcar (o Haiti já foi a capital do açúcar no Caribe), suas praias e sua nascente indústria de confecção, sairia do atoleiro. Explorar bem implica a construção de boas estradas, bons portos e um upgrade radical no sistema de transporte, para distribuir internamente e exportar os produtos da terra e atrair turistas.

Para salvar o Haiti já sugeriram tanta coisa que eu não saberia selecionar as mais, aparentemente, sensatas e frutíferas. As mais insólitas tampouco, tão numerosas são; nenhuma, porém, mais divertida que a do ex-conselheiro dos governos Reagan e Bush Filho, Elliott Abrams, que, no Washington Post do dia em que o Boeing do Travolta aterrissou em Porto Príncipe, deu o seguinte conselho aos haitianos: "Fujam do Haiti para um país rico".

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