Questão de coerência

Se humanos, os embriões não deveriam ser descartados. Teriam de ser tratados até a morte - e depois dela

Luiz Hildebrando P. da Silva*, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2008 | 22h56

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num momento de irritação, surpreendido pelas câmaras da televisão, deixou transparecê-la, ao expressar com energia seu desagrado com certas atitudes de membros do Poder Judiciário, dizendo que seria melhor para todos se cada um se empenhasse em resolver os problemas que lhe dizem respeito.Eu entendo bem o sentimento que levou o presidente a esse desabafo, porque é o mesmo que sinto ao contemplar o debate que se estende pela mídia sobre a autorização legal de utilização dos embriões humanos, congelados há mais de três anos, para fins de pesquisa científica. A decisão que se espera do Supremo Tribunal Federal é a de decidir se tais embriões podem ser úteis à humanidade, tornando-se acessíveis à experimentação científica ou se eles serão descartados para o lixo. Entretanto, por iniciativa de alguns membros do Judiciário, inspirados por preocupações filosóficas, o problema está sendo levado para o nível filosófico e teológico de saber quando começa a vida. Ora, a origem da vida é um problema que interessa profundamente os cientistas, mas eles não foram capazes, até hoje, apesar dos progressos da biologia, de fornecer explicações convincentes. Para os cientistas, entretanto, não há qualquer dúvida de que a origem de um ser humano se define a partir do momento em que o potencial genético do zigoto, derivado da fecundação, desenvolvendo-se no ambiente condicionador favorável do útero materno, se exprime e se concretiza. Em particular quando a diferenciação embriológica do sistema nervoso permite ao cérebro expressar as funções de memória e reflexão, que são as que distinguem, fundamentalmente, o ser humano dos outros mamíferos e, em particular, dos outros primatas. Os religiosos mantém a esse respeito uma crença que afasta a necessidade de explicações. A vida é objeto de criação pelo todo-poderoso: o embrião é um ser humano desde o momento da concepção. O debate, se for aceito nesse nível, pode-se transformar em verdadeira discussão das quaestiones disputatae das faculdades de teologia no século 14, que se deram também na Academia de Ciências da França, no século 19, entre Couvier e Saint Hilaire, sobre a origem dos dinossauros. É preciso ser consciente das conseqüências que podem advir, se o STF optar por decisões radicais. Se ele decidir que os embriões são seres humanos, criar-se-ia, uma situação excepcionalmente complexa. Eles deverão ser tratados como tal e não poderão ser usados na experimentação científica e também não poderão ser jogados no lixo. Deverão ser seguidos até o falecimento e então enterrados ou cremados com o ritual das religiões respectivas dos conceptores. Isso pode ser de interesse das agências funerárias. Poderá ser também de interesse de biólogos desempregados que criariam Unidades de Biotecnologia, para diagnosticar se um embrião está vivo ou morto, o que é delicado a definir. Será necessário descongelar o embrião (com riscos de lesão que levariam à morte, com processos de assassinato). Se, por critérios científicos, o embrião for declarado vivo, seria necessário recongelar o mesmo, o que leva com freqüência à morte do embrião.Assim, creio que seria melhor deixar de lado as quaestiones disputatae e agir em acordo, como diria Descartes, com a "qualidade humana a mais bem distribuída na espécie - o bom senso". Eu relembraria, a propósito, o bom senso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, no afrontamento radical entre colombianos e equatorianos, optou pela solução do apaziguamento, do reconhecimento das pretensões de uns e outros, mas propondo soluções de entendimento, no interesse da vida dos cidadão conflitantes e de todos os homens do continente.A vida é um processo complexo e dinâmico de recomposição e associação permanente de "elementos", que podemos chamar de vivos, com elementos químicos minerais não vivos. Átomos de enxofre e ferro que compõem nossas proteínas provêm talvez de lavas vulcânicas do Pleistosceno. Os átomos de carbono dos lipídios dos embriões congelados já circularam, nos últimos milhões de anos, por minerais de carbono como os diamantes e grafites ou nas fibras cardíacas de um imperador da Pérsia. Não estranharia que a água dos tecidos dos embriões provenham, de uma lado, das lágrimas de Maria Antonieta ao contemplar, pela última vez, os jardins de Versalhes e, de outro, do cocô de um abutre que devorou restos mortais de um tataravô de um dos conceptores do embrião 3.427x . Essas verdades (ou hipóteses) são válidas para os que pensam que a vida se fez por decisão do poder supremo, como querem uns, ou por complexos processos químicos de formação de macromoléculas e interações moleculares, como querem os cientistas.O respeito à vida não pode ser absoluto. Seria a morte da humanidade. Nós, mamíferos, somos obrigados a destruir a vida, ao ingerir, para sobreviver, plantas ou carnes animais. A partir do momento em que se adquiriu o hábito de trocar a roupa para dormir ou banhar-se, depois que a indústria têxtil produziu tecidos permitindo isso, sacrificamos milhões de piolhos, pulgas e percevejos ao lavar as roupas usadas. Ao tomar uma chuveirada e ensaboarmo-nos, matamos bilhões de bactérias que se multiplicam na pele humana, algumas fontes de doença, mas outras inofensivas ou mesmo úteis. Ao descongelar embriões, os cientistas irão dissociar a células, analisá-las, cultivá-las e estudá-las com carinho. Decifrarão os segredos que elas encerram para permitir que as células bobas do embrião, que apenas se multiplicam, saibam na verdade evoluir para células atléticas dos músculos ou inteligentes como os neurônios do cérebro. Isso permitirá, mais tarde, corrigir defeitos e mutações nos homens vivos, compensar lesões traumáticas, melhorar enfim a vida da humanidade doente e sofredora. Respeito os que se dizem filosoficamente respeitosos da vida em geral. Mas ousaria pensar que, por coerência, se a existência do ser humano é definida na concepção, cada embrião congelado já tem sua alminha reservada. Desde que o potencial de sobrevida do embrião como ser humano está descartado, a alminha dele, na sua inocência, já deve estar no céu. Nesse caso, ela deve pensar que, lá dentro, no escuro e na solidão de um botijão de nitrogênio líquido, seu corpinho é completamente inútil e sem qualquer futuro. O fato de ser descongelado e associar-se aos pesquisadores como contribuinte das pesquisas seria um belo objetivo de vida para seu corpinho inútil. E vou ficar por aqui, antes que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venha dizer que seria melhor eu me ocupar dos problemas que me dizem respeito. *Luiz Hildebrando Pereira da Silva, geneticista e parasitologista, é membro da Academia Brasileira de Ciências e diretor do Instituto de Pesquisa em Patologias Tropicais de Rondônia

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