Questão de identidade

Esporte somente teve cara própria e sucesso internacional quando se assumiu afro-brasileiro

Hans Gumbrecht, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h09

Se uma pessoa não mora no Brasil, ela terá dificuldade para entender por que a coisa é tão preocupante. As notícias que foram se acumulando nas últimas semanas a respeito de incidentes envolvendo racismo no mundo do futebol há muito tempo são bastante comuns aqui, tanto pelo conteúdo dos episódios quanto pela maneira como acontecem. Elas confirmam que, em toda parte, em termos geográficos e sociológicos, no Brasil e na América do Sul os jogadores de futebol (e agora também os árbitros) "de cor" podem tornar-se, a qualquer momento, vítimas de insultos de caráter racista e ofensas não verbais. Na maior parte (mas não exclusivamente), esses insultos são motivados pela frustração de torcedores cujos times foram derrotados ou tiveram uma temporada ruim, e, pelo menos nos países de língua ibérica na América do Sul e na Europa, são obsessivamente repetitivos: o discurso racista em espanhol ou em português, e os gestos que o acompanham, quase sempre associam as pessoas de cor a macacos, e a macacos com bananas. Mas, embora talvez fosse fascinante procurar descobrir as razões específicas dessa fixação escandalosa e infantil, ao mesmo tempo ela implicaria dar a seus autores uma atenção que não merecem.

Ora, se a fenomenologia desses incidentes é tão repetitiva e nada surpreendente, talvez seja válido indagar de um ponto de vista mais realista por que eles estão desencadeando uma cobertura cada vez mais detalhada - e até mesmo irritada - nas últimas semanas. A resposta é óbvia, mesmo porque os fatos novamente são repetitivos: faltam poucas semanas para a realização da Copa do Mundo de futebol no Brasil, e todas as notícias, principalmente as negativas, que tenham a ver com a copa do mundo da Fifa, como o maior evento esportivo recorrente, serão amplificadas no horizonte da mídia global - e portanto afetarão inevitavelmente a imagem do Brasil como nação. Nesse sentido, o racismo não é diferente, por exemplo, da corrupção no setor da construção. Embora não seja especificamente brasileira nem particularmente inerente ao mundo do futebol, neste momento ela pode tornar-se extremamente danosa.

Tudo que se possa pensar, dizer e argumentar nesse contexto parece ser irritantemente familiar e repetitivo. A complacência dos que comemoram sua "solidariedade na luta contra o racismo" é, há muito tempo, redundante e poderá chegar ao exagero. Todos nós também ouvimos, inúmeras vezes, o que o técnico da seleção brasileira voltou a afirmar, com intenções indubitavelmente sinceras, há poucos dias, que ignorar os incidentes de racismo seria a melhor maneira, e talvez até mesmo a mais eficaz, para reduzir sua frequência. Tal opinião implica que o racismo atual nos esportes seja pelo menos em parte produto da cobertura que ele recebe da imprensa - tornando-se, pois, um argumento para a falta de ação.

Pessoalmente, acho intoleráveis essas atitudes acomodadas em relação ao racismo porque seus agentes merecem ser identificados e denunciados publicamente, expostos à execração e punidos. Além disso, os brasileiros responsáveis pela organização da Copa do Mundo, juntamente com os torcedores brasileiros, só merecerão o direito de ignorar o racismo e deixar de lado o desejo de redimir-se desse pecado se puderem dar respostas negativas a estas duas perguntas: em primeiro lugar, se haveria uma relação sistemática entre assistir a jogos de futebol e o racismo; em segundo, se a situação é melhor nos outros esportes e em outros países. A primeira resposta é óbvia, mas nem sequer é mencionada. Quando as pessoas se reúnem no que definimos uma "multidão", seu comportamento deixa de ser constituído por atos individuais ditados por sua mente e pela interação com outras mentes. As massas (ou "corpos místicos", como costumo chamá-las, usando uma metáfora emprestada da teologia cristã) formam-se e em grande parte funcionam como reações em cadeia, em que se copiam os movimentos corporais. Portanto, numa multidão, a vigilância do indivíduo e seu autocontrole diminuem, e o que acaba emergindo são conteúdos e sinais de ressentimento que normalmente (e felizmente) são freados pelo autocontrole.

Embora as pessoas sejam propensas a supor que esse ressentimento exista em toda parte e, por esse motivo, as situações em que haja uma presença física coletiva inevitavelmente venham a produzir racismo, suas expressões e ícones estão praticamente ausentes de alguns outros esportes de equipes (por exemplo, o futebol americano e o basquete nos EUA) e de algumas seleções de outros países. E, apesar de estarem presentes em toda a América do Sul, Itália, Espanha (e, em parte, sob a forma de antissemitismo, até na primeira divisão britânica), na Bundesliga alemã praticamente não é observado nenhum incidente racista. Nascido na Alemanha e atualmente cidadão americano, sinto-me cautelosamente feliz com essas exceções - mas devo admitir que não estou de todo certo sobre suas origens e por isso reluto em extrair uma receita.

Como o racismo existe de maneira mais visível nos dois outros esportes de equipe favoritos da América do Norte, o beisebol e o hóquei no gelo (e embora ambos sejam americanos, o futebol americano e o basquete sejam famosos por sua homofobia), podemos indagar se é essa relação institucional particularmente íntima entre a competição amadora e a profissional no futebol americano e no basquete que tem mantido o racismo mais sob controle. Quanto à Bundesliga, imagino que, como prolongada reação interna ao racismo na história alemã, proibições e punições estejam mais presentes lá do que, por exemplo, no Brasil.

Essas peculiares circunstâncias institucionais nacionais, como a relação entre os esportes amadores e profissionais nos Estados Unidos ou a reação da Alemanha a seu passado, não são transferíveis de uma sociedade para outra. E no entanto, elas mostram que, embora temporariamente e de maneira precária, é possível reprimir e redimir-se de impulsos racistas. Contudo, enquanto a repressão e a redenção parecerem viáveis, o fato de se ignorar o racismo com uma atitude ativa ou passiva passa a ser visto como complacência, tolerância e solidariedade. Participar do sentimento de solidariedade global antirracista não é suficiente para o Brasil, a nação que sedia a Copa do Mundo. Ele precisará ainda de prontidão, vigilância e até de atitudes duras - e quem sabe uma consciência mais profunda do fato histórico, afirmado primeiramente pelo grande antropólogo Gilberto Freyre, de que o futebol brasileiro só adquiriu uma identidade própria e o sucesso internacional quando tal identidade se tornou afro-brasileira, por ocasião da Copa de 1938, na França. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA *HANS ULRICH GUMBRECHT É PROFESSOR DE , LITERATURA NA UNIVERSIDADE STANFORD , E AUTOR DE ELOGIO DA BELEZA ATLÉTICA , (COMPANHIA DAS LETRAS)

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