Fred Tornhill/Reuters
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Rachel Cusk volta ao romance após a trilogia 'Esboço' com 'Second Place'

O novo romance de Rachel Cusk se passa no retiro particular de um artista na propriedade de uma escritora

Dwight Garner, The New York Times

30 de abril de 2021 | 09h00

Você sabe quando está lendo uma página de ficção de Rachel Cusk. Os seus narradores enfatizam com insistência, embora friamente, os nós centrais do ser. Eles analisam cada emoção como se tivesse sido inventada há pouco. Nada é estranho.

O caráter ligeiramente imparcial, frio-quente da obra de Cusk é enfatizado pelo uso insistente do seu editor da fonte Optima sem serifas, com amplos espaços entre as linhas. Optima é inusitado em um romance: ele dá ideia, para mim pelo menos, de uma sensação fria do vazio.

A escritora utiliza Optima pelo menos desde a trilogia Esboço, romances que tornaram o seu nome impossível de esquecer. É peculiar, à sua maneira, como a fonte Irvin da revista The New Yorker. Tentei usá-la para digitar este artigo. Eu me senti como se trabalhasse no laptop de Laurie Anderson.

Second Place é o primeiro romance de Cusk desde o livro que concluiu a trilogia Esboço, Mérito (Kudos, no original em inglês), em 2018. Os admiradores da trilogia se sentirão em casa aqui, talvez até demais.

A narradora é familiar: uma escritora profundamente observadora de meia idade. Os temas são semelhantes demais, arte, literatura, viagens, destino, casas, beleza física e a consciência de seu fenecimento, e a maternidade, descrita aqui como “o mais perto que a maioria das pessoas possam chegar à oportunidade para exercer a tirania”.

Mas muitas coisas são diferentes. Ao contrário dos romances de Outline, Second Place conta uma única história que se passa em uma única casa; e fala de um grupo limitado de personagens. Mais notavelmente, este livro tem a qualidade de estufa giratória, que é nova.

É como se Cusk estivesse lendo os melhores romances de Joyce Carol Oates. Ela explora o cerne gótico da família e os envolvimentos românticos. Eu enchi as margens das páginas de marcas de verificação e de admiração, mas também com pontos de exclamação. Este romance empurra os ponteiros para o vermelho.

A história é a seguinte: M, uma escritora que vive com o segundo marido, Tony, em uma parte remota de uma propriedade, convida L, um jovem pintor famoso cuja obra ela admira, a vir e ficar em seu “segundo lugar”, uma cabana que é uma espécie de refúgio de artista, que eles costumam emprestar.

“Gostaria que você viesse para cá, para ver como é com os seus próprios olhos”, escreve M a L, descrevendo o enigma que é a paisagem. “É repleto de desolação, conforto e mistério, ainda não revelou o seu segredo a ninguém”.

Este é provavelmente o lugar para parar e dizer que Cusk nos diz, em um breve posfácio, que o seu romance “tem uma dívida para com Lorenzo in Taos, o livro de memórias de Mabel Dodge Luhan, de 1932, da época em que D.H. Lawrence ficou com ela em Taos, no Novo México.”

Não é preciso ter lido as memórias de Luhan (eu só li esta semana) para saborear o romance de Cusk. O livro de Luhan é um deleite, merece ser mais conhecido. Lawrence era irritável e intenso, como o pintor L no romance de Cusk.

Ambos os livros são dedicados a “Jeffers”. No caso de Luhan, este era o seu melhor amigo, o poeta Robinson Jeffers. No romance de Cusk, a identidade de Jeffers permanece um mistério. Alguém poderia escrever um trabalho de conclusão de curso na justaposição entre os livros.

Minhas justaposições favoritas são pequenas, engraçadas. No livro de Luhan, por exemplo, Frieda Lawrence, que acompanha o marido na visita, tem “uma boca como a de um pistoleiro”. Cusk dá à namorada de L, Brett, uma boca descomunal também (“a sua estranha boca como uma caixa de correio pendia aberta, negra”).

As pessoas não procuram um romance de Cusk em busca de um enredo, mas do seu ultra apurado aparato psicológico. Entretanto, há muitos enredos em Second Place. A filha de 21 anos de M, Justine, está na casa da mãe com o namorado. M ama a filha, mas está ressentida porque os filhos obrigam os pais a desistir do seu lugar ao sol.

Justine cresce com Brett, que é singularmente talentoso ou um sujeito que gosta de esticar a verdade, digno do Tom Ripley de Patricia Highsmith. Brett afirma ter cursado a faculdade de medicina, ter velejado sozinho através do Atlântico, ter feito uma mostra individual de suas fotografias e dançado no balé de Londres, embora não tudo ao mesmo tempo, imagino.

Os momentos de clímax do romance começam quando L finamente concorda em pintar o retrato de M, e Tony - que é um sujeito prático, confiável, taciturno, uma rocha - ameaça deixá-la se ela aceitar. Entretanto, ela aceita; este quadro será uma marca no aspecto mais importante de sua personalidade.

Tony é o farol da moral: o seu exemplo importa, porque o livro martela o tema do privilégio masculino. M inveja a liberdade de L, tanto na sua vida quanto na sua arte - o seu menosprezo pelas convenções. Ele teve sorte de ter nascido em um corpo masculino, ela pensa. “Uma mulher nunca poderia atirar-se ao destino e esperar sair dele intacta.”

L é um homem sem qualquer instinto decente. As mulheres parecem cercá-lo e ocupar-se dele como as Huris fazem para os imortais devotos no paraíso do Islã. Ele domina a atenção de todo mundo, mas ninguém pode dominar a dele. Será um monstro sagrado, ou apenas um monstro? Existe uma diferença?

Se eu pudesse ter esfregado uma lâmpada e iluminado as lúridas intensidades deste livro, eu poderia. Este não é um romance que alegra a alma. Mas alegrar a alma nunca foi o projeto de Cusk. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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